domingo, 7 de setembro de 2014

Talvez sejamos amor

Um dia trocaste os abraços pelas palavras, o aconchego pela libertação. "Solta o monstro que vive em ti, grita, dança à chuva, ralha com os Deuses. Liberta-te". Limitaste-te a abrir-me a janela do terraço e a indicar-me o caminho. Deixaste-me a sós com toda a minha ira e respeitaste o momento que me deste. Achei-te verdadeiramente estranha, de uma maluquice sem fim. Mal eu sabia que eras tu a dona da razão. Subi as escadas exteriores e fiquei naquele terraço. Eu, a chuva, o frio e o céu escuro, carregado de raiva - a mesma que eu guardava nos meus pulmões. Comecei por gritar timidamente, com medo da resposta do céu imenso. Acompanhei a chuva com a cólera de uma vida, com a vontade de pedir as explicações que nunca ouvirei. Gritei, falei, pedi e exigi. A chuva apoderou-se do meu corpo e tornou-me pesado. Cai de joelhos no chão imundo e chorei. Ergui a cabeça e aquela chuva lavou-me. Baptizei a alma naquele momento. Estava leve, sem os demónios que alimentava diariamente. Levantei-me e desci as escadas. Entrei e lá estavas tu, à minha espera, serena, sentada na cadeira, de costas para a janela. Bebias um chocolate quente, sentia o aroma doce. "Toma, tens aqui o teu", tudo o que tinhas para me dizer. Olhei-te de alma vazia e corpo gelado. Agarrei a caneca e bebi. Permaneci ao teu lado sem saber o que dizer. Deste-me um sorriso no intervalo de um gole e perguntaste-me se me sentia melhor. Disse que sim, com todo o meu alívio interior. Voltaste a sorrir e deste-me a mão. Agarrei-a e senti o teu quente. Pela primeira vez senti o quente que jurei eterno. Talvez sejamos mais do que desejo, sexo ou prazer. Talvez sejamos amor.

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