segunda-feira, 6 de outubro de 2014

(re)começar a viver

Para quem não leu a 1ª parte:   A dor de viver

A vida tinha mudado desde que Miguel saiu de cena. Enquanto mulher moderna, esbelta, senhora do seu nariz e dona dos seus objectivos, Liliana nunca se imaginou na sombra de homem algum. Mas a vida tinha perdido cor desde que ele ficou para trás. O Verão tinha sumido e o Outono trazia dias frios, tristes e chuvosos. E como é frio o sofá agora que ele lá não está, como vira aborrecida aquela série até então viciante e os filmes de domingo à tarde não são mais do que tortura. Uma cama grande é inútil e se não fosse a botija de água quente, os pés seriam da temperatura do seu coração. Dentro das paredes da sua casa, Lili não se privava em demonstrar o que sentia. Chorava sempre que lhe apetecia, quando não queria e quando queria também. Os lenços eram marcas habitacionais um pouco por cada divisão e um gato pequeno e frágil foi a escolha para evitar a solidão. Mas a melhor forma de superar o trauma foi mesmo a pintura, E a sua primeira pintura foi simples, crua, reveladora da realidade que os nossos olhos não vêem: pintou-se nua, frente ao espelho. E quando o tecido caiu ela viu-se como realmente é: branca, de uma tonalidade tão clara que lembra o frio do leste. Os seus seios redondos e volumosos dão simetria a uma silhueta cuidada. O sinal que tem debaixo dum seio não foi esquecido, muito menos a sua cicatriz. Era parte dela, da sua história, do seu passado. E desenhou as suas pernas elegantes cobertas por meias de renda pretas, como vestia - a única parte do seu corpo com roupa.
Após o desenho sentiu-se bonita, mas rapidamente notou a ausência de algo. Pegou na tinta vermelha, ainda fresca, e pincelou o seu peito. Era o sangue que escorria por dentro, que ninguém via mas que a fazia contorcer-se em dor. Era a ferida que não podia esconder ou esquecer. Era o erro que alguém cometeu e o qual só pode "aceitar". Agora sim, sentia-se perfeitamente natural. Se se achava bonita? Sim, no fundo era bonita, com o seu cabelo escuro e olhos pretos, o seu ar moreno e sedutor. Mas sabia que tinha cicatrizes para a vida que lhe mostravam o quão feia e errante foi. E como era possível ter tanto azar com os homens? Ela não sabia escolhê-los e, desiludida, jurava não escolher mais nenhum. Não tinha olho para isso, definitivamente não sabia analisar um homem. Levou o seu retrato para o quarto e pendurou a tela na parede. Queria acordar com a sua imagem. Não tinha melhor maneira de acordar do que saber quem era, o que era e como era. E ela era aquilo, tudo aquilo, sem tirar nem pôr. Tudo o que um homem não merece ter, por não saber cuidar.
Mais tarde seguiram-se as roupas. As aguarelas cederam perante o lápis de carvão e os traços finos. Nasceram fatos, vestidos, calças e tops daquela imaginação. Até vestidos de noiva chegou a desenhar. De cor escura, como o momento que sentia, claro. E no meio da desgraça da vida, descobriu a sua paixão: Desenhar roupa, vestir gente. "Como a vida é engraçada... Temos de perder o que gostamos para descobrir o que amamos". E cada desenho era um raio de luz, uma gota de esperança no mar da vida de Liliana. E foi num brusco pousar de lápis que ela afirmou intempestivamente: "Vou ser designer de moda, esta é a minha paixão!". E correu para a Internet em busca de cursos, especialização, livros e trabalho. Não lhe faltava vontade nem determinação - era mulher de mangas arregaçadas e dentes cerrados - e tudo o que queria era uma oportunidade para mostrar o seu potencial. Depois, com o tempo e a experiência, chegaria a perfeição, a qualidade e o reconhecimento. Caso contrário, viveria um sonho, um devaneio, uma loucura, um mero capricho... Simplesmente viveria conforme bem lhe apetecia. E talvez seja aquele viver desprendido a melhor forma de ser feliz.

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