terça-feira, 15 de abril de 2014

O fim da viagem é o encontro dos amantes

Estava de coração partido, fechado para o amor e com a alma em manutenção. Todos os dias levantava-me com a sensação de quem já viveu tudo o que tinha para viver, com o pensamento de quem já tinha dado tudo o que havia para dar. Em cada manhã, ao levantar, dirigia-me à parede do meu quarto, ao lado da cama, onde estavam colados todos os momentos especiais da vida. Tinha prometido para mim mesmo rasgar, a cada dia, uma foto da Íris. Tal acto de fúria durava há uma semana. Ainda tinha mais umas quantas pela frente. No canto da parede estavam umas fotos mais pequenas, meio dobradas e engelhadas.  Reparei nelas pela antiguidade que apresentavam. Como era jovem naquelas fotos, quase sem barba, de t-shirts com bonecos estampados e mochila às costas. Finos traços de menino. Com elas vinham os meus amigos. Os meus amigos, que saudades...! E nelas vinhas tu. Eram fotos do tempo que te conheci, do tempo que partilhei contigo e do tempo em que fomos um só. Muito antes de grandes paixões, de amores platónicos, transcendentes e sérios. Muito antes de ter conhecido a mulher que ando, literalmente, a rasgar da minha vida. Éramos nós, do jeito que sempre fomos. Descontraídos, diferentes e sôfregos. Loucos por conhecer os lados do mundo e os seus prazeres mais recatados. O tempo da inocência e o calor da descoberta permaneciam no teu olhar.
Abanei a cabeça como quem pretende sacudir os pensamentos nostálgicos que pairavam sobre mim. Julguei-os perdidos. Afinal, talvez estivessem mal arrumados.Tirei a t-shirt e dirigi-me para o banho. Era tempo de voltar à realidade: rasgar uma das minhas fotos principais, aquelas do centro da parede. Em tempos a Íris pediu o papel principal, dei-lho e ela não o honrou. Fez cair o pano quando a peça ainda ia a meio. Era uma peça para a vida e ela não a soube interpretar. Por falar em pano, no melhor cai a nódoa, não é? Mas chega de Íris.
Rasguei a foto do dia, num dia estranho. Um dia nostálgico, deveras diferente. Recordava o passado, mas não ela. Retomava o passado e lembrava-me de ti. Como poderia explicar o facto de as tuas fotos ainda permanecerem no canto da parede? Como se não quisessem incomodar mas incomodando. Como se não quisessem conquistar, mas conquistando...Conhecendo como te conheci, é o teu estilo chapado! Talvez seja eu a pensar demais. O que lá vai, lá vai, idiota.
Saí de casa com a pressa do costume, uma mão para abrir a porta da rua, outra para vestir o casaco e a carcaça presa nos dentes. Uma figura ridícula que a velhota do rés do chão esquerdo não perdia por nada. A preguiça matinal era a minha inimiga diária. Olhava para o relógio e reparava que ainda tinha 10 minutos para tomar café. Entrei num pequeno estabelecimento perto de minha casa. Não era cliente, talvez fosse a segunda ou terceira vez que ali entrava e não me lembro de quando foi a última vez. Sem tempo a perder, pedi a "bica" e meti os olhos na capa do jornal que estava em cima da mesa. Sentei-me como quem não se quer acomodar. Uma nádega na cadeira e a outra fora, pronto para arrancar.
Pouco depois oiço uma melódica voz feminina sussurrar-me ao ouvido:
- Aqui tem o café que pediu - disse a rapariga enquanto poisava cuidadosamente a chávena.
Ao tirar os olhos do jornal, preparado para esboçar o sorriso de gratidão e o sempre educado obrigado, fitei o rosto da empregada. Congelei. Fiquei pálido, o sangue deixou de circular pelas minhas veias e, paradoxalmente, a taquicardia apoderou-se do meu peito. Eras tu. E estes são os momentos em que o silêncio conquista o que as palavras destroem.
Ela sorriu e piscou-me discretamente o olho. Pediu-me licença e virou-me as costas. Aposto que se ia a rir, enquanto caminhava confiante, de andar seguro, como quem desfila numa passerelle. Eras menina para isso e aposto que agora, adulta, serás mulher para muito mais. Eu acordei para a vida e fiz o que tinha de ser feito. Chamei-te:
-Rita?! Espera...- pedi, desesperado, enquanto me levantava apressadamente da mesa.
Não tinha o tempo que aquele encontro pedia nem tampouco tinhas o tempo que eu suplicava. Por isso achei que o melhor era dar-te o meu cartão do escritório, onde tinha o meu nome e número. O nome, que se lixe o nome! Já me conhecias, não importava o nome. O número seria a ponte entre os dois. O elo de ligação entre o (nosso) passado e o presente. De seguida, comecei a preparar-me para sair.
- Liga-me, Rita. Por favor. Não dês importância ao cartão, é a única maneira de estarmos juntos. Liga-me, para um café! - falava enquanto contornava os clientes e abandonava o estabelecimento. Sempre tentando manter o contacto visual contigo.
 Tu serpenteavas o meu cartão por entre os dedos e riste-te quando te falei em café. Percebi, mais tarde o porquê. Não cheguei a provar o meu. Mas para mim foi o melhor café dos últimos tempos. Despertou-me para o dia, despertou-me para a vida.
Aguardei 3 dias pelo teu telefonema. Em vão. O telemóvel nunca tocou, a caixa de mensagens desconhecia o teu paradeiro e o senhor do café disse-me apenas que tu não trabalhavas lá. Eras filha do dono e naquele dia foste dar uma ajuda, já que a empregada não podia ir. O destino prega-nos cada partida... Passaram-se 2 semanas de impaciência, de desespero e desolação.
Acordei com o meu bom humor matinal. Chamei todos os nomes que me vieram à cabeça à vida, ao despertador, ao sol que furava as persianas e a tudo mais que me lembrava. Olhei para a parede e preparei-me para rasgar a última fotografia da Íris. Fiz o que tinha a fazer pela última vez, com a mesma força do primeiro dia. De seguida o telemóvel vibra e dá um ligeiro zunido. Som de mensagem. Deve ser a operadora a exigir carregamento ou a anunciar uma nova campanha. Pensamento previsível.
Dirijo-me ao telemóvel e leio a mensagem. O dia nasceu naquele momento e o sol não parava de brilhar. Senti-me a acordar naquele instante. Um despertar para a vida, como já tinha vivido outrora. Respirei fundo, tentando controlar as emoções que sentia. Olhei para a parede do meu quarto e sorri. 
O destino tem destas coisas. Após tantos anos, só as tuas fotografias restam na parede dos momentos especiais. Lá estás tu, de volta ao palco da minha vida. De volta ao papel principal.

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