sexta-feira, 18 de abril de 2014

Hoje morro contigo, meu amor.

O dia mais triste da minha vida é este. Podem dizer que ainda tenho muitos dias para serem vividos e que é uma precipitação afirmar isso. Não, não é. Hoje é o dia mais triste da minha vida e já com eufemismo aplicado. Porque, para vos ser sincero, a minha vida acabou hoje.
Tenho setenta anos, sou reformado e casado há cinquenta. A vida nunca foi um mar de rosas, fui para a guerra, vi mortes, chorei agarrado a quem nunca conheci e vi o tombar do amigo que me protegia a retaguarda. Tudo isto em nome de um país que me ensinaram a honrar e de uma bandeira que me ensinaram a respeitar. Verdadeiramente, enfrentei o inferno por ti, para regressar aos teus braços. 
A vida pode dar visões do inferno, mas nunca nos prepara para morrer. Hoje tenho-te nos meus braços, amparada pelas minhas mãos, pálida e sem qualquer tipo de reacção. Custa-me imenso compreender este momento. Há quem lhe chame de "lei da vida". Eu chamo-lhe de tudo menos lei. E de vida é que a morte não tem nada. 
Olhando para trás, lembro-me de te ver com o teu grupo de amigas. Todas as manhãs iam lavar roupa à ribeira. As cestas transportavam o máximo de roupa que suportavam e o vosso cantarolar metia inveja aos pássaros de qualquer lugar do planeta. Nesse grupo havia uma rapariga ruiva, de cabelo aos caracóis e olhos verdes. A mais bonita de todas as moças que eu conheci. Não tardei em meter conversa contigo e rapidamente comecei a namorar-te à janela. Recordo-me daquelas loucuras típicas do nosso tempo: saías pela janela para o teu pai não saber e encontravas-te comigo no bailarico. Cortejava-te a noite toda, sempre com o maior respeito e trazia-te a casa, devagarinho, com as luzes do carro apagadas, para o teu pai não desconfiar. Que belos tempos de juventude. Parece que foi ontem! Agora, esta malta nova só quer discotecas, elas andam praticamente nuas e os rapazes acham-se o Rambo! É tudo uma pouca vergonha. Falta gente como deve ser para salvar este mundo.
Lembro-me de te dar o primeiro beijo no celeiro, do teu ar envergonhado e das tuas bochechas coradas. Melhor só a desculpa que inventaste: estava muito calor, quando chovia a potes. Estávamos em pleno Inverno, Rosa. Em pleno Inverno, minha flôr.
Nunca me esquecerei do momento em que pedi a tua mão ao teu pai. Prometi-lhe respeitar-te sempre e querer sempre o teu melhor. Fui mais longe e prometi proteger-te de todas as amarguras da vida. Eu tentei, Rosa, tu sabes que tentei. Talvez tenha falhado. Talvez estas lágrimas salgadas que agora engulo sejam o sabor da derrota. Prometi dar-te uma vida cheia de coisas boas e não a nossa modesta casa. Prometi levar-te a conhecer o mundo e nunca te consegui mostrar o real tamanho do nosso país. Ao menos o nosso país...nem isso! Prometi-te, no auge da nossa mocidade, que iríamos ser dois velhotes jeitosos, bem vestidos e com posses. Olha para nós, Rosa. Todos os dias vestíamos as roupas clássicas, os casacos de renda, as blusas às flores e o blazer velho, aos quadrados. O dinheiro da nossa reforma servia para os medicamentos, água, luz e gás. Metíamos de parte uns trocos para ajudar o nosso filho Manuel e o resto mal dava para as nossas simples refeições. Tenho pena de não te ter conseguido levar mais vezes ao restaurante, meu amor. E tu bem que merecias um daqueles banquetes como os dos Reis.
Só a alegria nunca faltou lá em casa. Tu conquistavas sempre tudo com o teu sorriso, com esse olhar meigo e irresistível.
Nunca esperei viver este dia. Sempre pensei ir primeiro, talvez por não saber lidar com a tua perda. O teu ser entranhou-se de tal maneira em mim que virou dependência. Não sei se consigo comer sem ter alguém com quem falar, encontrar os óculos para ler o jornal, ou sentar-me nos degraus da casa e não ter com quem dividir o sol e comentar as notícias. Foram mais de 50 anos contigo. Como podem pedir a este velho quezilento para se habituar ao que nunca foi? Nós nascemos para ficar juntos, vivemos uma vida juntos e morreremos juntos, Rosa. Hoje morro aqui contigo, meu amor. É tudo o que te posso dizer. Prometi nunca te abandonar e vou cumprir.

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