sábado, 26 de abril de 2014

Dois mundos, uma história

Rodrigo caminhava pela rua como diariamente o fazia, contando as pedras da calçada, sonhando alto e cantarolando a música que ouvira na rádio, logo pela manhã. Os sapatos engraxados e o casaco de cabedal davam-lhe o ar citadino que lhe permitia ser igual entre os iguais. Mas aquele rapaz era diferente dos outros. Um ser que caminhava com o corpo mas sonhava com a alma. Uma alma destinada a voar.
A vida fazia com que Rodrigo se mantivesse naquelas ruas, rumo à livraria onde trabalhava desde sempre. Lá, sentia-se feliz, podia viajar de mundo em mundo, de história em história, conhecer pessoas intemporais, sonhadoras e singulares. Ele era um peixe fora de água, uma personagem fora do seu livro. A nossa vida era um conto pequeno demais para a dimensão da sua personagem e os livros eram, com naturalidade, o subterfúgio de uma vida de "faz de conta".
Apesar das diferenças, todos os dias Rodrigo cruzava-se com alguém igual a si e, evidentemente, diferente de tudo o resto. Chamava-se Alice, uma mulher despassarada, de óculos de massa vermelhos e vestido a lembrar a Minnie, célebre personagem da Disney. Os sapatos, altos e vermelhos, davam um look engraçado àquela personagem. 
- Como é possível aquela mulher ser engolida pela multidão? Como é possível o mundo não parar de girar perante tal mulher? Deveria ser ela a ditar a rota da Terra! A Terra necessita de sair deste marasmo! - dizia Rodrigo, gesticulando, para os seus livros.
Diariamente cruzavam-se na rua, em sentidos opostos. Ela recheada de livros e ele a caminho da casa dos mesmos, a sua livraria. Uma vez por semana encontravam-se naquele santuário literário. Ela fazia sempre questão de adquirir um policial recheado de suspense, intriga e obscuridade. A rapariga de roupas alegres, de cores vivas e ar juvenil, mergulhava no mundo mais sombrio de todos, o dos assassinos. Intrigante, deveras intrigante. Rodrigo, um amante de aventuras loucas, de super-heróis destinados a travar batalhas hercúleas e de objectos espaciais dignos de reprodução cinematográfica, aconselhava-lhe todas as semanas os seus favoritos. Sempre em vão. Aquela rapariga lia os livros mais repetitivos que o mundo conhecera.
Certo dia, numa sexta feira de manhã, o dia que Alice escolhia para passar pela livraria, Rodrigo mudou de passeio e decidiu ir em contra-mão. O objectivo era claro, ir ao encontro dela, de encontrão, se fosse preciso. Tudo isto só para lhe arrancar um olhar, um sorriso ou uma palavra. Queria mostrar-lhe que a conhecia, que reparava nela. Queria, no fundo, ser reconhecido. E assim foi, ela, de cabeça baixa, com o olhar preso aos livros, acabou por embater em Rodrigo, o astuto acidentado.
- Aii desculpa! - Exclamou Alice do alto da sua surpresa.
- Ora essa! Desculpa peço eu pelo embate! Magoou-se? - perguntou Rodrigo, autor deste novo capítulo do seu destino.
- Não, obrigado por perguntar. Só tenho de apanhar os livros que caíram.
Naquele instante, ele baixa-se e apanha-lhe o livro. 
- "Crime em Nova Iorque"? Aposto que já leu o "Doce vingança" e o "Matar para Vencer" - sorriu enquanto acertou directamente no coração da rapariga.
Ela olhou-o fixamente, como quem, de repente, despertava para a vida. Desceu do seu mundinho e tomou pela primeira vez consciência da existência daquele ser.
- Como sabes? Só quem os vende pode saber tal coisa?!
- Pois... acertaste! Sou eu quem te dá as sugestões de todos os livros e quem te entrega os teus melhores amigos, todas as semanas.
Ela sorriu e o olho brilhou. Sentiu o peito encher-se de entusiasmo, as maçãs do rosto coraram subitamente e a temperatura subiu. 
- Obrigado por tudo...como te chamas?
- Rodrigo! Sou o Rodrigo e não tens nada a agradecer!
- Adeus! - disse fugazmente Alice, enquanto procurava sair rapidamente daquele embaraço. Não era costume conviver com alguém, muito menos alguém tão íntimo, que conhecia na perfeição a sua vida: Ler!
Era sexta feira à noite e Alice ainda não tinha aparecido na livraria. Rodrigo temia ter assustado o ser mais parecido consigo à face da terra. Tinha jogado a sua melhor mão e começava a pensar na derrota.
Num ápice, a porta abre-se e a Minnie dos tempos modernos aparece de cabeça erguida, olhos sombreados e uma ligeira tonalidade de pó de arroz. O cabelo deixava de ser solto e descuidado, passava a ser luzidio e apanhado atrás.
- Uau...-disse Rodrigo baixinho, quase sem movimentar os lábios. O queixo caíra-lhe e o coração estava aos seus pés.
- Boa noite, Rodrigo, certo?
Ele sorriu, sentiu confiança pelo facto de ela se lembrar do nome, todavia, tremia com tamanho endeusamento.
- Queres mais um policial?- Perguntou em modo piloto automático, enquanto se dirigia para a estante da categoria.
- Não, vou levar este!
Rodrigo achou estranho e olhou para o livro. Ficou confuso, mal disposto, com borboletas no estômago e febril. Alice preparava-se para levar um romance, um romance, do mais meloso que existe: "Diz-me que me amas".
Ela sorriu com a timidez que a caracterizava mas com a determinação típica de uma mulher.
- Claro. Vou só lá dentro buscar um saco. Dá-me um instante - disse o desfigurado Rodrigo. 
Foi lá dentro, bebeu água, molhou a face e respirou fundo. Sentiu a janela de oportunidade e pegou nos 2 bilhetes de cinema que iria dar ao cliente do mês. Ela merecia, ela era o cliente do mês da livraria e a mulher da vida dele.
De novo, ao balcão, pegou no livro, embrulhou-o e deu-lho com os dois bilhetes.
Ao ver os bilhetes, Alice sentiu-se compreendida e acenou um fulgurante sim.
- Chamas-te...
- Alice!
- É um prazer conhecer-te, Alice!
- Conheces-me como ninguém, Rodrigo.
E, desde então, juntos desfrutam da livraria, sendo a história dos dois o melhor romance daquele espaço.

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