segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Difícil é dar a mão e entrelaçar os dedos

A aceitação passa pelo momento em que as tuas mãos encaixam nas dela. É fácil caminhar ao lado de alguém, dividir o sol com outrem ou falar das notícias com qualquer um que partilhe uma direcção. Difícil mesmo é dividir um caminho, seja ele curto ou comprido. Os caminhos são sempre sinuosos, íngremes e estreitos. Difícil é dares a mão e entrelaçares os dedos. Complicado mesmo é encarares o caminho e nunca largares aquela mão, aquele corpo, aquela pessoa. Quando te desviares dos obstáculos, moves 2 corpos e quando quiseres optar por uma alternativa direccional, pensas a dois tempos, também em 2 corpos. Ao dares a mão abraças o desafio e libertas o egoísmo. Nunca deixas de ser tu e ela, nunca serás "um só". Aprende, serás sempre um "nós", nunca um só. Quando ela te conduzir para o caminho errado, tu pararás, olharás para trás e verás o percurso que fizeram. Escorrerás suor, não porque estás cansado da companhia, apenas por tudo o que lutaram. De seguida, beberás um pouco de amor do rosto dela e explicar-lhe-ás o caminho certo. Podem não estar de acordo ao início, mas no fim saberão qual o caminho a enfrentar, juntos. E quando estiveres errado, perdido e sem noção do que te espera, ela estará lá, com todos os medos do mundo guardados no seu pequeno peito e uma alma gigante que te puxa. E tu verás a fibra da mulher que te agarra com toda a força que a sua frágil mão não tem. Sentirás o orgulho de a teres e percebes que se não fosse tão difícil, aquele caminho não era para ti - talvez ela procurasse uma mão menor, menos forte e protectora. E é no equilíbrio que se sente a força, o balanço que dá a postura correcta e o caminho certo. De repente, apertas-lhe a pequena mão com ligeira força e verás a reacção de prazer-dor, cansaço-conforto. Ela mostrará momentaneamente, mas tu sentirás. E em tal gesto, tu não queres magoar nem mostrar que és mais forte, apenas dizer que estás lá, para ficar, com todo o orgulho por a teres ao lado. Que toda a força que tens também é dela. E ela sorrirá no conforto do encaixe. Olhar-te-á com a convicção de que és tu a companhia certa, a escolha exacta. E tu, rapaz, protege, cuida, troca a mão pelo colo, o colo pelas cavalitas ou pára a meio se ela não puder mais. Mas fica, lado a lado, sem abandonar, sem fugir, sem assumires o caminho por ti, sozinho. No fim, verás a dimensão da vitória quando é a dois. Afinal de contas, caminhar faz bem ao coração.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Os seus lábios eram letras

Ele olhava-a com saudade, ainda antes de a deixar ir. Procurava não mostrar o suor das suas mãos, o quente do seu coração ou o tremor da sua voz. Ela ali estava, imóvel e em bicos dos pés, à espera do carinho, tentando chegar ao beijo que ele procurava não banalizar. Aconchegou-a no abraço e beijaram-se. Os seus lábios eram letras, palavras, textos e sentimento. "Quero-te para mim, bem perto, no meu coração. Gosto de ti, de estar contigo e de ser o que somos, lado a lado. Volta, tens em mim o espaço que necessitas para ser feliz." Ela nada lhe disse, mas continuou a ler-lhe os textos, de olhos fechados, com os seus doces lábios colados aos dele.

domingo, 14 de setembro de 2014

Por mais...

Por mais que lave a face, tu não sais. Vejo-te naquele espelho que me reflecte e cheiro-te no meu perfume. Por mais que teime em viver, ainda me prendes nas tuas memórias, nas minhas recordações. Se tu fores eu sei que lá estarei, porque fazes parte de mim e eu sou teu. E por mais que eu tire o coração do meu peito, tu bates fora de mim.

domingo, 7 de setembro de 2014

Talvez sejamos amor

Um dia trocaste os abraços pelas palavras, o aconchego pela libertação. "Solta o monstro que vive em ti, grita, dança à chuva, ralha com os Deuses. Liberta-te". Limitaste-te a abrir-me a janela do terraço e a indicar-me o caminho. Deixaste-me a sós com toda a minha ira e respeitaste o momento que me deste. Achei-te verdadeiramente estranha, de uma maluquice sem fim. Mal eu sabia que eras tu a dona da razão. Subi as escadas exteriores e fiquei naquele terraço. Eu, a chuva, o frio e o céu escuro, carregado de raiva - a mesma que eu guardava nos meus pulmões. Comecei por gritar timidamente, com medo da resposta do céu imenso. Acompanhei a chuva com a cólera de uma vida, com a vontade de pedir as explicações que nunca ouvirei. Gritei, falei, pedi e exigi. A chuva apoderou-se do meu corpo e tornou-me pesado. Cai de joelhos no chão imundo e chorei. Ergui a cabeça e aquela chuva lavou-me. Baptizei a alma naquele momento. Estava leve, sem os demónios que alimentava diariamente. Levantei-me e desci as escadas. Entrei e lá estavas tu, à minha espera, serena, sentada na cadeira, de costas para a janela. Bebias um chocolate quente, sentia o aroma doce. "Toma, tens aqui o teu", tudo o que tinhas para me dizer. Olhei-te de alma vazia e corpo gelado. Agarrei a caneca e bebi. Permaneci ao teu lado sem saber o que dizer. Deste-me um sorriso no intervalo de um gole e perguntaste-me se me sentia melhor. Disse que sim, com todo o meu alívio interior. Voltaste a sorrir e deste-me a mão. Agarrei-a e senti o teu quente. Pela primeira vez senti o quente que jurei eterno. Talvez sejamos mais do que desejo, sexo ou prazer. Talvez sejamos amor.