domingo, 20 de abril de 2014

O sonho comanda a vida

Lara e João eram o casal perfeito. Todos os seus amigos invejavam aqueles dois. Eles eram inseparáveis, iguais em tantas virtudes e completavam-se em todos os defeitos. O melhor de um era a fraqueza do outro. No fim, o retrato era pintado numa linda aguarela.
João, estudante de Arquitectura, sonhava conhecer o mundo, as grandes obras do Homem e tudo o que em tempos foi uma ideia, depois um projecto desenhado numa folha e, agora, enormes obras de arte. Para ele um arquitecto que não conhecesse a Torre Eiffel, o Empire State Building, o Grande Museu Egípcio, de Giza, entre outras obras, não podia orgulhar-se de ser arquitecto.
- Como pode o Homem criar algo enorme, fantástico e intemporal se nunca viu nada assim de perto? Às vezes precisamos de sentir para depois criar.
Lara ria-se com os pensamentos filosóficos do homem que desenhava uma sequência infindável de traços em folhas de papel. E aquelas maquetas que eram iguais aos edifícios comuns mas que, aos olhos do aspirante arquitecto, tinham traços de criatividade incomparáveis, de uma singularidade extrema que caracterizava o arquitecto visionário?! Era um verdadeiro fartote, aquele João. Contudo, ela adorava o brilho no olho do seu rapaz ao falar das coisas. Ele tinha sempre um lado sonhador, idealista e utópico. Talvez tenha sido por isso que ela se apaixonou.
- És tão tolo, João! Como podes acreditar nessas barbaridades que dizes? Acho bem que queiras o melhor, mas de vez em quando mete os pés no chão, rapaz! Estou cá para te agarrar sempre! Para não te espalhares ao comprido ao aterrar! - A típica crueldade de Lara, camuflada com o seu jeito engraçado de ser.
-Tu quando queres és uma boa filha da mãe, Lara. Talvez um dia consiga provar-te que estás enganada e que isto não é apenas um brilho nos olhos. É algo mais. És uma castradora de sonhos!
Lara encolheu os ombros e meteu um sorriso artificial. Ela sabia que estava a ser dura demais, desmancha-prazeres e, como o seu namorado dizia, uma verdadeira castradora de sonhos. Castradora de sonhos... talvez fosse mesmo isso. Ela sentia-se bem ao cortar-lhe as asas, em negar-lhe qualquer possibilidade de exibição. Talvez sinta poder nessa castração. Gostava de assumir essa responsabilidade e sabia que esse ascendente colocava-o na sua mão.
Mas João, por muito que gostasse da Lara, adorava o mundo. E foi num desses impulsos de loucura que se propôs para estudar um ano nos Estados Unidos. Sim, no país dos excessos, dos edifícios gigantes e das conjugações perfeitas do clássico com o moderno. Estava na hora de descobrir o mundo, procurar conhecer o que apenas via em livros e trazer consigo ideias para um futuro.
Quem nunca achou piada a esta ideia radical foi Lara. Uma rapariga pacata, de raízes criadas e dependente do seu namorado para a sua estabilidade emocional. Como seria a vida sem aquele anormal por perto? Quem iria apoia-la quando estivesse receosa? Quem iria ama-la quando estivesse carente? Como seria ele capaz de partir e deixa-la para trás? Estes 3 anos não serviram de nada para aquele idiota? A cabeça dela fervia de tanta raiva, de tanta pergunta e frustração. E, por mais irónico que seja, era sempre o João que a acalmava, que a fazia ver o lado de lá dos problemas, das dúvidas e das hesitações. Ela amava-o mas nunca iria aceitar a sua partida. Para ela, se ele partisse perdia-a de vez.
Deparado com este ultimato, João tentou gastar o seu arsenal de palavras com Lara, na tentativa de convencer a sua namorada a dar uma oportunidade à relação.
- Agora há o Facebook, o Skype, há tudo e mais alguma coisa, amor! E aqueles que conseguiram superar? Só vês o lado negativo? Pensa em grande! Pensa neste amor tão grande que sentimos! Vamos tentar, ao menos tentar! Luta por isto, é só um ano e sempre que possa estou cá! Acredita! Se ninguém acreditasse ser possível nunca se tinha construído algo! O amor é uma construção a 2!  E o nosso amor é o monumento mais bonito que alguma vez farei...
Por muito bonito que tenha sido, por muito que Lara se tenha emocionado, ela estava disposta a negar-lhe qualquer oportunidade.
- A vida é feita de escolhas, de decisões, João. E agora tens de viver com a escolha que fizeste. Assim como eu. Desististe de mim, João. Trocaste-me pelos teus sonhos. Mas os sonhos não são palpáveis, são incertos e inalcançáveis! Adeus, João.
Beijou-o na boca em jeito de despedida e virou-lhe as costas. Estava decidida a seguir o caminho oposto. A vida dela, a partir de agora, não passava pelas mãos do João. Ele nunca mais iria construir o que quer que fosse no seu coração. E Lara estava decidida a destruir qualquer réstia de amor.
João esperneou, chorou, gritou, pensou em desistir da viagem e mentalizou-se que nada mais havia a fazer. Engoliu em seco e aceitou a derrota. A obra mais bonita que construíra até então desmoronou-se. Mas a vida tinha de continuar e Nova Iorque esperava-o. 
O avião partiu e, lá em cima, João voou bem alto, bem perto dos seus sonhos.


(Uma história que, dependendo da vida de João e Lara, poderá ter continuação...)


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