sábado, 2 de agosto de 2014

A minha droga

Entrei no quarto, acendi a luz e pousei o meu pequeno bloco em cima da secretária. Puxei a cadeira e sentei-me em frente ao meu guardião de estados de espírito. Só queria escrever e escrever, ler e reler, voltar a escrever e apagar o que não tinha espaço em mim. Pensava que um dia, daqui a uns anos, quando o lesse iria rir com ironia, chorar com saudade ou arrepiar-me com a nostalgia do tempo. Mas naquele presente momento apenas queria escrever. A minha droga era a caneta, o papel e eu. Eu era o ingrediente principal da receita perfeita. Amava escrever, a minha droga. Estava tão viciado que perdia a noção do tempo. Quando dei por mim, percebi que escrever tinha virado prioridade, sem pressões temporais, sem desprazeres ou dissabores. Até a história triste soava a música para o meu peito. O relógio deixou de ter números e passou a ter letras. Sentia-me extasiado e possuído, sentia-me vivo de um jeito tal que nem o mundo podia competir. Respirava palavras que não dizia, libertava sentimentos que guardava, e mostrava fraquezas que desconhecia. A escrita era a minha droga e estava disposto a deixar-me ir. Decidi ir para onde ela me quisesse levar, recebendo o que estivesse destinado a ser meu. Escrevi sem parar, dias a fio, lágrima sobre lágrima e amores contra desilusões. Tal como na minha escrita, a fraqueza veio ao de cima. Morri ali, naquele quarto, consumido pela minha maldita droga. A escrita matou-me. Quem me mandou sentir tanto...
Despedacei-me em vida, mas quem encontrar aquele pequeno bloco terá o meu enorme coração.

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