sábado, 21 de junho de 2014

Diana: o meu Templo

Esta cidade esperava-me e comigo seguia uma vida de problemas, esperanças e ambições. Era a cidade ideal para recomeçar e voltar a viver, era tudo quanto queria. Naquelas ruas sentia-me um estranho num local que nada fazia para me receber. Na mala trazia toda a coragem que os sonhos dão mas tremia com o medo do desconhecido. E sonhar é tão difícil quando nada se conhece. Mas tudo mudou no dia em que fui ao bar e te encontrei. Na memória guardarei o teu pedido: uma caipirinha, ali, tão longe de casa, tão perto de mim. O teu português rapidamente me chamou a atenção. Falavas com os teus amigos na língua de Camões, tão longe de casa, num universo longínquo. 
- Ele é giro e olhou-me - disseste com a confiança de que ninguém ouvira a não ser aqueles dois receptores.
Eu ouvi e percebi que podia ser eu. Seria egoísmo a mais remeter a conversa de uma desconhecida para mim, mas o teu português e os olhares que insistentemente me davas levavam-me a crer que podia muito bem ser eu. Porquê eu entre tantos outros, porquê eu ali, longe de tudo o que sou? Só havia uma hipótese de saber. Andei na tua direcção. Olhaste-me como quem me pergunta onde vou, como quem pede para continuar a caminhar. Eu respondia-te com toda a calma que tentava conter e com a adrenalina a consumir-me. Uma mistura perigosa quando (se) começa a falar (com) (d)o coração.
- Hi! - primeira abordagem que nada primou pela originalidade. Possível tiro no pé, pensara.
- Hi - responderam-me de forma simples, com a mesma criatividade que apliquei. Senti-me de passagem quando queria ficar. Mas para ficar teria de usar o meu maior trunfo, possível causador de forte embaraço. Olhei-te afastando os teus amigos do meu campo visual. Eles que me desculpassem mas tu preenchias qualquer olhar. Sorri antes de te falar numa altura em que passavas os dedos pelo cabelo, perto da orelha. O teu tique de quem se entrega em silêncio.
- Queres outra caipirinha? - estas palavras eram a tua casa e sabia que irias ver em mim um porto seguro.
Tu arregalaste os olhos e ficaste boquiaberta. O meu português era perfeito e falar-te assim significava ter ouvido as tuas palavras. Senti-te tão desconfortável que te via diminuir e diminuir a cada segundo. Perdias tamanho para tanto embaraço. Eu ri-me e pisquei-te o olho, confiante dentro dos possíveis, enfrentando a incógnita reacção da tua timidez. Os teus amigos riram-se até mais não e safaram-nos do bloqueio.
- És português? Brutal! - exclamaram em modo pleno de satisfação, sentido por todos aqueles que vivem com um país na memória, juntando bocadinhos dele à distância.
- Sim, sou português, de Portugal! Desculpem não me ter apresentado. Sou o Lucas.
- Lucas, muito prazer, sou a Diana - assumiste o protagonismo da conversa.
O resto, sem faltar ao respeito, não me recordo bem. A minha memória temporal acabou em Diana e no teu sorriso recomposto. Hoje continuo longe do meu país, longe dos meus pais e do lugar que me viu nascer, mas tenho Portugal em casa. Passaram 3 anos desde a minha aventura por estas terras e outros tantos desde que te conheci. Tenho Portugal em casa, Portugal no meu peito, e tu, Diana, és o meu templo. O destino quis que te encontrasse a milhares de quilómetros de distância, dando-me a conhecer o que de melhor tem aquele nosso rectângulo: o amor, a aventura, a descoberta.

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