quarta-feira, 18 de junho de 2014

Leva tudo


Era o dia mais feliz das nossas vidas. O nosso amor era "baptizado" naquele lugar sagrado. Davam-lhe um apelido e jurávamos a eternidade perante os presentes. Há muito que desejávamos aquele momento. A certeza do sentimento tinha sido garantida pelo tempo e pelo seu crescer constante. Amava-te louca e incondicionalmente. Uma vida pela frente era pouco para provar-te o que sentia. O anel entrou no dedo e arrepiava-me o corpo. Era feito à minha medida, tal como tu. Éramos perfeitos. Eu o louco, tu a bela. E aquele vestido branco tornava-te o meu sonho realizado. Eras minha mulher e o mundo teria de abrir espaço para o nosso amor, tudo o resto devia arredar-se para te deixar passar. Éramos o exemplo de casal, a personificação do verbo amar. Nessa noite não dormimos. Trocámos prazer e sonhámos agarrados, lado a lado. Tínhamos a vida pela frente, mas começámos a planeá-la logo ali, na nossa cama, bem ao nosso jeito. Olhei-te com todo o orgulho que um homem pode ter. O mundo é grande demais para vivê-lo sozinho, mas a sua grandeza torna difícil a tarefa de encontrar a pessoa perfeita. E eu tinha-te, cheia de sonhos, juras e promessas. Eras uma mulher feliz, apaixonada, e isso era tudo o que precisava. Recordo-me do dia em que comprei a nossa casa, aquela que tu desejaste durante meses, que visitaste uma e outra vez mas que já estava vendida... Comprei-a sem saberes. Lembro-me de te levar lá e dizer-te que era nossa. Saltaste, berraste, choraste de emoção e culpaste-me entre beijos por tamanho desespero. "Amo-te", soltavas com toda a convicção. Amo-te, escutava com toda a certeza. Lembro-me de a decorar-mos ao teu jeito, seguindo o teu feeling feminino. Vieram fins de semana em casa, rodeados de jornais e roupas velhas, pintando paredes e imaginando o futuro. Fizemos amor em cima de tinta fresca, fomos amor dentro daquelas quatro paredes. Como posso esquecer o momento em que entrámos naquela divisão pequena e acolhedora, olhámos para as paredes e senti o teu aproximar. Meteste-me as mãos pelas costas e agarraste-me enquanto olhávamos a parede por pintar. "Aqui será o quarto do nosso filho". Não sabia o que te responder, apenas imaginei carros pelo chão, bolas de futebol em cima da cama e a playstation ligada. Imaginei os seus desenhos animados predilectos pintados na parede e os meus olhos cintilaram. Abracei-te enquanto descia à terra, na certeza de que tudo seria uma questão de tempo. O meu mundo eras tu - giravas e eu vivia.
Tudo isto me veio à cabeça como o filme da minha vida, enquanto aqui estou, dentro deste edifício, nesta sala envidraçada, segurando uma caneta e com umas quantas folhas à frente, exigindo assinatura. Foco o olhar e regresso à realidade. Olho para o lado e vejo-te através do vidro, de ar frio, olhar distante. Estás rodeada de sujeitos engravatados e sinto-te nervosa. Olhas constantemente para as folhas que tenho à frente. Só elas importam. Desvias-te da rota do meu olhar. Não queres nada mais de mim a não ser uma assinatura. A tua vida passa por esta folha de papel, não há dúvidas. Volto a olhar-te enquanto penso como chegámos aqui. Como fui eu perder-te, como foste capaz de apagar tudo o que escreveste, disseste, sentiste e fizeste sentir? Virámos dois estranhos. Somos desconhecidos numa vida que criámos. És desilusão, és um erro. Respiro fundo, assino e pouso a caneta. Tiro o anel do dedo e pouso-o, também em cima daquelas folhas. Olho-te como quem te fala. Ali tens tudo o que nos juntou, ali está tudo o que nos separa. Leva tudo, vai embora. Pena não poderes levar as minhas memórias...

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