segunda-feira, 21 de abril de 2014

O mundo de Sónia

Mulher fria, autoritária e de poucas palavras. A "coração de gelo", a "manda chuva" ou " a "Cruela". Todos os dias Sónia era confrontada com piadas, olhares e silêncios constrangedores. O motivo? Era uma mulher de sucesso, que ocupava o cargo de chefia numa empresa de consultoria. Os seus 29 anos contrastavam com a posição ocupada no seio da empresa. O desconforto era imenso e o facto de ser mulher ainda mais incomodava. Tacanha mentalidade. Sónia usava roupa típica de executiva: um fato feminino clássico e uns sapatos de saltos significativos. Vestia-se a rigor, dentro do estatuto exigido. Os homens com quem convivia diariamente, odiavam receber as suas ordens, ter de respeitar as suas directivas e prestar-lhe contas. Contudo, tinham uma atracção enorme pela sua maneira fria de ser. Ela metia-os na linha, com o seu ar confiante e intimidatório, fazendo questão de mostrar-lhes todo o seu poder. Provavelmente o oposto das mulheres que tinham em casa ou que encontraram até então. Todos os dias, quando Sónia entrava no escritório, parecia entrar de algemas e chicote, vestida com um fato justo em látex. Era assim que os homens a viam. Pior, só quando os chamava individualmente. A forma como se dirigia e pronunciava arrogantemente os seus nomes...pareciam estar com a cabeça debaixo do seu fino salto! Todos os homens, altos, baixos, gordos ou magros e bonitos ou feios, estavam à mercê da poderosa Sónia.
Ela sabia de tudo isso e todos os dias convivia com tal facto naturalmente. Nunca parou para pensar se a sua postura tinha de mudar. Era uma mulher moderna, despachada e trabalhadora. Sabia o quanto teve de estudar, batalhar e justificar para ocupar o cargo a que chegou. Nada na vida lhe foi oferecido ou facilitado. Não teve cunhas, ajudas em troca de favores sexuais ou pequenas seduções. A sua integridade moral era a arma que dispunha para se sentir bem naquele papel. Chegou lá por seu próprio mérito e era essa a sua maior vitória.
Mas quem era a Sónia? A Sónia era uma mulher comum, mãe solteira, com uma filha de 12 anos, fruto de um relacionamento adolescente condenado ao insucesso. Desde cedo teve de aprender o verdadeiro sentido da responsabilidade, do empenho e da obrigação. O seu pai, um homem machista e preconceituoso, não aceitou bem esse deslize e cortou relações familiares com a filha. Sem mãe, que a tinha abandonado em pequena, Sónia viu-se entregue à sorte e com uma filha a caminho. Foi então que ligou à sua tia Carminda. Explicando-lhe o que aconteceu e a gravidade da situação, a tia disponibilizou-se a dar-lhe tecto e a ajudá-la em tudo o que pudesse. Assim foi. Sónia mudou-se para casa da tia Carminda e ganhou a estabilidade que sempre precisara. Estava com 17 anos e tinha acabado de ser mãe. Resolveu arranjar um trabalho numa loja de roupas, permitindo-lhe ganhar algum para as despesas da filha e para ajudar a tia. Mais tarde, veio a faculdade e, com a ajuda de uma bolsa, conseguiu conciliar o trabalho com os estudos. Licenciou-se em Direito e tornou-se uma mulher de palavra e contraditório. Ganhou experiência, maturidade e espírito de sacrifício. Estava lançada para a vida. Conseguiu, com muito suor e lágrimas, uma cada vez maior independência financeira. Mas nunca abandonou quem a acolheu. Quando pôde comprar uma casa maior e sua, levou a sua frágil tia consigo. Recusava-se a deixar para trás quem lhe deu a mão na vida, quem lhe mostrou o sol a brilhar quando apenas via nuvens cinzentas. A gratidão é eterna e o agradecimento é dado em amor.
Hoje, Sónia estaciona o carro à porta de casa e vai buscar o saco do ginásio. No fim das suas aulas de Bodycombat, encarrega-se de ir buscar a filha à escola. Em casa, faz o jantar e participa em todas as lides domésticas, de fato de treino vestido e chinelos calçados. Uma mulher comum que não suportava ver a sua tia Carminda fazer o que já não pode. Uma coisa é o corpo aguentar e pedir tarefas, outra coisa é a altura em que o corpo, velho, apenas exige descanso. A sua tia era fonte de carinho e apenas isso. Talvez a recordação mais bela da sua família e da sua infância.
Com tudo isto, percebemos que Sónia é uma mulher moderna, dos nossos dias. Aquela que é capaz de enfrentar o mundo olhos nos olhos, sendo para ele aquilo que ele foi, em tempos, para ela. A verdadeira Sónia também gosta de ir ao cinema, comer pipocas e chorar com aquelas histórias de amor impossíveis. Gosta de passear o cão com a sua filha, lavar a loiça e deixar a cozinha sempre num brilho. Sim, esta é a mesma mulher que deixa homens a tremer e submissos. Mas o mundo da Sónia é de restrito acesso e, no seu mundo, os homens estão destinados a desaparecer.

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