segunda-feira, 14 de julho de 2014

Revisitar o passado

Sentou-se no chão do quarto, no lado da sua metade da cama, agora vazia. Abriu a segunda gaveta da mesinha de cabeceira e tirou de lá todas as fotografias, todas as cartas que escreveram, todos os papéis idiotas que trocaram. Aquelas frases eram eternas e aquelas palavras eram memórias de algo que viveu. Mas todos os versos eram lidos no passado. Nada ficou, só ela restou. Ela amava-o, o seu peito era dele e não tinha como o negar. Lia cada palavra que ele lhe tinha escrito e sentia-a no coração, sentia-a nos lábios, ouvia-a sob a forma da sua voz e passava os seus dedos pela tinta seca para sentir a sua presença. Tudo o que ela é, foi construído a dois, tudo o que sonhou ser estava destinado a ser com ele. Não havia maneira de esquecer o que viveu, e viver sem ele é não ter peito, não ter alma, não ter sossego. Bastava que ele dissesse que sentia saudades, bastava ele dizer-lhe que sentia a sua falta. Só ele tinha a chaves da sua mente, só ele podia entrar no seu peito. Dentro de si, só ele, nada mais. Com ele em si nunca se sentia só, sem ele tudo o resto perdia a cor, era inútil.
- Sinto a tua falta, preciso de ti. Não sei o que é viver sem ti, sem nós. Quando voltares, entra devagarinho. Se estiver a dormir, deita-te e enrosca-te a mim. Um amo-te chega, sem desculpas, sem mil perdões. Um amo-te chega e tudo fará sentido. Tu chegas-me e nem o amo-te é preciso. Apenas fica aqui, perto de mim.
Limpou as lágrimas e voltou a arrumar aquelas marcas do passado na gaveta. Fechou-a à chave e fez de conta que não a abriu. Mas mais do que uma gaveta, abriu a alma, desabou a tempestade que guardava dentro de si. Uma vez por semana fazia isso, sentava-se ali e revisitava o passado. Sabia-lhe bem voltar atrás, sabia-lhe bem lembrar-se de que foi feliz. Levantou-se e apagou a luz do quarto. Tudo escuro, como o seu coração. A vida estava de volta.

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