segunda-feira, 28 de abril de 2014

O fim do caminho é o encontro dos amantes (2)

(para quem não leu a 1ª parte desta história: O fim da viagem é o encontro dos amantes)

A mensagem que me enviaste pairava sobre a minha cabeça e teimava não ir embora. Já a tinha lido tantas vezes que a sabia de cor. Cada frase, cada palavra e cada pontuação que lhe deste ecoavam na minha mente. Juro que tentei negar-lhe o acesso, mas passei o dia a descodificá-la, a decifrá-la e a atribuir-lhe os mais variados sentidos. Os que possas ter dado e todos os outros que criei. Adiei para o final da tarde uma possível decisão a tomar. Não queria perder por completo o dia de trabalho, muito menos passar-te a ideia de alguém desesperado e fácil. Decidi esperar vários dias até telefonar. Aguentei apenas dois.
De hoje não passava, bastava sair do escritório, entrar no carro, dirigir-me para casa e ligar-te. Ligar-te ou mandar-te mensagem, mais uma dúvida para não me deixar raciocinar direito. Calma, André, tens sempre de inventar problemas onde não existem. Quando chegar a hora verás o que é melhor.
Entrei no carro e tirei o telemóvel do bolso do casaco. Marquei o teu número e liguei-te. Aquele Rita era escrito a maiúsculas, tal era a sua importância. Queria ouvir a tua voz, tornar-te presente e, acima de tudo, reencontrar-me contigo. Acima de tudo isso, ver-te, saber como estás, por onde andaste e como se desenrolaram as aventuras da tua vida. O telefone chamou e ninguém atendeu. Baixei a cabeça e percebi que não seria fácil trazer-te de volta. Liguei o motor e arranquei. Para trás ficaram os pensamentos utópicos e, ironicamente, Rui Veloso acompanhava-me na rádio com o seu "nunca me esqueci de ti". Durante aquela marcha lenta percebi que hoje o destino não podia ser a minha casa. Estava demasiado só para um ambiente familiar.
Estacionei o carro no centro da cidade e fui jantar fora. Um mimo merecido tendo em conta o turbilhão de emoções vividas. Era um restaurante fino, de guardanapos de seda e de um número infinito de copos e talheres. Nunca fui destas coisas mas queria mimar-me, queria recompor o meu lado mais feminino. Afinal de contas, as emoções são iguais para todos e, se com as mulheres resulta, porque não há-de resultar com um homem? Talvez amanhã decida ir às compras.
O jantar veio e o seu aspecto era delicioso. Em pequenas quantidades, estilo gourmet. Modernices num mundo em que estar na moda ou ser fino é o melhor que se pode ter. Santa ignorância. Quando me preparava para levar o garfo à boca vejo uma mulher dar o casaco ao cavalheiro que estava à porta. Parecia-me familiar. Olhei uma segunda vez, mais pormenorizadamente e, merda! A Íris e o seu namorado estrangeiro. Ele era alto, loiro e de olho claro, o estilo mais British que podia haver. Nem as típicas sardas podiam faltar. Ela continuava a mesma, de pose altiva e sorriso contido. A maior lady que alguma vez conheci. A pessoa que me deu todos os sonhos do mundo e que me tirou o chão. Hoje, a vida mostrou-me o seu rumo: ela está ali, num romance com o seu homem e eu estou aqui, sozinho, vendo aquela que foi, em tempos, a mulher da minha vida. Para ser sincero, nunca pensei entrar numa frase em que o meu nome não fosse sinónimo de "teu homem". 
Pelo meio haverá troca de olhares, eu sei. Talvez um de nós trema e acabe por ir embora mais cedo. Fui o primeiro a chegar, fui o primeiro a sair. Aquela Íris, talvez a pessoa mais fria que eu conheci, agiu sempre como se nada fosse, como se ali não estivesse. Inacreditável. Mais uma lição da vida: nada mais podia esperar de tal ser.
Dirigi-me para os bares, para a confusão, para a música. Nunca fui de saídas, de noitadas e grandes diversões, mas hoje precisava de esquecer o dia, perder-me na noite e só recuperar a consciência amanhã. Foi exactamente o que fiz.
Talvez noutro dia te procure ou, quem sabe, a vida te traga até mim. Agora estou demasiado debilitado para as aventuras da vida, afinal de contas, custa sempre perder.

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