segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Ao frio

"Não me esqueças", gritei todas as noites, deitado numa cama fria por não te ter. Os pés gelados contrastavam com o meu coração, ainda a viver do teu calor, da recordação que dispunha e que recusava perder. Enquanto te lembrasses de mim eu sabia que o calor manter-me-ia vivo, capaz de sonhar. Os dias e as noites foram passando, sem sinal de ti, apenas recordação. O teu rosto, de traços baços e indefinidos, ainda continuava a ser o mais bonito, aquele que eu via em todas as caras de qualquer rua. Mas as noites vieram, foram-se e a cama continuou fria. Os pés, as mãos e o coração arrefeceram pouco a pouco, cada vez mais. Já não podia correr atrás de ti, o frio que deixaste não o permitia. Os dedos não mais estavam aptos a tocar-te e o coração que não vê começa a deixar de sentir... O teu rosto ficou abstracto e a tua lembrança começou a ser residual. O tempo passou e a cama estava fria demais para poder receber calor. Não mais terias lugar em mim. Esqueci-te, enquanto esperei ao frio, tentando pedir-te calor.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Ela deixou saudade

Hoje era dia de ela ir - temporariamente, mas ia. Ele, habituado àquela fonte inesgotável de companhia, sentiu-se só. Parecia ridículo sentir-se só por ela, ela que tinha acabado de entrar na sua vida. Mas ele sentia a iminência da sua ausência e isso custava-lhe, sem saber como ou porquê. "Leva-me contigo, arranja espaço para mim. Um cantinho que nos torne presente", pensava ele para si próprio, gritando com a voz interior que ela não ouvia. Ela estava longe, sim, mas cada vez mais perto. E pela segunda vez deixou saudade...

domingo, 17 de agosto de 2014

Sinto-me longe

Estás longe, mesmo aqui tão perto. Toco-te mas não te sinto, falo-te mas não te quero ouvir. O teu silêncio faz-me perceber que saberei viver sem ti e a tua presença constrange-me. Estou longe, bem longe de ti. O meu caminho é contrário ao teu e tu não passas de uma proibição que teimo ver como prioridade. Por favor, desiste, permite-me conquistar a vida que me falta. Nós virámos distância.
A chamada desligou-se e nada mais foi dito. Pela primeira vez ela achava que a distância iria fazer bem, dando verdadeiramente a conhecer as intenções e os sentimentos. Se não se contivesse iria dizer-lhe que não queria mais por causa do medo, do amanhã e da dor que podia trazer. Mas, por outro lado, a seguir iria pedir-lhe perdão e implorar-lhe, de joelhos, por um regresso, por uma luta a dois. As lágrimas escorriam pela face, abundantemente e aos pares, em simultâneo. Uma escorria porque temia, a outra escorria porque não queria ficar por aqui.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Virámos distância

Estás longe, mesmo aqui tão perto. Toco-te mas já não te sinto, falo-te mas não te quero ouvir. O teu silêncio faz-me perceber que saberei viver sem ti e a tua presença constrange-me. Estou longe, bem longe de ti. O meu caminho é contrário ao teu e tu não passas de uma proibição que teimo ver como prioridade. Por favor, desiste, permite-me conquistar a vida que me falta. Nós virámos distância.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Aprender a amar

"O beijo perfeito ainda vivia nos lábios de Dhora. Podiam passar semanas, meses ou anos, mas a pequena obra de arte chamada de amor estava lá, digna de ser elogiada.Todas as noites Dhora olhava um céu mais ou menos estrelado e dançava com a obra de arte que trazia no seu peito. Amar é a primeira maravilha do mundo e quem disser o contrário é porque nunca conseguiu observar o amor, sentir aquela mistura de sentimentos devastadores capazes de dar a conhecer a instabilidade emocional de um coração. Amar é dar tudo e achar que o tudo é nada. Amar é buscar a perfeição dentro de um peito e gostar da imperfeição de um corpo que nos completa. Dhora via Robert como um ser perfeito dentro de um coração despedaçado. Mas ela sabia que se alguém podia dar-lhe vida era ela, e estava disposta a reanimá-lo, dando-lhe todas as razões do mundo para ser feliz. Passaram-se 3 semanas de pensamentos, desejos, gemidos abafados e gritos silenciosos. Perdeu a conta à quantidade de vezes que o chamou, que escreveu o seu nome no canto dos seus livros e se declarou em linhas quadriculares de cadernos escolares. Ela estava a aprender a amar na escola da vida, onde nem sempre se passa à primeira, onde nem sempre o sucesso nos ensina. Se sofrer é condição para ter aproveitamento, Dhora estava disposta a sofrer, a chorar, a arregaçar as mangas e gesticular bem alto para que todos vissem o seu sufocar em desejo. O peito batia descompassado e aquela arritmia tirava-lhe o ar - Merda, como te amo, Robert. Como me tens sem querer, sem saberes e sem aproveitares. Vem, beija-me, dá-me um beijo que eu entrego-te o meu mundo, a minha chave, o meu amor. Tranca-me com todo o teu amor, engole a chave do meu peito e jura que não mais a tirarás de dentro de ti. Guarda-a no teu coração. És a minha chave - E o céu negro todas as noites trazia estrelas, luas e sonhos. Dhora já não sabia viver sem ele."

imagem: google

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Diz o meu nome

Odeio quando me chamas. O meu nome é comum, de uma banalidade igual à das pessoas que o dizem. Mas quando ele sai da tua boca agarra-me, prende-me, enfeitiça-me e conquista-me. O meu nome vira teu e eu viro a tua voz. Quando me chamas eu olho-te, escuto-te, respondo-te e quando dei por mim, parei de viver. Arrependo-me de te ter dito o meu nome, maldito dia! Agora desespero por te ouvir, por o ouvir, por o dizeres. E toda a vez que o disseres eu estarei presente. Então grita, berra este meu nome que também é teu. Chama-me à chuva. na tristeza, à luz da lua e no amor. Chama-me e viverei em ti. Por onde andas que não me oiço? Onde estou que não te encontro...

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O coração também se cansa

Sinto-me cansado. Depois de um dia desgastante de casa-trabalho, trabalho-casa, correria de crianças, barulho dos transportes e patrão conflituoso, estou exausto. A minha mente fervilha como se não suportasse nada mais. Tenho a alma cansada, o corpo pesado e não me sinto suficientemente capaz de suportar um novo olhar julgador, um grito agudo da tua voz ou mais uma caminhada pela estrada da vida. E lá vens tu com a loiça por lavar, a roupa mal dobrada ou a cama por abrir. A criança chora porque tem febre e cabe-me a missão de tentar adormecê-la. Respiro fundo e procuro reencontrar-me no meio desta confusão que não é nada mais nada menos que a minha vida. Se o corpo e a alma se cansam que dizer do coração? O meu cansou-se de bater e viver cheio de amor, treme no limbo do lutar e desistir. Viver no limite da perfeição esgota o mais sonhador dos Homens. Estou cansado, preciso de recuperar o coração para voltar a amar. Chego à cama, olho-te e viro-me para o meu lado. Hoje não te amo, desculpa. Estou cansado, dói-me o coração.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A cor do meu destino

Ela aproximava-se de andar ritmado como quem desfila segura de cada passo, ao som de flashes disparados que me encandeavam. A rua encolheu e estreitou, o chão de mil anos virou passadeira vermelha, cor do meu rosto e da minha apatia. O vestido justo, os sapatos altos e a pequena carteira embelezavam ainda mais aquele corpo perfeito. Os seus cabelos dançavam ao vento, embalados pelo tlintar dos seus brincos, ao mesmo ritmo do seu andar. As suas ancas moviam-se como quem seduz. Era perfeita e ainda não tinha chegado. Aproximou-se e vi o seu sorriso simétrico de batom vermelho, a mesma cor do meu coração. Perfeito. Sorri à minha maneira misturando embaraço com vergonha, amor com deslumbramento. Para dentro perguntei se tu eras o meu jackpot. Olhei-te e a resposta era óbvia: o prémio de uma vida, a minha sorte grande. Aproximaste-te com um sorriso cada vez maior, semicerraste o olhar como quem seduz - mas seduzir não é para ti - como quem conquista. Beijaste-me a face e juro que a alma corou. O meu canto do lábio sentiu os teus. Que beijar perfeito, que desejo de provar esse sorriso. Caminhámos lado a lado, entre conversas e olhares, desejos e timidez. A medo dei-te a mão. Sem qualquer receio soubeste receber o meu toque e rapidamente escrevemos um "nós". Este foi o nosso primeiro momento, colorido a vermelho, a cor do meu destino.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Quando as nuvens partirem, o céu azul ficará

O tempo dói, eu sei. Mas o tempo tudo cura, dizem. E o tempo traz tudo o que fizeste com ela, mas agora a sós. Não é o mesmo, com ela vias a felicidade em alta definição, captando surpreendentemente todos os pedaços de alegria que te rodeavam. Hoje vês com o olhar nostálgico de quem já viveu ardentemente, pela metade. A música, o momento, um registo fotográfico do qual te sentes incompleto. O tempo dói. Mas dá tempo ao tempo, mostra-lhe que sabes esperar com a mesma serenidade com que soubeste ter. Assim como o tempo a trouxe também a levou. Pelo meio deixou-a perdurar, conquistando-te de norte a sul. Chegaste a pensar que era ela o tempo que te restava... Ela dói-te. A sua dor ainda te corre nas veias porque o teu coração ainda a tem lá dentro. Mas é tempo de te libertares. Um amor doente apodrece um coração.
Chegou a hora, faz um esforço, por mais hercúleo que te pareça. Olha para o céu e vê o tempo. Ela foi sol, mas um dia toda a chuva parará. Acredita que sairás do Inverno frio em que caíste. Ela é a marca do tempo, mas luta, afinal o tempo é teu, tudo o que te resta. Não a deixes roubar-te a única coisa que ficou. Sorri e vive, liberta-te do que te tornaste. Porque "quando as nuvens partirem, o céu azul ficará".

sábado, 2 de agosto de 2014

Vem

Vem, preciso de ti. Lê-me os lábios secos e inertes, limpa-me as lágrimas que ainda não verti. Invade a minha mente como constantemente o fazes e expulsa qualquer medo. O mero facto de cá estares afasta qualquer nuvem negra. Dá-me a mão, dá-me calor. Beija-me, leva-me às estrelas. Sim, contigo sei que chego às estrelas. Aperta-me com força e faz-me voar. Como sabe bem tirar os pés do chão. Contigo existo, sou dono do mundo. E tudo o que tenho é um coração para te dar...

A minha droga

Entrei no quarto, acendi a luz e pousei o meu pequeno bloco em cima da secretária. Puxei a cadeira e sentei-me em frente ao meu guardião de estados de espírito. Só queria escrever e escrever, ler e reler, voltar a escrever e apagar o que não tinha espaço em mim. Pensava que um dia, daqui a uns anos, quando o lesse iria rir com ironia, chorar com saudade ou arrepiar-me com a nostalgia do tempo. Mas naquele presente momento apenas queria escrever. A minha droga era a caneta, o papel e eu. Eu era o ingrediente principal da receita perfeita. Amava escrever, a minha droga. Estava tão viciado que perdia a noção do tempo. Quando dei por mim, percebi que escrever tinha virado prioridade, sem pressões temporais, sem desprazeres ou dissabores. Até a história triste soava a música para o meu peito. O relógio deixou de ter números e passou a ter letras. Sentia-me extasiado e possuído, sentia-me vivo de um jeito tal que nem o mundo podia competir. Respirava palavras que não dizia, libertava sentimentos que guardava, e mostrava fraquezas que desconhecia. A escrita era a minha droga e estava disposto a deixar-me ir. Decidi ir para onde ela me quisesse levar, recebendo o que estivesse destinado a ser meu. Escrevi sem parar, dias a fio, lágrima sobre lágrima e amores contra desilusões. Tal como na minha escrita, a fraqueza veio ao de cima. Morri ali, naquele quarto, consumido pela minha maldita droga. A escrita matou-me. Quem me mandou sentir tanto...
Despedacei-me em vida, mas quem encontrar aquele pequeno bloco terá o meu enorme coração.