segunda-feira, 14 de julho de 2014

Ao som do coração

Capítulo 8


Guilherme e Leonor viviam nas nuvens. As suas personalidades não se tinham mitigado e a privacidade de ambos era religiosamente aceite. Continuavam a fazer as suas vidas com a maior normalidade. Trabalhavam, viviam nas suas casas e continuavam a ter tempo para as suas pequenas rotinas. Mas sempre que podiam procuravam estar juntos e esse bocado era o melhor do dia. Sempre que podiam dormiam juntos, ora na casa de um, ora na casa de outro. As noites de música lá no bar tornaram-se banais e ele continuou a ser o seu maior fã. Todas as noites estava lá e ela fazia questão de demonstrar ao mundo inteiro que ele era o seu homem. Mas 4 meses e meio depois do começo da relação e de toda a cidade começar a reconhecê-los como casal, o telefone de Guilherme toca, dando a conhecer um número que há muito não era visto. Era a Sónia a ligar. A Sónia... as borboletas no estômago estavam lá, nunca tinham saído, apenas não voavam com a mesma intensidade. Ele não atendeu, não podia permitir que ela lhe voltasse a estragar o momento de felicidade. Ela era pródiga nisso. Após o telefonema, em vão, recebe uma mensagem:


 "Olá Gui. Espero que esteja tudo bem contigo. Podemos falar? Temos muito para contar. Beijinho"


Ele não sabia o que responder. Esperou noites a fio por aquilo, procurou-a dia após dia, implorando-lhe uma conversa. Agora, quando tudo parecia ter ficado resolvido, ela aparece pedindo o que recusava. O melhor era deixar para lá, ignorar. Ela já nem estava na cidade, já não tinha nada que a prendesse ali... 
Foi ter com Leonor para almoçar, só ela merecia a atenção e a completude do amor. Se sentia amor pelas duas? Não, não se amam duas mulheres, sob pena de não se amar nenhuma. Por Leonor ainda não era amor, mas com o tempo não tinha dúvidas de que o seria. Quanto a Sónia, já não o era. Ela fez com que todo o amor que sentiu tivesse sido libertado em sofrimento. Agora é mistura de nostalgia com arrependimento. 
Mas o destino tem destas coisas, nesse mesmo dia, ao final da tarde, enquanto fazia as compras que Leonor lhe tinha pedido, Guilherme esbarra em Sónia no corredor das bebidas. Apeteceu-lhe fugir, esconder-se ou pegar numa garrafa de água ardente e bebê-la de seguida, até ao fim. Ela deu-lhe um sorriso sentido, aquele que o derreteu durante anos.


- Olá Guilherme
- Olá.- o olá era seco não por intenção, apenas pela estranheza do momento. Com ela sempre foi assim, sempre ficou sem palavras, sem coordenação, sem qualquer segurança.
- Eu tentei falar contigo hoje e é curioso encontrar-te precisamente neste dia, tanto tempo depois.
- Sim, vi mais tarde que me tinhas ligado e deixaste mensagem. Está tudo bem?
- Sim, está... quer dizer, vai-se andado. A vida talvez não passe disso, de um ir andando constante.
- Sim, talvez seja isso - a vontade de Guilherme era ter-lhe dito que a vida para ela deveria ser sempre assim, um ir andando, longe dele.
- Então e tu? Como estás? Sei que não mereço saber da tua vida, logo eu que tanto mal te fiz
- Deixa para lá, fizeste-me mal sim, mas também me fizeste crescer...
- Já vou tarde para pedir-te desculpas?
- Nunca é tarde. Mas agora não preciso delas. Sinto-me feliz
- Sim, já sei. Regressei ontem à nossa cidade e a Liliana disse-me que estavas a reencontrar-te. Já tens alguém não é? Parece sério...
- Sim, espero que seja sério, mas nunca se sabe o que nos reserva o amanhã...
Ela sentiu o alcance das palavras e engoliu em seco. Uma capacidade que ele sempre teve, dar recados camuflados mas que espetam como agulhas.
- Mereço tudo. Mas queria mesmo era o teu perdão e dizer-te que fui parva. É pena não dar para voltar atrás no tempo e dar valor a quem nos merece.
- Não não foste, seguiste com a tua vida e estás feliz, com outra pessoa e outra maneira de viver.
- Não deu. Foi uma confusão de sentimentos, acabou em ilusão. Agora estou de volta, estou a trabalhar na "SóMáquinas", liderando a equipa de engenheiros químicos. Ou seja, estou de volta à terra que nos viu crescer.

Aquela era provavelmente a pior notícia que podia receber. Sonhou com esta fraqueza durante muito tempo mas nunca pretendeu vê-la implorar algo. Ela podia mexer com os seus sentimentos de uma maneira peculiar e ele tinha medo de demonstrar essa fragilidade. Logo agora que estava no rumo certo. A vida dá cada volta... e ele tinha de ser firme sob pena de descarrilar.
- Bem, lamento. A vida é madrasta e as suas rasteiras tocam a todos. Até um dia Sónia. Felicidades.


Fugiu a beijos de despedida, a explicações ou novos olhares trocados em sentimento. Ela era o seu passado e simbolizava tudo o que o fez tornar-se o homem que é. Deu-lhe tanto que agora o nada era tudo o que restava. Fez o resto das compras com a cabeça perdida, um turbilhão de emoções. Precisava de regressar para os braços de quem realmente lhe quer bem, a Leonor. E ela não merecia um passo em falso.




Capítulo 9


Passaram-se 6 meses desde o início do namoro. Leonor tinha de ir ver a sua avó a Lisboa, estava doente e após a morte do seu filho não mais recuperou. A neta era tudo o que lhe restava, depois da perda precoce dos homens da sua vida. O seu marido morreu aos 30 anos, por uma doença qualquer que ninguém soube com exactidão. Eram outros tempos, em que se morria sem dar valor ao que nos levava. Por seu lado, o seu filho morreu aos 47 anos, de acidente de automóvel, quando se preparava para ir buscar Leonor à escola. Uma vida de tragédias de quem sempre tudo fez para viver em paz. Agora, com a sua neta longe de si, vivia num lar simpático, onde preenchia os seus dias em conversas com gente da sua idade, passeios seniores, programas de televisão e longas sestas. Os seus 82 anos reflectiam-se no andar cambaleante, nos pequenos passos e nas rugas que lhe invadiam o rosto. Os ossos eram frágeis mas o seu espírito forte. Tinha um desgosto, não ter conseguido dar tudo o que a sua menina merecia. Só queria vê-la feliz, conquistando o mundo e beneficiando de toda a positividade que detém. A Leonor merecia, sempre foi uma menina responsável, independente e sofredora. Sempre soube secar as lágrimas à frente de todos e desabar o seu mar de lamentações quando estava sozinha. Foi a avó que a incentivou a sair dali, daquela cidade grande e confusa, após a morte do pai. A mãe dela, essa, só lhe deu a vida, nada mais. Nunca mereceu ser chamada de "mãe". E nesse Domingo, Leonor regressou a Lisboa, agora acompanhada por Guilherme, a sua melhor companhia. Entrou no quarto da avó e deu-lhe um abraço sentido. Aquela senhora foi avó, mãe e tudo o que uma mulher pode ser na vida de uma criança, rapariga e mulher. Toda a família se resumia às duas. Elas riram-se, choraram e iniciaram a típica conversa de quem está afastado. Começaram a surgir as novidades.


- Vó, quero apresentar-te uma pessoa... - E naquele momento fez sinal para Guilherme avançar, ele que aguardava impaciente à porta, observando toda a ternura daquelas duas mulheres fortes, divididas por gerações distintas.
- Muito prazer. Ouvi falar muito bem de si - disse Guilherme de sorriso no rosto enquanto se curvava para beijar aquela face radiante
- Ora essa! Se cá veio é porque é especial. Sei disso.
Ele sorriu e olhou para Leonor como quem pergunta
- Eu nunca dei a conhecer qualquer namorado. És a primeira pessoa que apresento como tal.
Ele não sabia o que dizer. Sentiu-se maior do que realmente era. Sentiu-se mesmo especial. Palavras sábias vindas de uma pessoa experiente
- É um orgulho e um prazer ter sido o tal. Se depender de mim, não conhecerá outro, Dona...
- Maria, chamo-me Maria.
- Encantado! Sou o Guilherme.


E os 3 ficaram ali a falar, virados para o jardim verde e florido. A Dona Maria sentada no cadeirão de palha e Leonor e Guilherme sentados nos pequenos bancos ao seu redor. A conversa fluiu e nem deram pelo tempo passar. A senhora sorria com vontade, de sorriso rasgado, verdadeiro, natural como a sua beleza. A neta era parecida com a Dona Maria e aquele momento despertava em Guilherme a vontade de viver uma vida ao lado de Leonor, poder um dia partilhar tardes de sol ao seu lado, nos cadeirões da sabedoria que a velhice premeia.

No caminho para casa ele agarrou-a e beijou-lhe a testa, fechou os olhos e disse-lhe:


- Obrigado Leonor.
Ela sorriu como quem percebe.
- És parte de mim e se não sentisse isso não te tinha levado lá.

Tudo parecia perfeito, um sonho tão real.

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