quinta-feira, 29 de maio de 2014

Tu, o contrário do mundo

É o teu desencontro com o mundo que me faz amar-te. Se tudo é complicado, descomplicas, se o dia é triste, de um inverno sem fim, chegas e sorris, trazes o sol perdido entre as nuvens. Quando penso que o precipício é o destino que me espera, dás-me a mão e mostras-me um atalho. Sempre que sinto o frio da solidão, vens, encostas-te e dás-me o teu calor. Juro que se o mundo rodar para a sua direita tu rodarás para a esquerda. E eu virar-me-ei para o teu lado, voltando as costas ao mundo. 
A sensação de viver passa por aproveitar-te e cada vez que falas, quebras o silêncio que todo o mundo me dá. Talvez seja respeito pela tua palavra, talvez seja aceitar a hierarquia em que te coloco no topo. És o meu topo do mundo, onde chego e permaneço, sem desejar nada mais para além de ti, sabendo que não há nada mais para além do que somos. O tempo dói quando não estás, mas não se sente quando chegas. Contigo sou o que queria ser, desalinhado de tudo o resto, perdido na rota da vida. Se o mundo nos foge, nós esperamos. Ele há-de rodar até nós.

Não fomos mais do que sonhos

Eu tentei, juro-te que tentei. Lutei contra tudo e todos, contra os que anteviam fracasso, contra os que teimavam em ver o fim antes sequer do começo e lutei contra mim. Sim, sei que fui um dos nossos piores inimigos. Os meus medos e inseguranças levaram-nos por um caminho longo e sinuoso. Mas, essencialmente, lutei contra o destino. Nada batia certo, tudo dava ao lado e nós teimámos em enfrentar as tormentas juntos, unidos e a uma só voz. Fomos corajosos, partimos à descoberta onde outros se recusavam a embarcar, navegámos em águas bravas, onde a maioria naufragava. Mas esta vontade de marcar a diferença, de enfrentar o impossível, acabou por cegar-nos. Devia ter visto que os sonhos que vivia eram os nossos e os teus. Foi tudo o que vivi e perdi-me neles. 
Hoje, em águas bem mais calmas - se bem que não se bóia por muito tempo no mar da vida - parei para pensar, para olhar para trás e ver o que somos. Estamos cansados das nossas batalhas hercúleas, estamos saturados do tempo que perdemos a lutar e fartos do que ficou por viver, perdido em sonhos. Sinto-me exausto de viver a sonhar. Estou cheio de sonhos do dia a dia e de viver anos e anos a adiar, a esquecer ou a perseguir o que me foge. Parei e vinquei os pés bem firmes no chão. Não há mais pernas para andar, não há mais estrada para nós. Estou farto de viver tanta coisa e sentir tão pouco. Deixei de te sentir quando deixei de acreditar nos sonhos. É o fim, estamos acabados e não fomos mais do que sonhos. O sonho comanda a vida, mas o amor é muito mais do que um sonho, tem de virar realidade.

(E a palavra sonho foi repetida vezes sem conta, para mostrar que também cansa)

quarta-feira, 28 de maio de 2014

És o meu lado certo

Tudo tem dois lados, o positivo e o negativo, a verdade e a mentira, o Paraíso e o Inferno. A vida dá-nos sempre dois lados, mesmo que não sejam facilmente perceptíveis. Dizem que as pessoas são como o feijão frade, de duas caras - os dois lados - e que a moeda tem duas faces, como as nossas decisões. Tudo verdade. O bonito e o feio dependem do lado de dentro e do lado de fora, e da maneira que cada um pretende ver. Para mim, tudo é claro: para os que me conhecem, és o meu lado de fora, o meu orgulho no mundo, o que mais cuido e zelo. Para mim, és o meu lado de dentro, que me faz sentir aperto, borboletas, suores e prazeres únicos.  És o meu melhor lado, o meu lado certo, mesmo quando me sinto revirado do avesso. Aceita-me, quero ter-te do meu lado, sempre. E ter-te ao meu lado não é ver-te ao rodar a cabeça, mas sim sentir-te ao meter a mão no peito.

Odeio-te

Odeio-te! Se odiar é negar a tua existência, é claramente isso que eu sinto. Odeio o que é teu, o que dizes, fazes, o que és e foste. Odeio o que sou porque, em parte, também sou teu. Como posso suportar essa sensação de repulsa que me despertas? Quero olhar-te e não te ver, quero ouvir o teu nome e não sentir. Odiar-te passa por desejar ver-me ao espelho e não ser eu, não te ver em todos os meus traços, rugas e sorrisos. Odiar-te é saber que és tudo o que vivi. O quanto te odeio tem de me sedar, tornar-me imune ao teu nome, ao teu cheiro, à tua ausência... 
Amo-te. É evidente, não é? Palavra curta quanto o antónimo, onde te volto a encontrar. Porque oscilas em mim? Porque me dás o que de melhor e pior eu sou? No fundo, sou-te, onde te voltas a encontrar. 
Odeio-te. Terminarei sempre com um odeio-te, todas as vezes que te amar.

terça-feira, 27 de maio de 2014

O coração de uma mulher

Sabes o tamanho e o significado de um coração feminino? Sabes o quanto custa armazenar tanto amor num coração tão frágil? Uma mulher é um cristal, luzidio, do mais puro que existe. A mulher é o pilar da Terra, que sustém a derrocada do mundo e que floresce o novo dia. Nós, mulheres, damos vida e sentido à mesma. Lembra-te disso quando tiveres o coração de uma mulher nas mãos, quando a razão do seu bater fores tu e tudo o que te seja pedido não passe de um forte agarrar, de umas mãos seguras. Porque deixaste cair tudo o que te dei? Sabes o quanto demorou a construir o que deitaste a perder? Sabes o quanto demora a reconstruir um coração despedaçado? Pensei que só tu soubesses montar o puzzle da minha vida, que fosses todas as peças que precisava ter para o completar, sabendo o sítio certo para cada uma delas. Hoje, sinto que não o sabes, que me enganei. És apenas mais um, que desmancha e baralha, que mistura tudo e acaba por levar umas quantas peças por malvadez, tornando o puzzle incompleto. Faltam-me peças, falta-me amor. Como posso eu acreditar que estarei completa? Vejo-te partir com o que me pertence, vejo-te sair com o que te dei. Como ousas brincar com o coração de uma mulher, o mais puro que o mundo conhecerá, o amor mais sincero que alguém te pode dar... Vai, sai da minha vida do jeito que tu queres, levando a tua falsa glória, deixando toda a minha dor. Devia ser proibido brincar com o coração de uma mulher, devia ser proibido deixar-te brincar ao amor.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Para sempre um obrigado

Entrei e sorri por obrigação. Sentei-me ao teu lado e agarrei-te a mão para sentires o frio que continha, o gelo que as minhas palavras iriam espalhar. Olhaste-me ainda com o olhar terno, que sempre me habituaste a ver. Por dentro chorava, não merecias a bomba que iria soltar, muito menos a bagunça em que te irias tornar. Engoli o peso da decisão, a irreversibilidade da palavra e a aceitação de toda e qualquer revolta. A minha era interior, por te conhecer tão bem, por saber o quanto vales e és. És o Homem da minha vida, o Príncipe encantado que eu e todas as mulheres sonhámos um dia encontrar. Talvez por idiotice, por te ter vivido tempo demais, por todos os mimos e todas as vontades que sempre me satisfizeste, decido partir. Hoje estou decidida a abandonar o castelo de encantar, deixar-te para trás e fugir, numa correria sem fim, perdida no bosque, entre árvores cerradas e barulhos sombrios. Preciso de enfrentar a escuridão sozinha, encontrar uma saída no meio das trevas. 
Sei que abandonarei esta casa por aquela porta, mas nunca sairei do teu coração. Conheço-te bem, sei o tipo de homem que és. Quando amas, amas para sempre, quando és, és de corpo inteiro, mas quando sofres, cortas de vez qualquer sentimento maligno, que te faça espernear em agonia e chorar de dor. Apagarás o amor, mas guardar-me-ás em lembrança.
Estou aqui ao teu lado, pronta a acabar com o sentido da tua vida, mas estou aqui pelo respeito que mereces, e por tudo o que sempre representarás em mim. Não me procures, gosto o suficiente de ti para não te querer ver naquele bosque. Serás sempre o rosto que guardarei quando ouvir falar em respeito, serás sempre o rosto do qual me lembrarei quando ouvir falar em amor. Mas agora, o bosque espera-me, é por lá que andarei, até encontrar o caminho certo, o meu caminho para (outra) casa.

Para sempre um obrigado.

As estrelas sorrirão para nós

Sinto-te triste, desanimada e de olhar derrotado. Sinto-te distante da tua vivacidade e cada vez mais descolorida. Não deixas de ser bela, aliás, os meus olhos nunca aceitariam ver-te de outra maneira que não seja em amor. Mas dói ver-te assim, despedaçada, carregando o peso do mundo e vergastada por todos os castigos de uma vida. Não sei se choras todas as noites, se rezas a todos os Deuses por melhores dias ou se simplesmente engoles as lágrimas que vertes e resolves os problemas que crias. És um rosto belo, um coração estragado e um destroço de guerras passadas. Ninguém disse que a vida é fácil, muito menos perfeita. Mas tem de ser suportável e quero suportar o peso dos teus erros, suportar o peso do teu corpo, fraco e debilitado, suportar as marcas do passado e levar-te lá acima, junto das estrelas. Aquelas que tu olhas quando choras, a quem tu pedes força e melhores dias. As que acreditas serem os olhos que te vêem e alguém que te protege. Essas estrelas choram contigo, sabes disso. E eu quero ser tudo isso, quero mostrar-te o quão brilhante és. Para mim, és labareda que não se apaga e acredita, lá em cima, do espaço, as estrelas invejam-te e pedem para serem como tu. E por mais anos e anos que vivam, nunca o serão, nunca enfrentarão o universo de problemas que tu enfrentas. Quando quiseres ir tocar nas estrelas, dá-me a mão, quando quiseres solução para os problemas, aceita-me ao teu lado. O nosso amor está escrito nas estrelas e elas sorrirão para nós.

Quero

Quero ir, quero estar onde não estive e ser o que nunca fui. Quero viajar, conhecer quem nunca conheci, apaixonar-me por quem odiava, quero sentir as emoções que neguei e os prazeres que nunca saboreei. É tudo isto que eu quero e que me faz gritar no silêncio, tapar os ouvidos no meio da confusão e deixar o coração rebentar, expulsando de mim um amor frio, um sangue seco que já não corre. Quero ter o sangue a fervilhar, a correr-me pelas veias, sentir o seu passar e o seu calor, quero amar com o coração, não usá-lo como escudo para os problemas. Tenho saudade de enfrentar o mundo de peito feito e não virar as costas à felicidade. Sou sangue escuro que me corre nas veias, sou sangue pisado de amores passados. Este sou eu, morrendo para viver tudo o que for meu, por direito.

domingo, 25 de maio de 2014

Apenas "sim"

Entro porta adentro e mostro-te o que te comprei, com toda a vontade que me move, com toda a alegria que me consome e com toda a insegurança que me caracteriza. Espera, talvez mereças algo melhor, digno de um filme romântico. Não quero usar o champanhe ou a comida como meio de entrega. A surpresa é requintada demais, vale muito mais que tudo isso. Quero algo meu, genuíno, não cópias de outros amores. Quero algo simples, prático e eficaz. Algo que dentro da simplicidade, permaneça para sempre fresco na nossa memória, como a decisão mais importante da nossa vida, como o momento em que os astros se alinharam e tudo fez sentido. Pretendo falar-te pouco mas dizer-te muito. Estou disposto a enfrentar a mais humilhante das figuras, ainda que pretenda manter a postura que o momento merece. Um amo-te é tão pouco... mas pesa muito. Talvez um amo-te chegue para entenderes, mas nunca será suficiente para me explicar. Quem sabe eu me ajoelhe, talvez te beije os pés, os joelhos, a barriga, as mãos, o pescoço, a boca e a testa... Pára! Compro o anel, levo-te a jantar, ao cinema e depois, em casa, ao som da nossa música, peço-te a mão, o coração, a alma, toda a tua vida para mim. Com um mero "sim" serás minha e entrego-te tudo o que sou. É essa simbiose que este anel representa e que eu pretendo. Uma relação de tal modo íntima que se torna indissociável. Mas...
Em breve teremos almoço de família. Talvez aguarde e te peça aí, em família, à frente de todos. Será inicialmente muito constrangedor, é verdade, contudo será fantástico ver a alegria partilhada por todos os que amamos. Não sei se te peço já a mão, talvez não. Não por falta de vontade, apenas por hesitação quanto ao momento certo. Que nunca deixe passar o momento. Sei que tudo tem o devido tempo para acontecer, mas o tempo é uno e será nosso. Será que deva ir agora ter contigo, levar-te a ver o mar, a sentires a areia e, ao som das ondas, pedir-te todo o tempo que nos resta para viver? Talvez não seja o sítio ideal para isso, talvez queiras algo mais clássico. Tudo bem, amanhã penso qual será a melhor solução.
Calma, respira, amanhã decides, ou depois. Que cobardia, que vacilo na hora de me tornar homem. Tu deixas-me assim, nervoso, baralhado, hesitante, inseguro. Parece que te quero beijar pela primeira vez! Não sei como terei coragem para isto, não sei como te pedir uma eternidade, mas por favor, diz-me que sim!


Vamos ser tudo o que não fomos, tudo o que sempre quisemos ser

"Luísa, espera!". Gritei por ti! Não esperaste, não ouviste e não te alcancei. Perdeste-te nos diversos caminhos daquela movimentada rua e o teu rosto era mais um, entre tantos. Não te via fazia 3 anos, mas nunca me esqueci de ti. Era impossível esquecer-te. A saudade aperta quando me lembro de todas as tardes de estudo, dos teus apontamentos sempre perfeitos, das tuas dúvidas antes dos exames e de toda a satisfação quando corrias de braços abertos, aos berros, na minha direcção, depois de cada avaliação exemplar, depois de cada obstáculo superado. E como podia eu esquecer aquela viagem que fizemos à volta de meia Europa? Um comboio lento, de carruagens velhas e imundas, mas decorado com histórias de diversas vidas, de cada canto do mundo. Velhos e bons tempos! Dormia contigo nos braços e achava-me imortal, dono do mundo, dono da felicidade, dono daquela velha Europa e de tudo o resto que haveríamos de conquistar. Lembro-me de todas as fotografias que tirámos naqueles sítios históricos, bem como de outros tantos momentos que ficaram por registar. Pensávamos ser intocáveis, inseparáveis. Afinal éramos como os demais, e as exigências da idade adulta estilhaçaram os nossos sonhos, quebraram os nossos laços. Tive de ir para fora, enfrentar a nossa Europa sozinho e aprender a ganhar dinheiro onde apenas imaginei gastá-lo. O estrangeiro já não era destino de Verão, sim um sacrifício anual. Conheci muita gente, muitas culturas, estilos e mentalidades. Vivi experiências que nunca pensei viver. Todavia, a nossa viagem foi a mais marcante. Era apenas eu e tu (um universo) contra o mundo. Tu e eu, esquecendo tudo o que nos rodeava, apagando o que pairava ao nosso redor. Hoje, 3 anos após a última vez que te vi, passas na mesma rua que eu, no nosso país, na nossa terra. Senti-me em casa, desenterrando tesouros que julgara perdidos. Desculpa ter partido e ter-te deixado para trás. Tinha de agarrar a oportunidade e tu quiseste agarrar-te à certeza da vida. Perdemos a nossa cumplicidade, o nosso amor e confiança. Em contrapartida, ganhámos distância, novos horizontes e vivências.
Hoje, vejo-te e estás bonita, como sempre foste. Não mudaste nada e nada perdeste com o tempo. Agora estou cá, a tempo inteiro, de corpo e alma, com ganas de ficar e de voltar a ser teu.
Se fores, não vás. Se ficares, fica comigo. Ainda vamos a tempo de ser o que não fomos. Podemos ser tudo o que sempre quisemos ser.

sábado, 24 de maio de 2014

Um encanto de Cinderela

Ela arrumou o balde, a esfregona, a vassoura e a pá. Olhou à sua volta e o brilho era notório. O chão estava limpo, cheiroso e escorregadio. Típico de uma boa lavagem. Tirou o avental, a roupa imunda e despiu-se da pele de gata borralheira. O dia tirado para tratar da casa tinha acabado, agora era altura de viver o que ainda faltava. Dirigiu-se à banheira e tomou um longo banho de imersão, sabia-lhe tão bem estar ali, relaxada, massajada por aquela água quente e embalada pelos seus sons tranquilizantes. Fechou os olhos e assim ficou, bela e adormecida, durante meia hora. Acordou com o frio da água outrora quente. O seu corpo absorveu a baixa temperatura e pedia calor. Achou por bem sair e arranjar-se. A toalha envolveu-lhe o delineado corpo e dirigiu-se para o quarto. Agora era a tarefa mais complicada para qualquer mulher, mas a mais simples para ela: escolher o que vestir. Tirou a toalha enquanto dançava, ria-se como uma adolescente. Era algo tão habitual que não o conseguia deixar de fazer. Escolheu o seu vestido branco, o mais bonito que tinha., leve como a sua alma e condizente com o seu estado de espírito. Uma vez vestida, calçou a sua sandália também ela branca. Rasas, como tanto gostava. Adorava sentir o chão que pisava, não pretendia ser maior do que já era. A altura mede-se em carácter, não em palmos, e aí o carácter era só dela, sem plataformas para disfarçar. De seguida, olhou-se ao espelho e sorriu. Não havia maquilhagens, sombreados, pós de arroz ou outras técnicas de embelezamento. Era bonita assim, ao natural, ela sabia disso e naturalmente os outros também se apercebiam. Sorriu para o espelho e piscou-lhe o olho. Estava pronta para sair e aproveitar a noite que o sábado lhe oferecia.
A sua vida não era só trabalhar, tratar da casa e cozinhar. Ela, enquanto mulher dada a todos os lavores que a sua mãe e avó lhe ensinaram, dedicava-se a viver a vida que todos deviam viver. Sem exclusividade de sexos, afinal de contas, somos todos iguais. Chegou ao bar e pediu uma bebida. Uma margarita, para começar. De imediato um rapaz, bem vestido e seguro de si, aproximou-se. Parecia ser um galã, pomposo, armado em príncipe encantado, sem cavalo mas com toda a importância.
- Posso pagar a próxima?
Ela olhou-o e sorriu. O sorriso era um "esquece" silencioso, seguido de um olhar indiferente como quem diz "vai-te embora". Ele fez-se de despercebido e procurou continuar a aproximação. Até que ela  respondeu:
- Eu sou uma Cinderela, tu talvez um príncipe, mas não o meu. Para mim não tens nenhum encanto.
Ele engoliu em seco e encaixou a nega. Não era homem de muitas rejeições, mas talvez nunca tivesse encontrado uma Cinderela.
Ela bebeu e afastou-se do balcão, dirigiu-se à música e dançou, dançou até não mais parar. Passou a meia noite e veio a uma, duas e três da manhã. Às quatro da matina estava a entrar em casa. Tirou as sandálias e levou-as pela mão até sentar-se no sofá. De seguida, recostada, ergueu e olhou-as enquanto se ria.
- Duas sandálias, rasas. Vieram as duas. Nada ficou para trás.
A Cinderela estava em casa, às quatro da manhã, sem medo de abóboras ou feitiços, sem príncipe encantado e sem ter deixado para trás um sapato na expectativa de um encontro. Esta era a Cinderela dos tempos modernos, independente, sem viver na esperança  de que homem algum lhe traga a felicidade.
- O que sonho ser? Muita coisa, mas ser tudo isso sem dizer que quero ser feliz, é como se nada tivesse sentido.
E assim a Cinderela é feliz, vivendo a sua vida sem o veneno do beijo amaldiçoado.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Amo-te, e o resto é um passo de cada vez

"Amo-te, com todas as forças que o mundo utiliza para se mover". Olhei-te com toda a gratidão de um Homem e com as lágrimas no limite do ir e do ficar. Era difícil evitar que escorressem, eram o selo da verdade que te falava. Não tinha como olhar para ti e não agradecer a dádiva que eras. Sentia-me um homem de sorte, um predestinado ao paraíso da felicidade. Não podia levantar-me, agarrar-te ao colo e girar-te duas ou três vezes, não podia saltar de alegria e gritar o teu nome a cada salto, mas podia dizer-te o que fazia a minha alma gravitar. Podia olhar-te e dizer-te que o formigueiro que sentia pelo meu corpo era motivado pelo teu rosto e a dormência dos meus pés era simplesmente motivada pela textura do céu.
Fazia um ano desde o momento que julguei ter-te perdido. Lembro-me como se fosse hoje daquele estridente barulho, do estilhaçar dos vidros e daquele impacto violento que me fez perder os sentidos. A última coisa que fiz foi gritar o teu nome, disso tenho a certeza. O resto foi um apagão total. Julguei ter morrido. Quando acordei e voltei à vida, queria saber como estavas, se aquele sangue que via era teu, se estavas viva e ainda conseguias responder-me, debaixo daquele monte de destroços a que já não se podia chamar de carro. Tu, com a dificuldade que a situação aparentava, gritaste-me. Era o meu nome que chamavas, em desespero, em socorro. Tentei chegar a ti, mas não fui capaz. Não que não lutasse, que não insistisse, que não fizesse todos os possíveis para ir, simplesmente o meu corpo estava impossibilitado de o fazer. Estava preso ao chão, com uma inércia de movimentos a que julguei momentânea.
Fomos para o hospital e lembro-me de perguntar insistentemente por ti. Os médicos disseram-me que estavas bem, ferida mas estável. Dentro de dias irias estar recuperada, de saúde. Sosseguei. Sabia que estava em cacos, mas tu estavas bem e isso era tudo o que importava. Nunca me vou esquecer das palavras dos médicos quando entraram no meu quarto, agarraram-me a mão e disseram, por entre medo e reticências que nunca mais iria conseguir andar. O mundo para mim desabou naquele momento. O choque de não me poder ver mais do jeito que devemos ser - verticais - era imenso. Não sentir o peso do meu corpo, não conseguir caminhar ou sentir a areia molhada... era terrível. Mas pior que tudo isso, o que iria ser de nós? Como é que conseguiria acompanhar a tua vivacidade, a tua vontade de viver? Iria ser para sempre aquele estorvo, iria ser sempre um limitado que te acabaria por limitar. Chorei, chorei tanto que ninguém imagina. As noites que se seguiram foram dolorosas demais. Sentia as lágrimas nas minhas mãos e imaginava que eram tudo o que me restavam. Não te podia pedir para não partires, não podia sequer fazer-te ficar. Eu amava-te, amava-te tanto que tinha de querer o teu melhor. Eu era um entrave e o melhor era seguires os passos de alguém que os pudesse dar, seres feliz com alguém que te pudesse mostrar o mundo e a sua felicidade escondida. Lembro-me de te rejeitar cerca de uma semana. Mal comia, não dormia e evitava ver-te. Fazia de conta que descansava quando aqui estavas. Sentia a tua presença mas procurava não dar a conhecer. Recordo as primeiras conversas que tivemos, pedi-te para partires, para ires sem olhares para trás, porque não tinhas culpa de nada. Disseste-me para ter calma, recuperar bem e que falaríamos melhor em casa. Quando cheguei, tinhas-me preparado uma festa de boas vindas, com todos os nossos amigos, com toda a família. Sentaste-te ao meu colo e disseste que aquele era o teu lugar. Beijaste-me, sem me deixares responder. Derreti-me, o gelo que estava a tentar construir à volta do peito partiu-se em três tempos e em quase tantos lados quanto a minha coluna. Senti-me realizado, deixei de ligar à minha inabilidade física. Era o teu homem e queria provar-te que te merecia, que não te irias arrepender da decisão tomada.
Hoje, sei que te posso perder a qualquer altura, porque a vida é dura, porque os problemas só multiplicaram e as facilidades de uma vida foram subtraídas por aquele maldito acidente. Eu pensei estar morto, ter-te perdido. Pelos vistos enganei-me e a partir daí vivo cada dia como se fosse o último, na ânsia de te aproveitar como nunca. Não sei o que o futuro nos reserva, apenas sei que nunca me julgarás pela "capa" e não tenho palavras para descrever isso. És a mulher da minha vida, a minha vida, a força que me mantém vivo. És as pernas que me fazem correr atrás dos sonhos. Amo-te, não há outra maneira de te dizer obrigado.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O tempo não espera

"Espera por mim", gritou em tom sofrido. Eu não podia esperar, tudo o que tinha feito até então era caminhar lentamente ao seu lado, deixando a minha vida fugir. Ela queria apoio, uma moleta que a ajudasse a viver a sua vida. Eu sonhava alto demais para acabar bengala de alguém. Pedi-lhe desculpa mas tirei-lhe o braço, pedi-lhe perdão e corri numa busca desenfreada pelos meus sonhos. Ela, sem contrapeso que a mantivesse equilibrada, estatelou-se no chão. No pouco chão que lhe restava. Eu corri o máximo que pude, destinado a parar quando a deixasse verdadeiramente para trás. Perdi-a de vista e ela perdeu-me o rasto.
O mundo gira tanto, sei que nos havemos de encontrar. Talvez um dia lhe peça perdão, talvez um dia me possa agradecer. A vida é a derradeira prova, mas não tem de ser ganha ao sprint. Na verdade, mais parece uma maratona.

Quando se joga sem medo de perder

"20.15 no restaurante chinês!". Era esta a mensagem que acabara de receber no meu telemóvel. Não reconheci o número, muito menos sabia quem tinha enviado tal ordem. Caí no ridículo da adolescência e perguntei quem era, sem o arrojo e descaramento de outros tempos. Procurei ser subtil e educado. Pouco depois o telemóvel toca e volto a receber mensagem. Era a resposta, pouco conclusiva, diga-se. "Sou aquela que tu adoravas levar a jantar e a beber um copo, antes de se perderem na noite". Confesso que aquilo estava a tornar-se desafiante, provocador e porque não excitante...sabia bem ser namorado e claramente era esse o intuito. Contudo, quando parava para pensar, assustava-me. Sim, esta ideia assustava-me. Não sabia quem era. Podia ser alguém que me atraísse ou não, alguém de quem gosto ou que odeio. Podia até ser um grupo de amigos a pregarem-me a vergonha da minha vida. Estava intrigado e procurava jogar pelo seguro. Passes curtos para não errar, atacar só pela certa. Atacar pela certa...sempre foi esse o meu problema, não avançar, não me expor ao risco e jogar ao sabor da sorte. Talvez fosse demasiado defensivo e acabasse por empatar, a minha vida e a da outra pessoa.
Resolvi (des)fazer a barba, tomar banho, escolher uma roupa digna da (eventual) ocasião e sair. Às 20 horas estava à porta do Restaurante Chinês. Esperei até às 20.20 horas, sempre de cabeça levantada, atento ao mais pequeno ruído e movimento. Passavam 5 minutos da hora marcada e nada. Não havia qualquer tipo de resposta à pergunta interior que me consumia. Quem era a pessoa daquelas mensagens...quem era a mulher que adorava levar a jantar? Ri-me da improbabilidade daquilo dar certo e preparei-me para abalar. Caí no embaraço da situação e preparei a retirada. Naquele instante levei a mão ao telemóvel que estava no bolso, para ver as horas. Tinha uma mensagem recebida que, pelo facto de estar no silêncio, não li. "Entra". Curta e seca. Entra... e tinha sido mandada há 5 minutos atrás. Fiquei baralhado com este jogo de suspense, não sabia se isto era um "P.s. i love you" se um "Saw". Era um jogo meio estranho e sentia-me desconfortável, mas esta sensação estranha despertava-me imensa adrenalina. Dei meia volta e entrei. Uma vez lá dentro, senti ter todo o restaurante a olhar-me enquanto tentava memorizar e reconhecer cada um daqueles rostos, à espera do encaixe visual. Quanto mais olhava menos via. Passei por uma mesa mesmo ao meu lado e alguém soltou umas palavras engraçadas:
- Se soubesse que este restaurante era frequentado por homens como este, era cliente habitual
Eu achei tanta piada àquela frase de engate que me esqueci de reconhecer a voz. Virei-me com vontade de rir. Soltei um sorriso charmoso o quanto baste e iria agradecer. Eras tu, a mulher misteriosa. Só podias ser tu.
- Ângela? Tudo bem? É contigo que venho jantar...?! - disse de forma tão surpresa que quase lhe tirei qualquer tipo de apetite.
- Só se quiseres. Eu terei todo o prazer em comer contigo - aquela mulher cuspia fogo, sensualidade e desejo.
Corei, senti o alcance das palavras e juro que os seus lábios e língua mexiam-se mais do que o habitual. Aquela mulher era fogo, a femme fatale que todos adoravam ter. Ela é a bomba da empresa, a solteirona por quem os homens suspiravam.
- Então com licença.
Sentei-me e deixei-me ficar a recuperar o fôlego, enquanto tapava o rosto com a ementa. Ela sabia que eu era meio acanhado, mas pouco lhe importava. Adorava o meu cavalheirismo, a minha maneira cordial e sincera de ser, bem como o meu humor. Não tinha grande à vontade sob pressão feminina, é verdade, mas aquela obra de arte esculpida a sensualidade sabia que mudaria isso em três tempos. 
Meti vinho tinto no meu copo e bebi um valente gole. Por dentro contorci-me com aquele sabor, não gostava, era espesso e amargo. Os apreciadores diziam que era o melhor. Por seu lado, a Ângela bebia como se fosse mel e os seus lábios marcavam-se com toda a perfeição no seu copo.
Ela sorriu e disse-me que preparou esta surpresa para me apanhar totalmente desprevenido, sem frases estipuladas, sem conversa feita. Sorri e disse-lhe que tinha valido a pena, pois conseguiu surpreender-me por completo. Pedi-lhe desculpa pela minha reacção  inicial e disse-lhe que estava linda.  Ela agradeceu de modo delicado, onde a língua servia de maestro para aquela boca. A sua voz era música para os meus ouvidos.
O jantar veio, a conversa fez-lhe companhia, regada com risos e descontracção. O ambiente começava a tornar-se mais íntimo e até o vinho deslizava melhor. Para ser sincero, já não lhe tomava o sabor, era líquido e chegava. Pedimos a conta e eu paguei. Fez-se de difícil, quis pagar e perante a minha constante recusa ainda sugeriu a divisão. Mas eu era o homem, aquele o nosso primeiro jantar e eu, grato por aquele bom momento, não podia levar isso em consideração. "Tu tiveste a ousadia da sugestão, eu o agradecimento da conta", disse-lhe sentenciando o assunto.
Saímos do restaurante em plena harmonia, ajudei-a a vestir o casaco e dei-lhe prioridade na hora de passar a porta. Riu-se, encantada com estes gestos, pouco usuais nos homens da sua vida. Eu não percebia o porquê da surpresa, tratava-se de educação, com atitudes de respeito e cavalheirismo. Enquanto ias à minha frente olhava-te por completo, com os olhos feridos de tamanho brilho. Eras a Marilyn Monroe dos tempos modernos, diferente de todas as outras da minha vida.
Partimos para a noite com o intuito da diversão. Confesso que a ideia de beber copos e shot`s não me alegrava, mas a companhia era melhor do que eu podia imaginar e só tinha de me deixar ir. Ela vibrava com aquela saída, sentia-se tão leve...leve de problemas, do peso do escritório, das responsabilidades da vida e dos problemas do mundo. Não havia espaço para falhanços, só diversão. Eras tu, solta de encargos, despojada de preconceitos. Bebemos um shot tão horrível que me fez dar todas as caretas possíveis e imagináveis. Foi para a pista de dança e puxou-me para dançar. Dançar... mais um problema! Não sei dançar, arrasto os pés como se fosse um pinguim e a anca não se dissocia do lado escolhido. Sorri e encolhi os ombros. Tu, Ângela, riste-te como se não houvesse amanhã, pois eras a melhor bailarina do espaço. Pouco importada com os outros, colaste o teu corpo ao meu e guiaste-me pelo ritmo da música. O segredo era não pensar, deixar-me ir. A melhor táctica para ganhar. No fundo, passado tanto tempo, estava a jogar para ganhar, não para não perder. Enquanto a música nos embalava meteste-me as mãos pelo pescoço. Olhaste-me intensamente, cegaste-me com esses olhos verdes. Eu segurei-te pela cintura, a medo, até perceber que a tua aceitação era tácita. Tomei a iniciativa de subir de patamar, de elevar o degrau da confiança. Beijei-te delicadamente. Rapidamente te entregaste e não mais voltámos ao andar debaixo. Bem pelo contrário, acabámos a noite no 4º andar, a minha casa.
De manhã acordei, olhei-te e vi-te a dormir ao meu lado, numa cama que há muito não tinha ninguém, a não ser eu. Sorri, lembrei-me de tudo o que fizemos e o que aconteceu para acabarmos aqui. Senti-me homem, de uma masculinidade tão elevada que mais parecia ter ganho a Liga dos Campeões (coisas de homem!). 
Acordaste e olhaste-me de forma ensonada, engraçada e descontraída. Pensei que te quisesses tapar, esconder, arranjar e sair. Pelo contrário, levantaste-te sem nada a tapar ou esconder, beijaste-me e desejaste-me bom dia. Beijaste-me novamente e foste fazer café. Sentias-te perfeita com a vida e eu não sabia o que a vida me esperava. Tudo estava tão calmo naquela casa. As paredes já não gritavam nomes perdidos no tempo...

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Tens em mim o teu espaço

Olha para mim, vê o que sou. Olha para mim, vê-me mais do que qualquer outro, vê-me como só os teus olhos me conseguem ver. Sei que o consegues fazer, basta não negares. Sei que és a única pessoa que consegue ver mais do que um olhar, uma face, um nariz ou uma boca. Tu furas a pele, os tecidos, rasgas músculos e chegas ao osso. Sei que me consegues tocar na alma e ler tudo o que ela contem. Vê-me, vê o que de mais profundo há em mim, o que escondo de todos e te dou de mão beijada. Vês o que sou? Vês todas as minhas feridas, todas as minhas cicatrizes, todas as minhas emoções e desejos? Eu não passo disso, um misto de sensações estranhas que habitam em mim. Consegues sentir a profundidade dos meus sonhos? E agora diz-me onde te vês. Estás em tudo não é? Desde a boca seca ao mais doloroso rasgar de músculo, desde o desejo mais ardente ao sonho mais profundo. Mas porque teimas ser a cicatriz mal cosida, a ferida aberta que queima por dentro? Escolhe o que queres ser, estás à vontade, tens em mim o teu espaço...

terça-feira, 20 de maio de 2014

O dia em que tropecei em ti

Andava em círculos, como quem não sai do mesmo lugar. A cabeça estava à altura do coração e nenhum dos dois à minha altura. Estava perdido, metido num tornado de emoções destruidoras de apenas uma coisa: a minha vida. Sentia-me a minha pior companhia, o meu pior inimigo, o sujeito que não merecia caminhar neste chão, que não merecia viver com um mero bater de coração. E como aquele coração, cansado de sofrer, ainda arranjava forças para me dar vida? Apenas o coração batia neste corpo, era o único sinal de vida que me restava. Tudo o que fui perdeu-se nesta cidade, esvoaçava com as folhas de jornal, empurradas pelo vento. A chuva lavava tudo, menos a minha alma e o sol de cada novo dia não me levava a dor. Procurei sair da tempestade que eu era, mas ninguém me conseguia abrigar com a completude que necessitava.
Um dia, quando a cabeça apenas se importava em controlar o chão que os pés pisavam, tropeçaste em mim, pisaste-me a ponta do meu sapato e fizeste-me olhar para cima. Obrigaste-me a erguer a cabeça e, bem lá do alto, ver o teu rosto. Para mim foi um tropeçar mas para ti foi de uma premeditação genial.
- Por onde andavas? Porque me deixaste aqui, durante tanto tempo, ao frio?
- Calma, estive sempre aqui, tão perto que não me vias, tão próximo que me tornei invisível. Apenas esperei que reparasses em mim, apenas esperei que o tempo nos juntasse e mostrasse que somos mais do que aquilo que os olhos vêem.
Ali estava ela, uma mulher linda, digna de todos os amores (im)possíveis. Do carnal ao platónico, era ela, o corpo dos desejos, a musa de todos os poemas. O tempo fez-nos encontrar naquele espaço, de coração roto e com tanto por preencher. Não sabia como era possível aquela dádiva dos céus estar ao meu lado, com toda a serenidade que a minha vida não disponibilizava. Talvez fosse a morte, quem sabe viesse convencer-me a dar-lhe a mão e levar-me para o outro lado.
- Isto é real? - perguntei sem caber em mim, como quem se prepara para seguir a luz ao fundo do túnel.
- Sim, sou real. Também já estive assim e sei por que passas. Apenas quero dar-te a mão e viver. Vive comigo, sem prazos por cumprir. Vamos apenas viver, cada dia e cada noite, sem sonhos ou planos.
- Parece-me bem, vamos viver. Sem sonhos ou planos. Eles matam e eu acabei de renascer.

O sofá é o nosso céu

Estamos no sofá a ver televisão, as minhas séries favoritas, aquelas de intrigas, romances assolapados e de choros compulsivos. Sei que não fazem o teu género, sei que falta a emoção do golo e a masculinidade do desafio, mais ainda assim fazes questão de as ver comigo. O nosso sofá torna-se pequeno para tamanha salgalhada de corpos. Os meus pés, bem juntinhos, encaixam-se no meio dos teus. Sei que reclamas porque tenho os pés frios, sempre assim foi. Refilas porque te queres mexer e que, todo o calor corporal que sentias foi-se com o meu gélido tocar. Eu sorrio, aproveitando o ângulo morto. Sei que não me vês sorrir e adoro ouvir-te barafustar. Ralhas, refilas, dizes que te vais mudar e que esta será a última vez que me deixas estar assim. Mentira. Sei que tudo isso são ameaças em vão. Adoro quando te manifestas e ficas zangado, meio zangado, vá. Já lá vão anos de noites destas, de pés frios, de corpos enrolados e séries de televisão femininas. Sempre me fizeste todas as vontades e sei que estarás sempre aí, de pés, mãos e coração quente, à minha espera, para me aqueceres a alma e dares-me todo o teu calor. És a minha companhia, o meu programa favorito, do qual já sei todas as falas, todos os movimentos e ainda assim saboreio cada episódio. 
Viro-me para ti, ficamos frente a frente e vejo o teu sorriso, bem disfarçado por aquelas palavras ameaçadoras. Sorris tanto que é impossível ficar indiferente. Olho-te com toda a alegria que uma mulher pode sentir. Se o céu fosse um sofá, seria o nosso, seria este o nosso céu. É inexplicável a sensação que me dás, passados tantos anos, depois de tanto acontecimento. Quando a rotina nos traz os mesmos dias, as mesmas pessoas e os mesmos sentimentos, tu demonstras-me que a plenitude é isto: sentir-me feliz a cada acordar, sentir-me realizada a cada adormecer. Beijo-te repetidamente e mordo-te, sei o quanto ficas danado por te morder essa ponta do teu lábio. Queixas-te, dizes que te aleijei em demasia, a típica pieguice masculina. De seguida partes para cima de mim, abraças-me e eu perco-me nos teus braços. Posso fechar os olhos porque sei cada traço teu, vejo tudo com a maior nitidez, ainda que de olhos fechados. Escrevi este guião, sei tudo o que se segue. O sofá queixa-se de tanta volta dada mas tu pouco te importas. Eu aviso-te para teres cuidado, só para te espicaçar. De seguida fecho os olhos ao rir-me e mordo a língua. Quando voltar a abri-los sei que também te ris, que me atacarás o pescoço com uma sequência infindável de beijos e começarás a descontrolar-te. Eu começo a esbracejar mas gosto disso, tu sabes que sim. Prendo-te o tronco com as minhas pernas e cruzo-as nas tuas costas. A chave perfeita, a prova de que te quero para mim, apenas para mim. A televisão continuava ligada mas o seu som era abafado pelos nossos gemidos. Perdia o episódio da série preferida, mas ganhava o amor que todas as mulheres sonhavam ter. O sofá não teve coragem de se voltar a queixar, rendeu-se ao nosso amor. Eu, no auge do prazer falei, falei sem me aperceber, de forma espontânea e involuntária. Quando dei por mim já tinha falado, quando te olhei tu sorrias, de prazer e de amor. Disse o teu nome, disse que te amava. Só podia ter sido isso, era a única coisa que continha em mim. Só tu podias estar dentro de mim.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Rita

A Rita era uma menina de cabelos castanhos, encaracolados e compridos, dona de uma beleza tão simples que a destacava das demais. A simplicidade daquela rapariga dava-lhe um encanto tal que todos à sua volta se rendiam. Os seus olhos, cor de avelã, transmitiam um mistério que a sua boca soletrava. Toda a vez que a via sentia-me mergulhado em sonhos.
A Rita era mais do que o corpo dos seus 14 anos. Era uma mulher em ponto pequeno, responsável e capaz de lidar com os problemas da vida, de mãos na cintura e de peito para a frente. Encarar os problemas era meio caminho andado para resolvê-los, ela sabia disso e procurava enfrentá-los, olhos nos olhos, como os adultos (nem todos!), como os bravos. Mas tinha consciência das fragilidades da sua tenra idade, sabia que também fazia parte da aprendizagem meter a cabeça na almofada e chorar, de vez em quando duvidar do mundo e duvidar do seu lugar no mesmo. Só quem não se lembra dos seus 14 anos é que não percebe. As emoções fervilham, a razão começa a ceder o seu espaço para as emoções e o corpo torna-nos maiores do que verdadeiramente somos. Mas aquela menina era diferente. Aquela menina personificava a natureza, uma força da terra que dava valor ao chão que pisávamos, capaz de iluminar todos os que a rodeavam e de destruir todos os que a espezinhavam. Era como a natureza, sim, ora fazia sol, ora chuva, ora dava verão, ora aniquilava tudo com a sua tempestuosidade. Uma vez calma, era primavera, dia quente e brisa ligeira, era flor nascida e regada em carinho.
A Rita tem 14 anos, ainda muito para crescer. Cresce, vive e faz, Rita, faz acontecer, dá asas ao teu mundo e voa, sê feliz. Apenas não mudes, mantém-te fiel ao que és. Contigo, outras mulheres têm muito a aprender.

A porta da rua é serventia da casa

Desci a praceta de mãos nos bolsos e cabeça baixa. O caminho era penoso, o humilhante desfile do fracasso. A rua sempre foi o nosso palco e nós sempre fomos a candeia que iluminava aquele lugar. Passar por lá, sem ti, era inimaginável e fugir de ti por aquelas ruas era brincar com o fogo. Lembram-me a magia de cada lugar, todas as páginas da nossa história, são as ruas das nossas vidas. Escrevemos a palavra amor em todas as intersecções, para nos amar-mos em cada esquina. Um dia jurei que iríamos dar nome àquela pequena praça. Mas só a praça fica para sempre. 
Confesso que deixei de passar por ali, deixei de viver naquelas ruas e de sentir as cores daquelas casas. Deitar-me naquele chão a observar o céu tornava-se ridículo. O chão já não era firme e o céu não tinha nada de azul. As nuvens já não tinham o formato do teu rosto e tu já não vias o meu nome escrito no céu. Fizeste-me sentir um estranho no local onde cresci, apetece-me fugir de onde sonhei estar. No fundo, sentia que já não pertencia ali, não mais aquele lugar estaria pronto a receber-me, com a mesma felicidade com que o vivi. Apressei o andar, queria ultrapassar as recordações, as vivências e o carinho que partilhei naquelas ruas. Passar despercebido era agora o intuito, eu que me achei dono daquele espaço. A vida muda e só as ruas permanecem, com o mesmo nome, com o mesmo caminho. As pessoas são meramente decorativas, a rua, essa, está lá para ficar, cheia de histórias por contar. Que ousadia achar que tudo aquilo era exclusivamente meu.
Quando ia a meio, mesmo no centro, vejo-te. Parecias feliz, como quem se sente em casa e conhece todos os caminhos como a palma da sua mão. Tens aquelas ruas tatuadas no peito e partilhas os seus encantos com um novo alguém. Sinto-me claustrofóbico e agoniado por ver uma nova pintura na minha tela, uma nova estrela naquele passeio da fama. O tempo passa mas ainda vivo com o teu nome tatuado no meu peito, na esperança de me voltar a perder naquele lugar. Senti um apunhalar tão grande que me apeteceu ajoelhar. Senti a respiração prender e o ar dissipar-se, o oxigénio daquelas ruas era vosso e eu não podia respirá-lo. Recusava aquele ar, sentia-me a desfalecer e tu pouco te importavas. Apeteceu-me pôr as mãos no peito e agarrar o coração com tanta força que ele parasse de saltar, de protestar e gesticular de tamanha raiva. As pernas tremeram-me e o andar fracassou. Parei para não parecer desarticulado. Respirei fundo na ânsia de conseguir encontrar algo que ainda fosse meu, uma réstia de esperança que me levasse a sair dali, com o mínimo de dignidade possível. Pé ante pé, fui indo, como quem auxilia o andar com as mãos, mas tudo o que fiz foi meter os pés pelas mãos. Escondi-me com a ajuda das velhas paredes, desapareci, sozinho, por entre aquelas casas esquinadas. Sozinho... era mesmo essa a palavra. Aquela praceta era o purgatório do mundo e eu a única alma perdida, à espera da redenção.
- Este lugar foi o melhor que já tive mas já não há nada meu aqui. 

domingo, 18 de maio de 2014

O que vês em mim?

Eles caminhavam sozinhos por aquela rua estreita. Ela apertou-lhe a mão e parou o passo. Rodou o tronco e ficou de frente para ele. Pensou nas palavras que iria dizer e perguntou com a maior das dúvidas:
- O que vês em mim?
- O que vejo em ti? - repetiu a pergunta, por tão disparatada que era.
- Sim, o que vês em mim.
- Hoje vejo uma mulher, que me dá a mão e guia-me na vida, que se entrelaça nos dedos e nos sentimentos.
Após ouvir religiosamente aquelas palavras, puxou o lábio superior esquerdo para cima. Resposta insuficiente. Queria mais, por muito melódica e poética que a resposta tivesse sido.
- Não sejas poeta, sê antes verdadeiro. Quero que me definas, não que me conquistes.
O descontentamento que demonstrava ia na linha da insegurança que a fez falar. Ele percebeu que o peito dela estava encravado pelas reticências que a sua cabeça criava. Cabia-lhe pôr um ponto final no medo.
- Olha para mim. És o meu espelho. És o rosto mais bonito que alguma vez terei. És o coração que me enche de vida e o corpo em que me sinto vivo. És tudo, tudo o que bate certo.
 Com aquelas palavras ela acalmou, mas ainda longe da serenidade que a caracterizava. A sua respiração já estava mais próxima da dele e a sua testa já não franzia com a mesma frequência. 
- Tenho medo de te perder, tenho medo que deixes de gostar de mim.
- Eu não tenho medo, Telma. Continuo a perder-me em ti desde o primeiro dia que o destino nos juntou.
Beijou-a de seguida, com língua, com intensidade, com desejo e com toda a alma. Foi com tudo, para ela perceber a dimensão daquele amor. Entregaram-se ao beijo, mas ainda havia um mas...
- Nunca pensaste no adeus? Tudo à nossa volta está a ruir, as nossas referências caíram. Isso nunca te fez duvidar?
- Não. Também tenho medo, afinal de contas, quem ama tem medo de perder e eu sei que o amor para ser amor tem de ser sentido pelos dois. Mas eu amo à minha maneira, e um amor à minha maneira é total, de uma entrega sem fim, completo de sonhos e confiança. E eu sei que me amas, vejo-o nos teus olhos, sinto-o no teu toque.
- Não achas que és um naive ao acreditar que um amor, nos dias de hoje, é isso tudo?
- Não. Se o amor não fosse isto tudo, não seria amor. É por conter tudo isto que o amor é tão raro, é por sentir tudo isto que só te amo a ti.
-Pára! estás a fazer-me chorar, de alegria, de tristeza, de frustração e de medo! És doente! És um cretino que joga com as palavras. Como saberei que não jogarás do mesmo jeito com os meus sentimentos?
- Quando jogar com os sentimentos perderei, porque não sei dominá-los. Olha para a maneira louca como te amo, vê como sou o idiota que vou até ao fim do mundo por ti. Se fosse jogador ficava-me pelas palavras, a meio caminho. Mas eu não sou de ficar a meio, quando vou, vou até ao fim. O meu viver passa por viver-te, por amar-te, por ter-te e ser feliz.
A Telma abraçou-o de um modo tão apertado que quase sufocava o rapaz. Era o medo que ele lhe escapasse, era o agradecimento por tudo o que representava.
- Só tu para me conseguires sossegar. Amo-te.
- É isto que eu vejo em ti, um corpo recheado de alma, o reflexo do que sou.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Coração vivido, coração sofrido.

Chegaste e perguntaste-me como estava, se a vida seguia em frente e se os fantasmas do passado iam aos poucos deixando de me perseguir. Eu sorri e achei a maior das piadas ao teu eufemismo. Preparei a voz para o monólogo carregado de tamanho sentimento e com todas as hipérboles necessárias. Tu ficarias surpresa com tamanha dor, eu ficaria aliviado por mandar cá para fora todas as minhas lamurias aprisionadas. Disse-te que era complicado, que a vida só aos poucos se ia habituando a esta nova maneira de a viver. Acabaste-me a frase perto do final:
- Sim, de repente fica um vazio tão grande que nos perdemos nele! - eu sorri e voltei a tentar chamar para mim a conversa
- Exacto, mas não é só isso...
Continuei a falar de sonhos desfeitos, de sentidos esquecidos e da coragem escassa. Voltaste a terminar a ideia.
- Custa muito, não dá vontade de acordar, parece que tudo o que foi é o máximo que a tua vida tinha para dar...
Eu fiquei incomodado. Começava a ser assustador ver-te terminar as frases que construía, sempre da forma como pensava. Continuei a contar o meu estado de espírito mas sentindo-me cada vez mais usurpado dos meus sentimentos.
Prossegui dizendo que o tempo é o nosso pior inimigo, pois dá-nos rotinas, sentimentos profundos, conhecimentos e vontades que depois não sabe levar. Fui novamente interrompido, perto da conclusão.
- É isso mesmo, o tempo traz tudo, lentamente, mas quando leva, leva de repente, sem pedir autorização ou ajuda. O tempo corre contra nós e será sempre o nosso fiel inimigo. Está sempre cá, nunca te larga.
Deixei de falar, de pestanejar e de pensar. Fiquei a olhar-te de alma vazia e sem nada de novo para acrescentar. A minha cabeça apenas se esforçava para tentar gravar a tua frase. Era verdadeira demais para cair em esquecimento. O meu festival de lamentações colidia com a tua sensatez. Que motivo tinha eu para partilhar tristezas quando tu já as sabias de cor? Eras um coração vivido, como eu, eras um coração sofrido, como eu. Que mais teria para acrescentar? Perante isto, decidi mudar o rumo da conversa:
- Mas nem tudo é mau, agora tenho tempo para mim, como há muito não tinha. Agora sou o exclusivo dono do tempo e apenas eu dito o rumo que lhe quero dar.
- É isso, sabe bem fazer o que nos apetece quando nos apetece, sem medo de olhares, opiniões ou julgamentos.
. Confere...e os amigos são tudo! - arremessei mais uma opinião pessoal.
- São o nosso porto de abrigo, alguém que só nos quer bem, prontos a dar sem exigir o receber.
Sorri e disse que não fazia sentido continuar a conversa, as minhas palavras não tinham personalidade, não tinham o cunho pessoal que pensei ter-lhes dado. Terminavas as minhas frases como quem roubava as ideias, dando-me a conhecer sentimentos que pensava serem só meus. E ainda dizia que eram os outros os egoístas... Riste-te da minha reacção e mudaste de conversa. Nenhum outro tema fluiu tão bem. A vida dava-nos as suas amarguras como pontos em comum e era isso que nos dava sintonia. Quando te despediste senti-me pequeno, como quem tinha sido roubado da sua experiência, a experiência de uma vida que tem o mundo à espera para entrar.

Amor rima com saudade

Sei o quanto dói não me teres aí, ao teu lado, para te acalmar quando o ar teima em faltar, quando tentas gritar e a garganta seca, quando desejas amar e tudo o que tens são os teus braços e um enorme vazio. Estou deste lado, longe de tudo e todos e também o sinto. Sei o que é pisar todos os dias um chão que não é o nosso e viver uma vida que não é a que queremos. Um dia, tudo fará sentido e a proximidade mudará a visão da lembrança. Agora, recordar é sofrer mas não sei fazer nada mais que recordar-te. Se achas que aguentaremos a saudade, a distância e a paixão que nos consome todos os dias, que nos enfraquece cada vez mais? Acredito que sim, acredito que iremos ultrapassar maus olhados, tentações, intrigas e crises existenciais. Sei que somos sonhadores o suficiente para dar as mãos por uma causa, e não interessa a que distância elas estão. As nossas mãos foram feitas para se tocarem, para encaixarem e simbolizarem o amor. Se tenho a certeza que o conseguiremos? Não, meu bem, não tenho. Todas as noites me deito com o coração nas mãos, com todos os medos que um homem pode ter e todas as inseguranças que a cabeça pode inventar. Mas todas as manhãs, ao ouvir a tua voz, tu estendes a tua mão e tocas-me no peito, o meu coração aquece e eu sei que o dia nasce para mim e para ti. Sei que cada dia que passa é mais um em dor e menos um no calendário. O dia de estar perto está a caminho e levanta-me todos os dias da cama. A cama... isto não é cama, não pode ser considerado como tal. Cama é o sítio onde nos deitamos e fazemos amor, onde dormimos embrulhados nos nossos laços, que construímos a ferro e fogo, contra tudo e contra todos. Só descanso quando te tiver nos braços, só serei feliz quando viver contigo no meu olhar. Um dia vamos contar esta história, mas todos os dias peço para não ser apenas uma bonita história de amor. Quero torná-la a história da minha vida, quero uma vida contigo. 
Estou longe, amor, mas só te peço isto: quando acordares lembra-te de mim e, por favor, nunca mais te esqueças. Amor rima com saudade, mas nunca com desistir.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O prometido é devido

O acaso tem coisas do fantástico e do bizarro. Chovia a potes e a minha gabardina estava encharcada. Pela mão levava o mais precioso tesouro que a vida me deu e a quem dei vida, o meu filho. Como qualquer bom pai se obriga, dei-lhe todo o abrigo que um chapéu de chuva pode conter. A sua saúde é tudo o que interessa. Naquela fatídica hora de entrada, ele rapidamente se apressou a correr para se encontrar com a Gabriela. Muito eu ouvia falar da Gabriela, lá em casa. A Gabriela isto, a Gabriela aquilo, a minha amiga fez isto, deu-me aquilo. A amizade genuína é algo tão natural para uma criança de 8 anos que qualquer pai encara com naturalidade essa fase do crescimento. Hoje, o Daniel fazia anos e a Gabriela tinha-lhe prometido entregar uma carta. Uma carta num dia de aniversário é algo especial, ainda para mais vinda de uma rapariga...
- Essa Gabriela deve ser uma menina incrível, Daniel - dizia-lhe incentivando-lhe o gosto pela sua amiga. Ele sorria de contentamento e acenava afirmativamente a cabeça.
- A minha melhor amiga, pai, conhece-me muito bem! - e o sol nascia-lhe na face.
Eu sentia a emoção da felicidade estampada no rosto do meu filho e recordava as boas sensações da vida.
Mas nesse dia de aniversário do Daniel, enquanto levava a mochila, o bolo e os refrigerantes, lembrei-me de uma das promessas da minha vida. Alguém me prometeu afincadamente, jurando a pés juntos, amar-me para sempre, ficar comigo para toda a vida. Frases tão fortes quanto estas não se apagam da memória e deixam uma ferida que só o tempo cicatriza. Lembrei-me dessa frase e senti um misto de carinho e tristeza. Numa só palavra: nostalgia.
Já tive uma rapariga assim, que me conhecia como ninguém, a quem entregava a minha mais pura essência, sem medo de julgamentos. 
- O que foi pai? Em que estás a pensar?
- Sim, Daniel, estava a pensar que também já tive uma Gabriela, quando era mais novo.
- Na minha idade?
- Não, mais velho, quando das palavras já devia sair a verdade - Ele ficou um pouco baralhado, como os seus 8 anos obrigam.
- A serio? era bonita como esta? Olha que esta é muito esperta. É das melhores da turma!
Eu sorri e revi-me naquele fedelho. Era esperto, engraçado, encantador. Era tudo o que fui e não consegui ser, era tudo o que sonhei e queria ter.
- A minha também era, Daniel, muito inteligente sim. E bonita.
- Era a mãe? - a pergunta mais previsível de todas, feita pelo inocente de palmo e meio.
Já dentro da escola e ao abrigo da chuva, baixei-me, meti-lhe a mala às costas, dei-lhe um beijo no rosto e disse-lhe calmamente:
- Daniel, a tua mãe deu-me o que de mais importante e perfeito tenho na minha vida! Mas ela não era a minha Gabriela. A tua mãe veio mais tarde, já mulher.
O garoto ficou surpreendido por ter mencionado uma rapariga perfeita que não fosse a sua mãe.
Eu ri-me e disse-lhe para ir para dentro, para estar com atenção, aprender e divertir-se com os seus amigos. Eram os seus 8 anos e a sua vida era isso, aprender a ser feliz. Entreguei o bolo e os refrigerantes à funcionária e pedi-lhe para olhar por ele. Despedi-me e vim embora.
Quando olho para trás, vejo a Gabriela frente a frente com o Daniel. Entregou-lhe a carta e deu-lhe um beijo na bochecha. Aquela bochecha gélida ficou corada em três tempos e o miúdo imóvel. Eu, um pouco longe do epicentro de toda a empatia, aprendi a lição através dos miúdos. Ainda haviam meninas que cumpriam o que prometiam.
Olhei para o lado e deparei-me com uma mulher encantadora, morena, de cabelo pelo pescoço e lábios carnudos, pintados a tons de vermelho vivo. Olhei-a e reconheci a sua presença. Ela olhou-me e caiu na ironia.
- Olá, como estás?! - Pergunta de retórica de quem apenas pretende cumprimentar
- Como estás, Mónica? - Perguntei como quem apenas quer perguntar.
- Vim trazer a minha filha...
- A Gabriela?
- Sim - Riu-se da ironia da vida e das suas encruzilhadas.
- Eu vim entregar o Daniel. Hoje faz anos e alguém prometeu-lhe algo que ele deseja muito. Pelos vistos ainda há quem cumpra o que promete - Rematei como quem mistura vidas e sentimentos. Calei-me de imediato, sentindo o peso da minha deixa.
Ela sorriu e ficou a pensar no alcance das minhas palavras. Por vezes espetam, magoam e despertam sensações perdidas no tempo. Tocam na ferida que fica sempre por sarar. As palavras são armas de arremesso, sonhos e sentimentos. Talvez para a Mónica não passem de promessas soltas ao vento.
Afastei-me, dirigi-me ao carro e entrei. Do lado de dentro, observei os dois pequenos. Aquela Gabriela é a perfeição aos olhos do meu filho, e a sua mãe foi a minha Gabriela, sem cartas e com promessas por cumprir.

terça-feira, 13 de maio de 2014

O nosso pedaço de céu

Trouxe-te pela primeira vez aqui. Sei que nunca tinhas voado tão alto, tampouco permanecido no céu. Sei o que sentes e que agora não necessitas de palavras. Serão todas excessivas. Estás aí porque fui eu que te levei até lá e isso basta-me para partilhar o momento. Meto a minha cabeça no teu peito e ouço o bater do teu coração. Fecho os olhos e procuro sincronizar a minha respiração com a tua. Sentir-me o mais próximo possível de ti é tudo o que quero. Tu agarras-me a cabeça com a tua mão grande e macia, enrolas o meu cabelo nos teus dedos e arrepias-me a alma.
- Amo-te - dizias-me pela primeira vez, após termos ido ao céu.
Fui novamente projectada para as nuvens. Senti que estavas tão bem que não querias descer. Eras homem de muitas outras camas, de muitos outros braços, mas de poucos amo-te. Percebia que ir ao céu não era costume e que a tua experiência acabava onde a minha começava.
Éramos dois corpos deitados numa cama, dois seres completamente opostos, com intersecção marcada algures no céu.

Não há 2 histórias iguais

Estava a escrever quando entraste. O livro era preenchido por apenas uma palavra: Amo-te. Essa palavra preenchia todas as folhas, ocupava todas as linhas. O livro folheou-se rapidamente com o teu passar e tu não viste o que ele continha. Bastava teres lido uma palavra para saberes toda uma história. Bastava que parasses para ele se entregar. Tu passaste, olhaste fixamente como quem se despede em ternura. Eu disse-te "olá" como quem pede para ficares.
Tu sentaste-te e eu calei, folheaste o livro e eu esperei. Depois de o leres, limpaste a lágrima que te escorria pela face e disseste em lamento:
- Só agora me dás a conhecer esta pequena maravilha? Logo agora que não tenho espaço na minha estante... Lê-lo é tudo o que posso fazer...
Olhei-te como quem implora, suspirei como quem sente a proximidade do fim.
- É um livro lindo, maravilhoso! Recomendarei a toda a gente. Espero que o dês a conhecer a tempo, pois nenhuma mulher ficará indiferente a uma história destas.
Eu sorri e encolhi os ombros, tudo o que te podia dizer. Estava na hora de escrever uma nova história, um novo livro, um novo rumo. Aquelas páginas, outrora preenchidas a tinta permanente, viraram brancas e o meu peito ficou vazio. A vida é feita de histórias e, tal como os livros, não há duas pessoas iguais.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Capas Negras

Abri os braços e recebi-te como quem abraça o mundo. A minha capa negra cobriu-nos do frio, do mundo, dos problemas e de todas as adversidades da vida. Aquela capa, negra, suja, coberta de simbologia e de vidas passadas, fazia a ponte entre o nosso mundo e o deles. Eles eram eles, e nós os certos. Sei que a minha capa tinha algo de outras, de histórias antigas e de outros sonhos. Sei que a minha capa cruzava-se e encaixava na história de outras capas, mas era em ti que eu a queria ver. As nossas capas negras, lançadas ao vento, tocavam-se no alto do céu, com sonhos comuns e uma vida para construir. As nossas capas são cosidas a sonhos e esperanças, as dos outros são feitas de medo. 

sábado, 10 de maio de 2014

A ninfomaníaca

Eu sou uma mulher diferente de todas as outras. O meu problema? Sou viciada, viciada como a maioria das mulheres. Toda a mulher é viciada em algo, em sapatos ou compras, em telenovelas ou comédias românticas. "O sexo e a cidade" desencadeia dependência feminina, mas eu sou viciada em orgasmos! Vocês podem dizer que todas nós somos, que ninguém resiste a um orgasmo e que isso é uma exigência comum. Enganam-se. Vocês esperam por um durante 15, 30 ou 40 minutos, muitas vezes não vem mas ainda assim sentem-se realizadas ao verem o prazer na face do vosso companheiro. Vocês aguentam uma semana ou um mês para se sentirem realizadas durante escassos minutos. Uma grande diferença. Eu entrego-me um número infindável de vezes durante uma semana e apenas admito esperar 30 minutos por nova repetição. Surpresas? Também fiquei, mas ser ninfomaníaca tem muito que se lhe diga.
A minha vida resume-se a corpos suados, gemidos fingidos e frustrações constantes. Perdi a conta ao número de parceiros que tive. Vocês têm namorados, amigos coloridos e algo do género. Namorados tive 2, duraram pouco porque nunca me sentia realizada e completa. Acreditei que a culpa fosse deles, por serem demasiado românticos ou  muito acanhados. Longe de pensar que talvez fosse eu o problema. Mas como seria eu o problema? Só queria sentir o que o homem sente, ter aquelas cãibras habituais, aquela incapacidade de falar e a contracção dos dedos dos pés. Bloquear por instantes e sentir. Só isso, sentir, ter  um instante de prazer que me levasse a desejar permanecer no céu, perto da morte.Todavia, tudo o que tenho é a sensação de querer e não ter, de chegar perto e ficar aquém. A frustração que qualquer mulher não deseja e que qualquer homem procura não vivenciar.
Foram muitas as camas que deixei em agonia, tantos os lençóis que mordi de raiva, e perdi a conta aos homens que satisfiz sem o merecerem. Para eles tudo era prazer, para mim não passava de desilusão. A busca pelo sexo perfeito continuou, uma necessidade que não podia ignorar, um vício que não me deixava parar. Orgasmos eram a minha droga, a droga que me fazia ir mas não me vir. Experimentei de tudo um pouco, todas as aventuras possíveis, homens dos mais variados tipos, raças, tamanhos e cores. Procurei quem melhor conhece o meu corpo - as mulheres- e tudo mais que me pudesse adormecer tamanho desejo. Tudo em vão. O que me fazia rir? ouvir as mulheres comuns, de trazer por casa, desejarem ser "ninfos" para puderem fazer sempre que lhes apetecesse, terem sempre desejo e quererem mais e mais. Pobres coitadas, como aguentariam estas mulheres, presas ao engano de falsos orgasmos dados por carecas barrigudos e peludos, viverem uma vida inteira sem amor? Para elas aquele é o acto sexual que têm e que gostam, de uma sensação tão pequena para o seu corpo, mas tão repleta para a sua mente. Elas têm o maior orgasmo do mundo, o amor. E satisfazem-se diariamente, em cada gesto ou palavra, em cada olhar de cumplicidade. Um dia alguém escreveu o "comer orar e amar", mas mulheres, em comum apenas rezamos.
O meu maior segredo? Vejo corpos onde outros deslumbram corações. Bem-vindos à minha (a)normalidade, num mundo de aberrações.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O perfeito idiota

Estava sentado na esplanada a beber uma cerveja quando passaste ao meu lado. Não sei se me viste ou fingiste não ver, mas eu vi-te, e de que maneira. O meu olhar prendeu-se ao teu andar e lutei para não te perder de vista. Há muito que te perdera, a minha maior estupidez. Agora, ter-te é verbo que não conjugo.
Lembro-me como se fosse hoje de te arrancar dos meus braços e da minha vida. Um dia cheguei e disse que não queria mais, que já não estávamos em sintonia e a rotina consumiu-nos. Nesse dia desfiz todas as promessas e planos. Agarrei as minhas coisas e saí. A pressa de fugir era tanta que não consegui falar-te direito, o que merecias ouvir e o que devia contar. Até as minhas coisas ficaram para trás, comigo levei apenas o indispensável e, na realidade, o coração ficou - apenas foi o engano da paixão. Cansei-me de te ter, cansei-me do teu amor, da tua fidelidade e do teu respeito. Contigo era tudo tão perfeito que me deu vontade de enfrentar o medo, de perder-me no caminho do destino e na incerteza do amanhã. A perfeição cansa, desgasta e acomoda. Procurei a aventura nos braços de outra mulher, procurei o meu lugar numa nova paixão. Recordo-me da tua cara de dor ao ouvires a palavra "acabou", sinto a dor dos teus olhos ao veres-me partir. Falaste-me em lágrimas, mas eu nada ouvi. Para te ser sincero, naquela altura pouco me importei. Nem sequer cheguei a pensar nisso. Só queria encontrar as chaves do carro, virar-te as costas e sair o mais rapidamente possível, antes de conseguires dizer algo, antes que algum passo em falso abortasse a minha missão. Fui cobarde, sei disso. Apunhalei o peito que tudo me deu e fugi com medo do julgamento. Sabia que não era justo, mas sentia-me bem. Tu deitaste-te e não dormiste, eu deitei-me e dormi com outra mulher.
Hoje, 2 anos depois de te ter pontapeado da minha vida, vejo-te na rua, sempre elegante, tão bela. Pareces confiante, madura e vivida. Todas as vezes que te vejo sinto saudades do teu cheiro, necessito do teu toque e morro para ouvir o meu nome da tua boca. Agora, sinto o desejo de te ver, eu que passei tempos a ignorar-te, a fugir e a procurar desaparecer da tua vida. Hoje, passaste e eu queria mostrar-me, mas a minha vergonha foi imensa. Contentei-me com o cheiro da saudade.
Se me ajoelhasse aos teus pés tu perdoavas? Se te beijasse esses pés tu aceitavas-me? Todos temos defeitos e cometemos erros, mas todos nós buscamos a perfeição. Eu tive a perfeição, sei que sim. Mas o meu maior erro foi perdê-la. Hoje passaste e não existi. O sinal mais evidente da derrota. 
Conheço-te o suficiente para saber que nunca irás esquecer e, aconteça o que acontecer, não fazes questão de me voltar a ver. O jogo virou e a perfeição és tu, o jogo acabou e quem perdeu fui eu. Tu és a mulher perfeita e eu não passo de um perfeito idiota.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Os 4 daquela mesa

Levaste-me a tua casa para um pequeno lanche em família. Aí estava o problema, a mão suava porque ia ver a tua família, ia conhecer quem te conhece melhor, ia ver quem não conheço e quem preferia não me conhecer. Agarraste-me pela mão e pediste-me calma. Estava suada por mais fundo que respirasse, tremia por mais seguro que estivesse. Entrei e fui apresentado, cumprimentei um a um todos os teus familiares. Sempre simpáticos o quanto baste e de sorriso ponderado, o suficiente para perceber a avaliação de cada olhar. Sei que é importante a primeira impressão, mas nunca fui destas coisas. As pessoas são o que são e só se dão a conhecer com o tempo. É o tempo que julga o carácter, é o tempo que traz as respostas.
Entrei com toda a delicadeza, ponderação e educação. Respondi a todas as perguntas, sobre tudo um pouco: quem sou, de onde sou, de quem sou filho e onde moro. O que faço, que pretendo para o futuro e onde te conheci. Por mais que me tenha preparado, acho que não consegui dizer com exactidão tudo o que queria. A língua enrolava, as palavras fugiam e a memória falhava. O meu olhar revelava o medo que se instalava dentro de mim. Eram as tuas deixas, os teus resumos e as tuas intervenções que me permitiam respirar e ganhar fôlego para uma nova ronda. Mas não eram as perguntas nem os julgamentos femininos que me importavam. Não fazia grande questão de agradar às tuas tias e primas. Pouco me importava se me achavam bonito, simpático ou interessante. O senhor da ponta da mesa, de olhar fulminante e de poucas palavras era o meu maior ouvinte, sentia-o tomar notas mentalmente, registando todos os meus passos, todos os meus olhares e todas as minhas intenções. Tu sabias disso e procuraste suavizar a situação ainda antes do confronto final. As pessoas foram saindo da mesa, seguindo com a sua vida normal e cochichando longe da minha presença. Ficámos os 4 à mesa. Os teus pais e tu, na mesa onde sempre partilharam as histórias da vida, onde sempre discutiram os problemas e festejaram as alegrias. E, de repente, ali estava eu, numa mesa nova, numa vida que não me pertencia e numa família que tinha de conquistar.
A tua mãe, sempre simpática, levantou-se, olhou-te e falou-te com os olhos. Coisas de mulheres, todos nós sabemos.
- Bem, vou levantar as coisas da mesa. Filha queres ajudar-me? - os olhos tornavam a frase imperativa. Não tinhas como negar e eu não tinha por onde escapar.
- Claro, mãe. - Respondeste de orelhas baixas e nervosa com a dimensão do que aí vinha.
- Eu também ajudo - respondi enquanto me preparava para levantar.
- Não, deixa-te estar, fica aqui comigo à mesa. Elas tratam disso - respondeu aquele homem de forma calma. A primeira vez que ouvi verdadeiramente a sua voz. As primeiras palavras dirigidas à minha pessoa. A sua voz era mais suave que o seu apertar de mão. Um bom sinal.
Olhei-te e fiquei à mesa. Tu riste-te e acenaste para eu ficar.
Naquele instante senti as pontas da mesa a unirem-se. A distância que nos separava era medida em respeito e aí sim, estávamos bem separados. Perguntou-me o que fazia e quais os meus planos. Percebi que queria ter certeza de tudo o que ouviu, testar a minha congruência. Respondi-lhe a verdade e a verdade é sempre a mesma. A conversa foi fluindo e eu ia ganhando confiança, a minha e a dele. Aquele senhor tinha todo o meu respeito, cuidou e educou a mulher que eu amo, deu-lhe todos os valores que eu admiro nela.
No fim da conversa, disse-me de modo sereno mas em tom de alerta:
- Ricardo, és o primeiro que eu conheço porque, no fundo, nunca pretendi sentar alguém à minha mesa.
Espero que percebas o quão especial é a minha filha e o quanto ela significa para nós, especialmente para mim. Se a tratares bem, tens em mim um amigo, se te portares mal verás em mim o teu pior inimigo. Caberá a ti escolher...
A mensagem foi esclarecedora e apresentada de uma maneira tão brilhante que só me mostrou o quanto o respeitava. Era um homem às direitas, a melhor referência masculina que a sua filha podia ter.
- Pode estar descansado. Sou o primeiro a sentar-me nesta mesa e serei o último namorado que você conheceu. Amo a nossa menina, tal como o senhor, cada um à sua maneira. Seremos os dois homens da vida dela. Mas primeiro sempre o senhor, pois será o único amor eterno.
Estendeu-me a mão e apertou-ma com toda a força que sentia. Doeu mas não me queixei, sabia que, desta vez, não era para intimidar, era força de orgulho e satisfação. Mais do que um cumprimento de homem,  era a honra, a honra das palavras e dos actos. Senti-me integrado, senti-me bem àquela mesa. Aquele lugar, outrora vago, passaria a ser o meu, aquela família outrora desconhecida, começava a ser a minha.
Chegaste com a tua mãe, na expectativa de saberem como correu. Olhaste-me como quem pergunta, a serenidade do meu rosto acalmou-te o coração. Agarrei-te a mão com toda a força que podia. Percebeste o meu sorriso e a minha mão já não escorregava. Estava seguro, estava tranquilo, estava completo.
Ali estávamos nós, os 4 àquela mesa, os 4 daquela casa.

Amor de Verão - um castelo de areia.

Era Verão, o calor dava toda a energia que uma pessoa necessitava para a boa disposição. Os dias eram grandes, calorentos e cheios de luz. As avenidas enchiam-se de pessoas e os turistas conquistavam a minha cidade. Todos os anos, por esta altura, as ruas ficavam vivas, onde se misturavam estilos, culturas e cruzavam-se as mais variadas línguas. Sentia-me um estranho dentro da minha cidade, sentia-me uma minoria em terras que conhecia de cor. Mas uma cidade balnear vive disto e todos nós aprendemos a gostar. O meu passatempo preferido era o de pegar na toalha, na garrafa de água e vestir os calções de banho. O pé até chorava para entrar nos chinelos. Deixar os casacos, as camisolas e as meias para trás é um alívio tão grande que o corpo só sabe agradecer. O sol queima até os ossos, mas a pele há muito que implorava por este mimo. A praia é o ponto de encontro da malta, havia sempre espaço para o reencontro de grandes amigos. E, a cada ano, a praia dava-nos a conhecer novas pessoas, novas amizades e aventuras.
Foi aqui, neste imenso areal, que dei os meus primeiros beijos, bem salgados, por sinal. Foi aqui que pedi em namoro, pela primeira vez, uma rapariga e foi durante o verão que o meu coração perdeu o sono. Tudo isto por causa de uma rapariga espanhola, de seu nome Cármen.
A Cármen era loira, de olho azul e de pele branca, bem diferente da tonalidade morena que o sol distribuía. Quando chegava à praia era facilmente reconhecida. Primeiro, pela beleza, depois a cor. Cármen tinha agora 20 anos, o corpo mudara e os gostos também. Conhecia-a desde os seus 14, quando o biquini ainda ocupava mais espaço e a parte de cima parecia almofadada. Foi o meu primeiro amor de Verão. Foi ela quem me ensinou as primeiras palavras espanholas, quem me mostrou o quão próximo éramos e que os sonhos não tinham fronteiras. Lembro-me do primeiro Verão. Tinha 15 anos e conhecia-a aqui, nesta praia. Uma amiga dela, bem atiradiça, por sinal, simpatizou com um amigo meu. Rapidamente arrastou-a para junto de nós e quiseram saber os nossos nomes. Eu fui por arrasto e a Cármen foi um acréscimo. Meio envergonhada, olhou-me várias vezes, sempre contida, dando-se pouco a conhecer. O sorriso que dava chegava por todas as palavras não ditas. Cedo percebeu a minha timidez, não era daqueles de mandar palavras ao vento, era calmo, pacato e contido. Um pouco como tu, Cármen. Os passeios nocturnos tornaram-se frequentes e criámos uma empatia bastante agradável. Dois dias antes da tua partida, beijei-te, naquela praia, na minha toalha. Tínhamos acabado de sair do banho, vinhas salgada e de pele cada vez mais morena. Dirigiste-te a mim com o teu caminhar seguro, digno do olhar de toda uma praia. O sol, atrás de ti, respeitou-te tanto que deixou os teus olhos iluminarem o caminho. Fiquei vidrado naquele azul. Eras linda, a mulher ideal. Chegaste-te até mim e querias um abraço. Dei-te um beijo. Não te importaste nem um pouco. Sucederam-se beijos atrás de beijos e as mãos seguiram o exemplo dos lábios. Deixaste-me o teu contacto e a promessa de voltares. 
Durante o ano fomos falando, sem precipitações ou comprometimentos. Apenas falar, manter a amizade que o Verão concretizava em amor. Bem ao estilo balnear. E em cada verão vieste e falámos, sentiste e amámos. A idade trazia novas etapas e, aos 17 trocámos tardes de sol por tardes de prazer. Depois tiveste um ano sem vir, dois sem te ver. A vida trouxe-te problemas familiares e tiveste de te safar sozinha, coisas que a idade traz e das quais não mais se liberta. Hoje chegas do alto dos teus 20 anos, com um corpo esculpido pormenorizadamente e com uma confiança maior. Cresceste, estás uma mulher. O teu corpo tem curvas que desconhecia e já não te incomodas com o olhar generalizado de toda uma praia. Não te importas do tamanho do teu biquini, não queres saber se todos aqueles homens te desejam ou te julgam. Vieram para a zona das rochas, onde durante tantos anos nos encontrámos. Deixaste de vir com os pais e trouxeste somente os amigos. Estavas crescida, uma mulher, dona do teu nariz e de novos interesses. Talvez deixasses de ser a menina perfeita, talvez fosses apenas a perfeição de mulher.
Eu, no auge dos meus 21 anos, levantei-me da toalha e dirigi-me até à tua. 
- Cármen? - perguntei meio a medo, temendo falhar o reconhecimento
- Tu olhaste-me, estranhaste-me e entranhaste-me. 
- Rafael? - Sorriste e vieste dar-me um abraço.
Senti que a cumplicidade entre nós não tinha desaparecido durante a tristeza do Inverno. Eras mais desinibida do que os teus 20 anos, mas a mesma Cármen de sempre.
Partilhámos todas as peripécias, as novidades e as voltas que a vida deu. Apresentaste-me todos os teus amigos e reconheceste os meus. Levei-te a todos os sítios que costumavam ser os nossos, menos um. Não te levei a casa, não entraste no meu quarto. Não que não te tenha sentido, mas apenas porque trocámos o quarto por noites na praia que nos juntou. Fui teu ali, ao pé do mar, guiado pelo azul dos teus olhos. Foste minha naquelas noites, salgada como sempre.
E o verão passou-se entre beijos e piadas, entre sorrisos e histórias por contar. Dei-te a mão e caminhámos pela praia, tu a mais bela, eu o mais invejado.  Assim são os amores de verão, tal e qual como os castelos de areia, não são para durar mas não deixam de ser construídos.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O lago dos desejos

Dirigi-me ao pequeno lago onde passámos as nossas primeiras tardes de Outono. Lembro-me dos patos irritantes, da brisa leve que se fazia sentir e do chão coberto de folhas. Aquele banco de pedra era nosso, tinha as nossas iniciais gravadas e ninguém se atrevia a apagar o que marcámos profundamente. O teu colo era a minha poltrona e aquele ambiente todo o meu reino. Adorava quando me chamavas de "amor", como se esse fosse o meu nome e só tu o conhecesses. Nunca mais ouvi um "amor" tão certo, nunca mais vivi um amor tão real. Olho para o lago e vejo que a água está suja, coberta de folhas e de lixo. Parece abandonado, o sítio mais perfeito que alguma vez conheci. Recordo-me de passarmos tardes a rir, de falar até a garganta secar e de mandar tostões para o lago, pedindo todos os nossos desejos. Eram tantos que não havia dinheiro que chegasse. Como era engraçado pensar no amanhã como se ele fosse a maior certeza de todas. Enquanto somos novos somos assim, nunca se pensa no fim. E estar apaixonado é ser novo, é ser criança outra vez.
Hoje, passados tantos anos, sei que o fundo do lago é nosso. Talvez a única coisa que restou do "nós". Os nossos desejos estão ali, diante de mim, literalmente mandados por água abaixo. O teu amor por mim acabou, deixei de fazer sentido e tu deixaste de sentir. O único amor que tenho é o amor próprio, que me mantém forte o suficiente para te encarar na rua, que me dá a força necessária para ir fazendo o teu luto. E vir aqui, ao nosso lugar, é a maior prova de amor próprio que te posso dar. Venho fazer o luto, prestar as minhas homenagens à nossa sepultura. Aqui nasceu o nosso amor, irreverente, contagiante e sonhador, aqui jaz tudo o que fomos e sonhámos. Comigo não trago moedas nem flores para mandar ao lago. Trago pequeníssimos bocados de todas as nossas fotografias. Vou mandar-te para junto dos teus sonhos, dos teus desejos e planos. Provavelmente, todos aqueles que já não anseias. Sei que já não sonhas com estas moedas, já não és quem conheci e amei. Para ti não passam de moedas, mas nas minhas lembranças ainda pertences a estes sonhos e àquele tempo. Mando todos os pedaços do teu rosto para perto do que foste. Quanto a mim, eu pertenço-me, sem os sonhos que neste lago eu pedi e em ti depositei.
Aqui estou eu, frente ao lago dos meus sonhos, realizando a cerimónia fúnebre que nunca desejei.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Os teus olhos

Os teus olhos são o meu mundo, o meu horizonte, tudo o que consigo ver. Essa cor esverdeada faz-me lembrar o mar  num dia de inverno. O teu ar rebelde são todas as ondas ferozes que tenho de enfrentar, são todas as gotas salgadas em que banho o meu corpo. Em ti. vejo a eternidade que a vida me tira. Um dia, adorava saber o que vês, como vês e o que finges não ver. Talvez seja intromissão excessiva mas esse desejo é forte. Uns olhos como os teus não podem ver o mesmo que os meus. Pobres coitados, pretos, de uma cor tão escura quanto o resto do mundo, de uma falta de vivacidade total, contrastante com a luz dos teus olhos. Tu sorris e eu vejo um longo e bonito sorriso verde. Acanho-me, pergunto-me se tenho lugar em tudo o que vês. Enquanto olhares para o mundo, o sol continuará a nascer, enquanto for o teu mundo, continuarei a escrever.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Amar é sentir com toda a imprevisibilidade

Pediram-me para definir o amor. Não sei, não posso nem ouso defini-lo. No meu entender, é o amor que define as pessoas. O amor move montanhas, faz-nos enfrentar o impossível e dá-nos a estúpida sensação de perfeição. É o sentimento que faz o Homem escrever o seu nome na História. O amor é o livro da vida. 
O amor magoa, despedaça e marca. Percebo que haja medo de amar. Mas o Homem sonha, reergue-se e luta. Então porque não amar? Amem, lutem pela vossa felicidade e vão onde o vosso coração vos quiser levar. Só ele tem asas neste mundo de acorrentados. Deixem o vosso coração voar para as mãos de alguém. Quando esse alguém o soltar, não se preocupem, haverá outro alguém, de mãos abertas, à espera. Deixem o tempo traçar o caminho. O coração saberá lá chegar. Amor é sentir borboletas no estômago, amar é o efeito borboleta: todos nós estamos interligados e, ao ritmo da magia da vida, nunca saberemos em que braços iremos calhar. Hoje desdenho-te, amanhã o meu coração pode ser teu.
O que é amar, perguntam-me vocês, não sei. Amar é sentir com toda a imprevisibilidade, amar é viver.

Se algum dia quiser desistir de nós

Se algum dia disser que não te amo, não acredites. Podes esbofetear-me, abanar-me, ofender-me com todos os nomes que te vierem à cabeça. Só não acredites, não desistas e não me deixes partir. Acredito que, um dia, mais tarde ou mais cedo, um de nós se deixe vencer pelo cansaço, rodopie sobre o destino e se lance de cabeça para as dúvidas que fervilham na mente. É tão natural quanto pensar em ti. Aliás, pensar em ti ou duvidar de mim é uma fronteira tão ténue que muitas vezes não dá para discernir. Quantas são as vezes que penso seres uma mulher perfeita demais para mim e que, mais tarde ou mais cedo, irei acabar por acusar o desgaste psicológico dessa desigualdade? Quantas são as vezes em que procuro desistir de lutar por nós, já que um dia me vais quebrar aos bocados? São dúvidas, incertezas e perguntas para ninguém responder. São perguntas de um futuro mergulhadas em receios do presente.
Se algum dia desistir de nós, pede-me para continuar. Fala com a alma e age com o coração, dá-me um copo de água e um pouco de amor. Fica ao meu lado e ampara-me. Quando eu quiser desistir de ti, ajuda-me, estou doente. Não me deixes dar mais nenhum passo, será em falso e a queda levará à morte. Quando me agarrares e salvares do abismo, ecoarei o teu nome para sempre.

domingo, 4 de maio de 2014

Mãe, és o mais perfeito pedaço de mim

Não há dia para uma mãe. Uma mãe é tão importante que me recuso a atribuir-lhe dias. Uma mãe merece semanas, meses e anos. E porque não vidas? Mas todas as vidas que se possam dar serão pequenas comparadas com uma mãe. Tenho apenas uma vida, mãe, e foste tu quem ma deste. Mas se alguém merece a minha vida, podes ter a certeza que esse alguém és tu.
Mãe, deste-me vida e ensinaste-me desde cedo a caminhar por este mundo. Protegeste-me quando não conseguia sequer ver o que me rodeava e ensinaste-me a seguir o meu caminho, ainda que cambaleando. Um dia largaste-me os braços e eu tive de andar sozinho, por caminhos incertos e linhas tremidas. Era a minha vida e tu sabias que fazia parte do crescer. Mas mãe, sempre senti os teus braços lá, quando tropeçava e ameaçava cair, quando dava um valente "bate cú" e custava demasiado voltar a erguer-me. Juro que sempre te senti a empurrares-me, a direccionares-me e a indicares-me o caminho. Mãe é mesmo isso, estar mesmo não estando, ser uma vez, ser para sempre.
O brilho nos teus olhos quando aprendi a dizer "mamã" foi o mesmo que senti quando te vi. É indescritível, é uma cumplicidade que ninguém pode apagar. Nos meus olhos serás sempre o modelo de mulher, a perfeição feminina. No meu peito és o calor dos dias frios e a mulher da minha vida.
Os anos passaram e continuaste a ser mãe em todo o real sentido da palavra. Continuas lá, protegendo-me, ensinando-me e aconselhando-me como mais ninguém. O teu coração bate por mim como o de nenhuma outra mulher baterá, sei disso, abraças-me como nenhuma outra mulher abraça.

Mãe, és o mais perfeito pedaço de mim.

sábado, 3 de maio de 2014

E tudo a porta fechou

Olhei-te, virei-te as costas e saí. Bati com a porta na esperança de nunca se fechar, na esperança de evitares o seu barulho final e ruidoso. Tu não negaste o seu fecho e a mesma porta que usei para te trazer até mim, dividiu-nos. Triste desfecho. Não fui capaz de sair a correr ou caminhar para longe. Fiquei ali, colada à porta, na esperança de a abrires e eu desequilibrar-me para os teus braços. Bastava isso, sem qualquer palavra, sem qualquer esforço, cairia de novo nos teus braços e estaríamos os dois do mesmo lado, dentro da nossa casa. Mas tu não o fizeste, permanecias do lado de lá, sem qualquer demonstração de arrependimento ou tentativa de conciliação. 
Eu cometi esta loucura na tentativa de me amparares, de me chamares à atenção e dizeres, com toda a tua sensatez sonhadora, que o mundo não passa de ti e das nossas quatro paredes, que a porta separa a nossa vida da selva, lá fora, onde precisamente estou. Podes achar que sou maluca e que não merecias esta bipolaridade, mas eu  não merecia a tua inércia. E assim ficou claro, desististe de mim no momento em que a porta se fechou.
Talvez seja mesmo uma mulher da selva e tu um louco acomodado.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Amanhã é que é. Um dia será...

- Olá, tudo bem? Eu chamo-me Paulo.
Bastava isto para tudo fazer sentido. Mas isto é tudo aquilo que me acobardo a fazer.
Todos os dias vejo o teu caminhar do lado de lá do passeio, no teu ritmo acelerado e certo. Todos os dias tu desfilas nos meus olhos e iluminas o caminho. Eu sou aquele que te persegue até não poder mais, aquele que imita os teus passos e substitui a tua sombra. Sou tudo aquilo que tu não vês, sou o escuro que sucumbe no teu colorido mundo. Para mim és a luz mais brilhante que aquelas ruas já conheceram. Cada vez que te encontro acobardo-me e todas as noites prometo falar-te. Ando assim há tanto tempo que nem imaginas. Deixo sempre para amanhã, amanhã é que é. Um dia será e, acredita, valerá a pena.
De hoje não passa. Estou decidido a falar-te, a ganhar o teu sorriso, nem que seja um cantinho desse olhar. Encho o peito de ar e saio de casa. Aquela é a hora a que te encontro do lado de lá da rua e hoje prometo fazer mais do que mudar de passeio. Hoje não serei a tua sombra, mas sim a tua companhia. Faz tanto tempo que sonho com este momento...
São 14 horas e o sol está lá em cima, a brilhar bem alto. Aquela luz contagiante abre o caminho para a tua passagem. Lá estás tu, de passos tão delicados que nem merecem este irregular e velho chão. Sinto dificuldade em apanhar-te. Não quero correr, não quero enfrentar-te, apenas apanhar-te numa casualidade qualquer. Inspiro fundo até encher os meus pulmões de coragem e acelero o passo. Tu paras. Não é hábito. Eu paro, isto não estava nos meus planos. Pareces esperar alguém. De repente, sai um rapaz daquela porta do prédio e tu sorris. Ele caminha lado a lado contigo e dá-te a mão. Eu fiquei ali, imóvel, perdendo-te no horizonte, perdendo-te completamente o rasto. Aquele momento foi duro, muito duro, foi o momento em que percebi que a vida é feita de janelas de oportunidade e cabe a cada um de nós toná-las portas de entrada para a felicidade. Se ao menos eu tivesse, em alguma altura, caminhado ao teu lado...

O fim da viagem é o encontro dos amantes (3)

(para quem não leu a 2ª parte: O fim da viagem é o encontro dos amantes (2) )

A vida tem destas coisas, ora nos leva aos píncaros do mundo, fazendo-nos tocar nas nuvens e inspirar todos os nossos sonhos, ora nos leva para os confins do inferno, coberto por uma camada terrestre que denominamos de chão. A minha maior batalha começava a ser esta: manter a minha sanidade mental. Nunca pensei estar, tantos anos e acontecimentos depois, preso entre estas duas mulheres, como se o mundo não tivesse continuado o seu percurso normal e não houvesse mais nenhuma para além delas. Uma foi a primeira, a outra foi a tal. E eu, eu não passo do anormal que não sabe descolar-se das suas paixões, que respira o que sente e não consegue vencer os fantasmas do passado. O passado...talvez o meu maior inimigo, um inimigo perigoso, de saia justa e cheio de curvas. Um inimigo com dois nomes: Rita e Íris.
Neste último mês tinha acalmado a ânsia de te conquistar. A desilusão do teu silêncio fez-me perceber que talvez já não passasse pela tua vida. Talvez sejas tu a passar pela minha, em ritmo apressado, só para me dar a sensação esquecida das boas recordações, do primeiro ter, do primeiro sentir e do primeiro querer. Tudo isto voltou contigo, tudo isto partira com o teu silêncio. Não posso sofrer demais por ti, por muito que o possas merecer. A Íris ensinou-me isso. Nunca te arrependas do que fazes, por muito mal que estejas ou possas parecer. Se queres algo, luta, vai, faz e concretiza. Sê o que quiseres, quem quiseres e com quem quiseres. No fundo, só tu importas e o resto não passa de nada (haverá alguém mais egoísta?). Primeiro tu próprio, só depois tudo o resto. As suas lições de vida...eu só podia tirar o bloco de notas, o lápis de carvão e apontá-las. Era com cada uma...
Neste mês longe de qualquer possibilidade da tua existência, sentia-me muito mais liberto dos desejos que me prendiam às memórias. O tempo ensinava o que a mente teria de fazer para o corpo respeitar. Todas as idas para o trabalho foram marcadas por constantes cafés no sítio do nosso encontro, por olhares expectantes e fotográficos, na aflição por te encontrar. Mas já não te procurava desesperadamente. Tu, Rita, eras um bónus da vida e não uma necessidade. O meu passado ensinou-me isso, o outro rosto do passado.
Mas eis que um dia, em pleno escritório, o telefone toca e oiço uma voz envergonhada do lado de lá.
- Estou? Doutor André? Prazer em ouvi-lo.
Eu conhecia aquela voz, não naquele timbre mas conhecia-a. Faltava-lhe alegria para ser a voz que a minha cabeça reconhecia.
- Sim, é o próprio. Estou a falar com...
- A Rita, não sei se ainda se lembra de...
- Rita! Claro que me lembro, amiga... - interrompi logo qualquer tipo de formalismo. Tentei manter-me contido e sério. Só Deus sabe o esforço para não me derreter todo logo à mínima palavra.
- Olá André, desculpa incomodar-te mas eu precisava da tua ajuda. Da ajuda do Doutor André. Posso combinar uma hora para te expor o problema? Eu pago tudo o que for preciso.
Senti o tom delicado da conversa e a gravidade da situação. Percebi que ligou não em busca da felicidade mas na tentativa desesperada de ser salva da agonia.
- Claro, 19.30 no restaurante "Talher de ouro"?
- Desculpa mas não posso. Explicarei o porquê, mas só posso algo breve.
Fiquei intrigado. Sabia que estava com problemas, mas ao mesmo tempo fazia o impossível para não me deixar entrar no seu coração.
- E se bebêssemos café às 22 horas ? Algo rápido. - sugeri sem ter mais alternativas
- Não, o que tenho para falar contigo é trabalho e queria passar aí no teu escritório numa hora devidamente marcada.
- Nem penses! Para ti não tenho horário estipulado nem trabalho. Para ti tenho amizade e disponibilidade. Tu precisas do André, não de doutores ou outros títulos!
Ela sorriu e puxou as lágrimas para dentro. Senti tal acto de coragem. O segundo acto de coragem. O primeiro foi ter-me ligado.
E assim ficou, consegui marcar um café para hoje às 22 horas, em minha casa.
O que será que ela tem? Porque estava a precisar assim tanto de mim e da minha profissão?
 E mais uma vez brinco à apanhada com a vida: aquele toca e foge desesperante, aquele chega perto mas não agarra.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Fala, grita, ama-me

Falas-me alto, gesticulas de um modo descontrolado, nervoso e impulsivo. As palavras que deixas escapar não são pensadas, apenas vêm com o intuito de me atingir, de se anteciparem a quaisquer outras que possa usar. Rodopias sobre ti mesma, levas as mãos aos cabelos, soltas sorrisos irónicos e choras de tanta raiva e frustração. Diriges-te até mim e recuas. Estás completamente fora de ti. Eu podia ter escrito tudo isto numa folha de papel em branco, ainda antes de te ver e presenciar tal cena. Não é a primeira nem há-de ser a última vez que o fazes. Uma desavença é natural numa relação e, para te ser sincero, até apimenta ainda mais as coisas entre nós. A tua fúria entusiasma-me, a tua cólera e cegueira pela razão excita-me. Sinto-me um mero espectador de primeira fila. A alta definição que disponho permite-me ver com plena exactidão o teu tremor do lábio e o mais doentio arregalar de olhos que conheço. Permaneço calmo, sereno e alheado da tua vivacidade. Assisto a tal comportamento com a maior satisfação do mundo. Adoro ver-te fora de ti. Sei como isto acaba, sempre do mesmo jeito: vens ao meu encontro de punhos fechados, irás bater-me no peito duas vezes com cada mão e, como quem não quer a coisa, vais-te aninhando em mim. Quando deres por ti estarás no meu regaço, presa nos meus braços e irás encolher-te, rendida àquela sensação de conforto. Olharás para mim e as lágrimas secarão. Resta o olhar e o riso, de quem fez e disse tudo para acabar nos meus braços. Estás em mim, tanto por fora como por dentro e agora é a minha vez de expor os sentimentos. Beijo-te e digo que te amo. Isso basta, é tudo o que vai em mim e tudo o que preciso para ganhar a batalha.