quarta-feira, 30 de abril de 2014

O melhor lugar do mundo

Um dia prometi levar-te ao melhor lugar do mundo, onde tudo faz sentido e a felicidade apodera-se da alma. Queria mostrar-te que o mundo é feito de lugares encantados e que somos nós quem os fazemos, que lhes damos vida e sentido. Gosto de ver o teu ar desconfiado com tamanha surpresa, o teu ar expectante e louco por descobrir o tal lugar. Há quem lhe chame de lugar encantado, onde tudo faz sentido. Podia pegar na ideia de alguém e resumi-la a isso. Mas não, para mim, aquele lugar é o centro de toda a alegria, o despertar da vida e o início do meu fim. Aquele lugar é a semente mandada à terra, de onde colho a felicidade.
Entraste no carro munida de perguntas, ratoeiras e contradições. Precisei de muita concentração e prepotência. Não leves a mal tal atitude, mas se não resistisse às tuas seduções tudo isto deixaria de fazer sentido. Parei quando estava perto de chegar. Pedi para vendar-te os olhos. Tu, a muito custo, lá aceitaste e cedeste. Estava perto de levar-te ao meu sítio, na esperança de o sentires da mesma maneira que eu.
Estacionei e ajudei-te a sair. Reclamavas para ver, inventavas desculpas atrás de desculpas. Todas caíram aos pés da minha vontade. Conhecia-te bem demais para não me defender das tuas tempestades psicológicas. Aproximei-te do centro daquele lugar. Ouvias o mar e sentias a brisa no rosto, percebi que começavas a reconhecer mesmo sem ver. Olhei-te enquanto nada vias e recordei o rosto pelo qual me apaixonei. Cada vez mais bonito mas com a essência de sempre. Sentei-te e sentei-me ao teu lado, agarrei-te na mão e beijei-a. De seguida beijei-te a face e perguntei-te se estavas preparada. O teu "claro" saiu com tanta convicção que o mar se agitou, a ondulação subiu e as gaivotas fugiram ao som do agonizante grasnar.
Tirei-te a venda e deixei-te apreciar a paisagem e todo o seu esplendor. Para mim aquele era o lugar mais bonito do mundo e tu eras a minha melhor companhia. O perfume do momento era o teu. Quando abriste os olhos custou-te enfrentar a luz do sol, mas acredita, ele brilhou ainda mais. Ele desenvencilhou-se das nuvens e centrou-se em ti. Fiquei na sombra de todo o teu brilho.
Do alto daquele  rochedo tinhas o mar a beijar-te os pés e eu a beijar-te o rosto.
- Reconheces? Este é o meu lugar favorito e nada mais se compara - disse como quem desvenda a surpresa.
- Claro que reconheço. Foi aqui que nos demos a conhecer e nos beijámos - respondeu-me com todo o brilho que um olhar pode conter.
- Foi aqui que te entreguei o meu coração. Guarda-o da melhor maneira, guarda-me até ao fim.
Tu beijaste-me enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto. A dada altura já não sabia de quem eram, se minhas se tuas. No calor daquele beijo perdi-me, já não sabia quem era, se o meu corpo se o teu.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Pisar nuvens é andar no céu

Estou deitado na cama e olho para o tecto. Imagino o futuro, o que vai ser de mim, o que vai ser de nós. Não te particularizo porque fazes parte de mim, estás em tudo o que sou e faço. Fecho os olhos e sinto a bestial sensação de estar apaixonado. Só quem está ou já esteve sabe do que falo. O céu vira chão e o sonho realidade. Amar-te trouxe-me o lado de lá da vida, que os adultos omitem e o mentecapto escritor apregoa. Eu e tu somos duas crianças a correr pela estrada da vida, onde a única certeza que temos é a de andar sempre na mesma direcção, em frente, de mão dada. Tudo o resto é uma incógnita. Tudo o resto é incerto, menos nós. Sei que um dia, velhotes, já não correremos estrada fora. Mas, orgulhosamente, estaremos de mão dada, lado a lado, sabendo que chegámos ao fim do caminho. Tudo acabará como começou, ao teu lado. E não há nada melhor do que isso. Quem pode ter medo do caminho quando tem a companhia perfeita? E, diga-se, pisar nuvens é andar no céu...

segunda-feira, 28 de abril de 2014

O fim do caminho é o encontro dos amantes (2)

(para quem não leu a 1ª parte desta história: O fim da viagem é o encontro dos amantes)

A mensagem que me enviaste pairava sobre a minha cabeça e teimava não ir embora. Já a tinha lido tantas vezes que a sabia de cor. Cada frase, cada palavra e cada pontuação que lhe deste ecoavam na minha mente. Juro que tentei negar-lhe o acesso, mas passei o dia a descodificá-la, a decifrá-la e a atribuir-lhe os mais variados sentidos. Os que possas ter dado e todos os outros que criei. Adiei para o final da tarde uma possível decisão a tomar. Não queria perder por completo o dia de trabalho, muito menos passar-te a ideia de alguém desesperado e fácil. Decidi esperar vários dias até telefonar. Aguentei apenas dois.
De hoje não passava, bastava sair do escritório, entrar no carro, dirigir-me para casa e ligar-te. Ligar-te ou mandar-te mensagem, mais uma dúvida para não me deixar raciocinar direito. Calma, André, tens sempre de inventar problemas onde não existem. Quando chegar a hora verás o que é melhor.
Entrei no carro e tirei o telemóvel do bolso do casaco. Marquei o teu número e liguei-te. Aquele Rita era escrito a maiúsculas, tal era a sua importância. Queria ouvir a tua voz, tornar-te presente e, acima de tudo, reencontrar-me contigo. Acima de tudo isso, ver-te, saber como estás, por onde andaste e como se desenrolaram as aventuras da tua vida. O telefone chamou e ninguém atendeu. Baixei a cabeça e percebi que não seria fácil trazer-te de volta. Liguei o motor e arranquei. Para trás ficaram os pensamentos utópicos e, ironicamente, Rui Veloso acompanhava-me na rádio com o seu "nunca me esqueci de ti". Durante aquela marcha lenta percebi que hoje o destino não podia ser a minha casa. Estava demasiado só para um ambiente familiar.
Estacionei o carro no centro da cidade e fui jantar fora. Um mimo merecido tendo em conta o turbilhão de emoções vividas. Era um restaurante fino, de guardanapos de seda e de um número infinito de copos e talheres. Nunca fui destas coisas mas queria mimar-me, queria recompor o meu lado mais feminino. Afinal de contas, as emoções são iguais para todos e, se com as mulheres resulta, porque não há-de resultar com um homem? Talvez amanhã decida ir às compras.
O jantar veio e o seu aspecto era delicioso. Em pequenas quantidades, estilo gourmet. Modernices num mundo em que estar na moda ou ser fino é o melhor que se pode ter. Santa ignorância. Quando me preparava para levar o garfo à boca vejo uma mulher dar o casaco ao cavalheiro que estava à porta. Parecia-me familiar. Olhei uma segunda vez, mais pormenorizadamente e, merda! A Íris e o seu namorado estrangeiro. Ele era alto, loiro e de olho claro, o estilo mais British que podia haver. Nem as típicas sardas podiam faltar. Ela continuava a mesma, de pose altiva e sorriso contido. A maior lady que alguma vez conheci. A pessoa que me deu todos os sonhos do mundo e que me tirou o chão. Hoje, a vida mostrou-me o seu rumo: ela está ali, num romance com o seu homem e eu estou aqui, sozinho, vendo aquela que foi, em tempos, a mulher da minha vida. Para ser sincero, nunca pensei entrar numa frase em que o meu nome não fosse sinónimo de "teu homem". 
Pelo meio haverá troca de olhares, eu sei. Talvez um de nós trema e acabe por ir embora mais cedo. Fui o primeiro a chegar, fui o primeiro a sair. Aquela Íris, talvez a pessoa mais fria que eu conheci, agiu sempre como se nada fosse, como se ali não estivesse. Inacreditável. Mais uma lição da vida: nada mais podia esperar de tal ser.
Dirigi-me para os bares, para a confusão, para a música. Nunca fui de saídas, de noitadas e grandes diversões, mas hoje precisava de esquecer o dia, perder-me na noite e só recuperar a consciência amanhã. Foi exactamente o que fiz.
Talvez noutro dia te procure ou, quem sabe, a vida te traga até mim. Agora estou demasiado debilitado para as aventuras da vida, afinal de contas, custa sempre perder.

domingo, 27 de abril de 2014

Um convite para jantar

A casa era pequena demais para a minha solidão. O circuito cozinha-sala e sala-cozinha aliviava o stress mas dava comigo em doido. Sentia-me um cão atrás do seu rabo, um burro atrás da cenoura pendurada à frente dos seus olhos. A minha cabeça estava atolada de pensamentos teus, de palavras não ditas, gestos por serem feitos e caminhos a seguir. O destino de todos eles eras tu, mas não sabia como chegar até ti. Queria ter mil e uma maneiras de ser teu, de te tornar minha, incondicionalmente minha. Para tal, precisava de ser subtil, discreto, educado e minimamente, apenas minimamente, interessado. Queria mostrar-te que te desejo mas sem ser em demasia. Queria mostrar-te que podia ser teu, mas que não me tinhas na mão. No fundo, queria estar contigo e esconder os meus sentimentos. Só um cego não via a minha dependência, só uma pedra não percebia o quanto te amo. 
Contigo sentia o sabor da descoberta, a adrenalina das novas vivências e a curiosidade pela vida. Tu conseguias dar-me o que é tão raro ter: a descoberta. Numa vida monótona, desinteressante e banal, tu rompias com o costume, eras uma lufada de ar fresco no meu dia.
Parei no hall de entrada, olhei-me ao espelho e falei para mim mesmo, em tom sério e responsável:
- Artur, tens de ser homem, um homem de verdade. Só assim conseguirás uma verdadeira mulher!
Estavas atrasada, o jantar estava na mesa e o vinho estava à lareira, a apurar o sabor. A sala estava a meia luz e a lareira aquecia o ambiente. Por pouco tempo, desejava. Dirigi-me até à aparelhagem e coloquei o cd do Marvin Gaye. Assim que entrasses e te sentasses à mesa, o sexual healing acompanhar-nos-ia. Estava tudo pensado até ao mais ínfimo pormenor. Só tu davas imprevisibilidade à noite, só tu fugias ao esquematizado e rompias com o normal. A minha caixinha de pandora. Só tu... o pormaior.
A campainha tocou e dirigi-me à porta. Abri lentamente e recebi-te com um beijo delicado no rosto. O teu rosto dava a felicidade que a minha casa precisava e a beleza que os meus olhos pediam. Recebi o bolo que trouxeste para a sobremesa, pedi-te o casaco e convidei-te para te sentares. Barafustaste porque querias cortar o ananás, pôr a cesta do pão e abrir o vinho. Não deixei. Hoje estavas por minha conta e, para mim mesmo, prometia tratar-te assim uma vida inteira. Dei-te a escolher o lugar e puxei-te a cadeira. Abri o vinho e meti o som a tocar. Perfeito, tudo perfeito, pensava para os meus botões.
O vinho regava o jantar e a música embalava a agradável conversa. Adorava isso em ti, uma de tantas coisas, diga-se. Eras a companhia que qualquer pessoa necessitava. Sorridente, bem disposta, inteligente, boa ouvinte e excelente comunicadora. Ao pé de ti não haviam silêncios constrangedores nem falta de assunto. Terminado o jantar, levantei a mesa, deixando apenas os nossos copos e o vinho, claro. Trouxe o teu bolo e os morangos que preparara. Tu levantaste-te da mesa e dirigiste-te à aparelhagem. Escolheste o som que mais gostavas. O Marvin Gaye repetiu sexual healing, um pedido especial da sua ouvinte. Ri-me com tamanha audácia. Dirigiste-te ao pé de mim, agarraste-me nos braços e sugeriste, enquanto abanavas a anca:
- Anda Artur, dança esta comigo! - Os teus lábios cantavam cada palavra e os meus ouvidos dançavam-nas.
Eu, desarticulado e completamente fora de qualquer ritmo, deixei-me levar por ti. Apenas estava empenhado em ter-te colada ao meu corpo e as minhas mãos na tua cintura. As pernas tremiam, esses eram os movimentos mais naturais que tinha para dar.
Tu sentias-me teu, entregue ao teu dançar e aos teus compassos. Olhaste-me nos olhos e encostaste a cabeça no meu ombro. Aproveitando tamanha proximidade, encostei a minha boca ao teu ouvido e disse em tom sedutor:
- Quero-te... 
Uma simples palavra bastou.  Rapidamente procuraste os meus lábios e beijámo-nos ardentemente. A minha língua tomava o gosto dos teus lábios e recebia as tuas mordidelas cheias de desejo.
Olhaste-me e sorriste. Abraçaste-me como quem abraça o mundo e encostaste a tua cabeça no meu ombro. Saboreaste a música, a dança e o momento.
Eu apertei-te para mim e fechei os olhos.
- Isto era tudo o que mais queria - confidenciei ao ouvido.
- Tu eras tudo o que desejava - respondeu-me repleta de sinceridade.

sábado, 26 de abril de 2014

Dois mundos, uma história

Rodrigo caminhava pela rua como diariamente o fazia, contando as pedras da calçada, sonhando alto e cantarolando a música que ouvira na rádio, logo pela manhã. Os sapatos engraxados e o casaco de cabedal davam-lhe o ar citadino que lhe permitia ser igual entre os iguais. Mas aquele rapaz era diferente dos outros. Um ser que caminhava com o corpo mas sonhava com a alma. Uma alma destinada a voar.
A vida fazia com que Rodrigo se mantivesse naquelas ruas, rumo à livraria onde trabalhava desde sempre. Lá, sentia-se feliz, podia viajar de mundo em mundo, de história em história, conhecer pessoas intemporais, sonhadoras e singulares. Ele era um peixe fora de água, uma personagem fora do seu livro. A nossa vida era um conto pequeno demais para a dimensão da sua personagem e os livros eram, com naturalidade, o subterfúgio de uma vida de "faz de conta".
Apesar das diferenças, todos os dias Rodrigo cruzava-se com alguém igual a si e, evidentemente, diferente de tudo o resto. Chamava-se Alice, uma mulher despassarada, de óculos de massa vermelhos e vestido a lembrar a Minnie, célebre personagem da Disney. Os sapatos, altos e vermelhos, davam um look engraçado àquela personagem. 
- Como é possível aquela mulher ser engolida pela multidão? Como é possível o mundo não parar de girar perante tal mulher? Deveria ser ela a ditar a rota da Terra! A Terra necessita de sair deste marasmo! - dizia Rodrigo, gesticulando, para os seus livros.
Diariamente cruzavam-se na rua, em sentidos opostos. Ela recheada de livros e ele a caminho da casa dos mesmos, a sua livraria. Uma vez por semana encontravam-se naquele santuário literário. Ela fazia sempre questão de adquirir um policial recheado de suspense, intriga e obscuridade. A rapariga de roupas alegres, de cores vivas e ar juvenil, mergulhava no mundo mais sombrio de todos, o dos assassinos. Intrigante, deveras intrigante. Rodrigo, um amante de aventuras loucas, de super-heróis destinados a travar batalhas hercúleas e de objectos espaciais dignos de reprodução cinematográfica, aconselhava-lhe todas as semanas os seus favoritos. Sempre em vão. Aquela rapariga lia os livros mais repetitivos que o mundo conhecera.
Certo dia, numa sexta feira de manhã, o dia que Alice escolhia para passar pela livraria, Rodrigo mudou de passeio e decidiu ir em contra-mão. O objectivo era claro, ir ao encontro dela, de encontrão, se fosse preciso. Tudo isto só para lhe arrancar um olhar, um sorriso ou uma palavra. Queria mostrar-lhe que a conhecia, que reparava nela. Queria, no fundo, ser reconhecido. E assim foi, ela, de cabeça baixa, com o olhar preso aos livros, acabou por embater em Rodrigo, o astuto acidentado.
- Aii desculpa! - Exclamou Alice do alto da sua surpresa.
- Ora essa! Desculpa peço eu pelo embate! Magoou-se? - perguntou Rodrigo, autor deste novo capítulo do seu destino.
- Não, obrigado por perguntar. Só tenho de apanhar os livros que caíram.
Naquele instante, ele baixa-se e apanha-lhe o livro. 
- "Crime em Nova Iorque"? Aposto que já leu o "Doce vingança" e o "Matar para Vencer" - sorriu enquanto acertou directamente no coração da rapariga.
Ela olhou-o fixamente, como quem, de repente, despertava para a vida. Desceu do seu mundinho e tomou pela primeira vez consciência da existência daquele ser.
- Como sabes? Só quem os vende pode saber tal coisa?!
- Pois... acertaste! Sou eu quem te dá as sugestões de todos os livros e quem te entrega os teus melhores amigos, todas as semanas.
Ela sorriu e o olho brilhou. Sentiu o peito encher-se de entusiasmo, as maçãs do rosto coraram subitamente e a temperatura subiu. 
- Obrigado por tudo...como te chamas?
- Rodrigo! Sou o Rodrigo e não tens nada a agradecer!
- Adeus! - disse fugazmente Alice, enquanto procurava sair rapidamente daquele embaraço. Não era costume conviver com alguém, muito menos alguém tão íntimo, que conhecia na perfeição a sua vida: Ler!
Era sexta feira à noite e Alice ainda não tinha aparecido na livraria. Rodrigo temia ter assustado o ser mais parecido consigo à face da terra. Tinha jogado a sua melhor mão e começava a pensar na derrota.
Num ápice, a porta abre-se e a Minnie dos tempos modernos aparece de cabeça erguida, olhos sombreados e uma ligeira tonalidade de pó de arroz. O cabelo deixava de ser solto e descuidado, passava a ser luzidio e apanhado atrás.
- Uau...-disse Rodrigo baixinho, quase sem movimentar os lábios. O queixo caíra-lhe e o coração estava aos seus pés.
- Boa noite, Rodrigo, certo?
Ele sorriu, sentiu confiança pelo facto de ela se lembrar do nome, todavia, tremia com tamanho endeusamento.
- Queres mais um policial?- Perguntou em modo piloto automático, enquanto se dirigia para a estante da categoria.
- Não, vou levar este!
Rodrigo achou estranho e olhou para o livro. Ficou confuso, mal disposto, com borboletas no estômago e febril. Alice preparava-se para levar um romance, um romance, do mais meloso que existe: "Diz-me que me amas".
Ela sorriu com a timidez que a caracterizava mas com a determinação típica de uma mulher.
- Claro. Vou só lá dentro buscar um saco. Dá-me um instante - disse o desfigurado Rodrigo. 
Foi lá dentro, bebeu água, molhou a face e respirou fundo. Sentiu a janela de oportunidade e pegou nos 2 bilhetes de cinema que iria dar ao cliente do mês. Ela merecia, ela era o cliente do mês da livraria e a mulher da vida dele.
De novo, ao balcão, pegou no livro, embrulhou-o e deu-lho com os dois bilhetes.
Ao ver os bilhetes, Alice sentiu-se compreendida e acenou um fulgurante sim.
- Chamas-te...
- Alice!
- É um prazer conhecer-te, Alice!
- Conheces-me como ninguém, Rodrigo.
E, desde então, juntos desfrutam da livraria, sendo a história dos dois o melhor romance daquele espaço.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

25 de Abril - eu só queria a liberdade

Escrever quando quero
amar quando desejo
exigir o que não tenho
viver do cravo e do beijo

Em cada nova aventura
os maus saem de cena,
resta recordar com ternura
a Grândola Vila Morena

E no fim da tempestade
o ancorar em porto seguro,
não importa a idade
deste país cego, surdo e mudo.

Eu só queria a liberdade...

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Completas-me

São 3 da manhã e a escuridão consome o quarto. O silêncio que nos rodeia é quebrado pela tua ritmada respiração. Não consigo dormir e resolvi tomar o maior calmante de todos, tu. Abro os olhos e fixo a escuridão na direcção do teu rosto. Aos poucos adapto-me e começo a desvendar os teus traços. És linda, tão linda que nem o escuro consegue fazer face a isso. A minha mão corre o teu rosto e contorna as tuas linhas. Balbuciaste qualquer coisa e voltaste ao silêncio. Foi incompreensível, mas soltou-me o sorriso parvo de quem só sabe amar. Tudo o que dizes é bonito, tudo o que fazes é divinal. Após contornar-te o rosto desço pelo pescoço, pelo ombro e pelo teu dorsal. Sentir a tua pele macia é motivo de desejo, de querer e satisfação. Amo tudo em ti, cada traço teu, tão fino e elegante. A minha mão vai descendo e perde-se por entre o lençol. Pára na tua cintura. Sinto o teu despertar, sei que me olhas naquela escuridão. É nisto que somos diferentes do resto, o que mais ninguém consegue ser. Trocamos olhares sem nos vermos, tão certo quanto amar-te. A escuridão não separa o nosso desejo e sinto-te cada vez mais perto. A tua respiração é ofegante e próxima, cada vez mais próxima. Subitamente, os teus lábios circulam os meus, o teu nariz toca no meu e finalmente os lábios confrontam-se. Uma vez juntos, demoram a largar. Sempre foi assim, sempre o será. Essa é a minha vontade, tu és o meu desejo mais profundo.
Os corpos unem-se, como se fossem ímanes. Somos dois pólos opostos condenados à junção. Somos aquela força magnética que não se liberta facilmente, que resiste até à maior das forças. Tu és o meu sul e eu, contigo, perco o (meu) norte. Estou destinado a ser teu, infinitamente teu. Enrolamo-nos no lençol e conquistamos o silêncio, ao som de gemidos. A visão torna-se um sentido inútil. Sei de cor cada pedaço teu, já o decorei faz tempo. Fecho os olhos e vejo-te, sempre foi assim, sempre o será.
São quase 4 horas da manhã e daqui a nada o sol nascerá outra vez. Abraço-te carinhosamente e deixo-te encaixar no meu peito. Este é o lado perfeito da vida e não há como substituí-lo. Enquanto ouvir a tua respiração, serei sempre teu.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Foste, és e (não) serás.

Nem imaginas como me sinto. Não imaginas como estou a conter os meus impulsos mais legítimos. Estou em sofrimento por ti. Nunca devias ter dito o que disseste, da forma como disseste e, muito menos a quem disseste. Eu sou quem mais gosta de ti, quem morre por te ver, ouvir e quem sente o auge do prazer no teu sentir. Entranhaste-te de tal maneira em mim que, por muito que queira, já não consigo expelir-te. Corres-me nas veias porque o meu coração só bombeia amor. E como te chamo? Amor. Só para perceberes o que vai cá dentro e mantém-me vivo.
Já lá vão 2 dias desde aquela discussão disparatada, violenta e quem sabe definitiva. No calor das emoções, disseram-se mundos e fundos, sem ouvir, sem calar, sem pensar. O mais perfeito retrato dos nossos defeitos. Conhecemo-nos o suficiente para saber o quanto somos orgulhosos, donos da razão e inflexíveis quanto à tomada de decisão. Mas cabe-me, de cabeça fria, perceber qual o caminho a seguir, e certamente não é o da divisão. Ou será que é? Que interesse tem engolir bem, de cabeça erguida e pose impecável, quando o coração tende a fraquejar e o sangue escasseia? Quando o corpo não responde e o espírito mirra? Mas foi a isto que chegámos e talvez seja tudo o que nos resta: a divisão. Talvez precise de me encontrar. Talvez precise apenas de mim e as palavras que disseste mostraram o quanto sou descartável...
És tu quem irriga o meu corpo e não consigo tirar da cabeça o que escreveste a pedra e cal no meu peito. A lembrança alimenta a alma mas não a minha carcaça. E esta carcaça precisa de sentir vida, de correr atrás de ti, de te agarrar ao colo e de te abraçar como se não houvesse amanhã. Ou melhor, como se o amanhã fosse a continuação do hoje. Sei que deves estar a pensar nas tuas atitudes e em tudo o que deitaste a perder naquela discussão. Eu estou a reflectir sobre o mesmo. Desejo pegar no casaco, meter as chaves de casa ao bolso e dirigir-me à tua porta. É tudo o que mais quero e sei que basta pensar nisso para ganhar espasmos, palpitações e dilatar pupilas. Para sentir um empurrar quase divino que me faz levantar deste maldito sofá. Não passa de força de vontade, só isso, força de vontade. Uma vontade que me faz ser forte o suficiente para ir, mas cobarde quanto baste para voltar.
Há alturas em que o corpo se ajoelha e cede, respeitando a razão. Há alturas em que o Homem tem de tomar consciência da sua finitude e perceber que nada dura para sempre, do mesmo jeito que foi. A vida é um caminho longo demais para ser descoberto de uma vez. O labirinto da vida tem formato de serpente e dá-nos a provar o seu veneno, alfinetando a verdade que pensávamos ser irrefutável.
Enquanto existir, viverás em mim, enquanto viver serás recordada. Porque a lembrança não tem espaço temporal para ser delimitada e o coração só pára quando eu deixar de falar. Mas não esperes ouvir as minhas palavras, elas já não te pertencem.
O meu orgulho faz-me ver a realidade e a tua sinceridade fez-me acabar com a quimera em que vivia.


A mulher do soldado.

Querido, como é bom ver-te dormir descansado, como quem nem imagina o que se passa do lado de lá do mundo. Derreto-me ao ver-te, meu pequeno ser. Adorava que o teu pai te visse, ia delirar com as tuas bochechas, com a tua boca e com esse nariz perfeito. Ia achar-te a sua fotocópia. Se eu já acho, imagino ele, todo babado de tamanho orgulho. Ainda mais babado do que tu.
A tua companhia traz-me o lado mais belo do mundo, a ideia de tranquilidade e paz. Maioritariamente paz. Ocupaste um vazio enorme, adormeceste medos e trouxeste esperança. Dava tudo para ver o teu pai pegar-te ao colo. Como metia piada ver uma coisa tão minúscula nos braços daquele brutamontes. Eu acho que ele não saberia agarrar-te. Ainda assim, ao seu jeito de "missão dada é missão cumprida", iria disfarçadamente fazer os possíveis e impossíveis para atinar com uma posição confortável. Se te encheria de beijos? Claro que sim. Aquele homem beijava-nos de manhã à noite, se pudesse. Sei que agora vou dividir os beijos contigo mas, meu amor, não tem mal nenhum. O pai tem amor que sobra para nós dois.
Gostava que o visses, bebé. Ele é grande, em altura e em largura! É forte como tu um dia serás. É destemido, tão corajoso que vai para lugares dos quais as pessoas fogem e evitam visitar. Mas o papá é importante, tem uma roupa especial e representa o nosso país. Vai lá lutar sempre pela paz e faz com que crianças como tu possam, um dia, ter uma vida melhor. O papá é um herói, o nosso herói! Se algum dia perguntarem o que o teu pai é, diz-lhes que é um herói da nação. Todos entenderão o que faz.
Gostava que ouvisses a voz dele, filho. Até eu tenho saudades da voz dele. Mas um dia ouvirei a tua e saberei que és igual a ele. Já deu para perceber pela maneira como gritaste. "És mesmo filho do teu pai!", diria ele com o seu ar vaidoso.
Ainda falta algum tempo para o papá chegar, entrar de rompante por aquela porta e trazer toda a energia que ele tem. Sempre a sorrir para nós! Connosco ele é sempre feliz. Só lhe damos alegrias e em família está verdadeiramente em paz. Imagino o pai a entrar e a abraçar-nos com aquele abraço apertado e forte. Tão forte que até teremos dificuldades em livrar-nos dele. Aqueles serão sempre os nossos braços filho, a nossa força reside no teu pai e ele será sempre o porto seguro da nossa família.
Podia falar-te do pai a noite toda, todos os dias da próxima semana, mês, ano e, provavelmente, quando chegasse ainda ouviria o final da história. Melhor só vê-lo, sentir a sua respiração e o seu toque. Que saudades daquele homem. O mundo fica pequeno demais para tamanha saudade. 
Sabes filho, o teu pai é um herói mas nunca aceites que ele ponha a sua boina na tua cabeça. Nunca queiras vestir as roupas de super-herói do teu pai, nem queiras os brinquedos que ele usa nas suas aventuras. São perigosos e podem magoar-te a sério. E a mamã fica tão nervosa só de pensar... nem imaginas como fica desfeito o coração de uma mãe.
Dava tudo para que o papá visse a perfeição que o nosso amor fez. É um orgulho tão grande. Ser mãe é indescritível, mas fica ainda mais perfeito quando nasce de um grande amor.
Espero desesperadamente que um dia vejas o teu pai, que ele possa chegar de boa saúde, agarrar-te naqueles braços musculados e não mais te largar. Espero que ele possa apoiar-te nos primeiros passos, articular as tuas primeiras frases e agarrar-te na caneta para te ajudar a desenhar as tuas primeiras letras. Espero que o pai possa acabar a sua vida de super-herói do país e dedicar-se a cem por cento à nossa vida. A ser apenas o super-herói de nossa casa.
Filho, que um dia possas orgulhar-te dos pais que tens. Que um dia sintas a bandeira e o hino deste país como o teu pai sentiu, mas não tenhas de ver nem metade do que o nosso herói viu.
O pai é o nosso orgulho, tu a peça mais valiosa do nosso tesouro. Só falta o nosso herói para a felicidade ser completa.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

O mundo de Sónia

Mulher fria, autoritária e de poucas palavras. A "coração de gelo", a "manda chuva" ou " a "Cruela". Todos os dias Sónia era confrontada com piadas, olhares e silêncios constrangedores. O motivo? Era uma mulher de sucesso, que ocupava o cargo de chefia numa empresa de consultoria. Os seus 29 anos contrastavam com a posição ocupada no seio da empresa. O desconforto era imenso e o facto de ser mulher ainda mais incomodava. Tacanha mentalidade. Sónia usava roupa típica de executiva: um fato feminino clássico e uns sapatos de saltos significativos. Vestia-se a rigor, dentro do estatuto exigido. Os homens com quem convivia diariamente, odiavam receber as suas ordens, ter de respeitar as suas directivas e prestar-lhe contas. Contudo, tinham uma atracção enorme pela sua maneira fria de ser. Ela metia-os na linha, com o seu ar confiante e intimidatório, fazendo questão de mostrar-lhes todo o seu poder. Provavelmente o oposto das mulheres que tinham em casa ou que encontraram até então. Todos os dias, quando Sónia entrava no escritório, parecia entrar de algemas e chicote, vestida com um fato justo em látex. Era assim que os homens a viam. Pior, só quando os chamava individualmente. A forma como se dirigia e pronunciava arrogantemente os seus nomes...pareciam estar com a cabeça debaixo do seu fino salto! Todos os homens, altos, baixos, gordos ou magros e bonitos ou feios, estavam à mercê da poderosa Sónia.
Ela sabia de tudo isso e todos os dias convivia com tal facto naturalmente. Nunca parou para pensar se a sua postura tinha de mudar. Era uma mulher moderna, despachada e trabalhadora. Sabia o quanto teve de estudar, batalhar e justificar para ocupar o cargo a que chegou. Nada na vida lhe foi oferecido ou facilitado. Não teve cunhas, ajudas em troca de favores sexuais ou pequenas seduções. A sua integridade moral era a arma que dispunha para se sentir bem naquele papel. Chegou lá por seu próprio mérito e era essa a sua maior vitória.
Mas quem era a Sónia? A Sónia era uma mulher comum, mãe solteira, com uma filha de 12 anos, fruto de um relacionamento adolescente condenado ao insucesso. Desde cedo teve de aprender o verdadeiro sentido da responsabilidade, do empenho e da obrigação. O seu pai, um homem machista e preconceituoso, não aceitou bem esse deslize e cortou relações familiares com a filha. Sem mãe, que a tinha abandonado em pequena, Sónia viu-se entregue à sorte e com uma filha a caminho. Foi então que ligou à sua tia Carminda. Explicando-lhe o que aconteceu e a gravidade da situação, a tia disponibilizou-se a dar-lhe tecto e a ajudá-la em tudo o que pudesse. Assim foi. Sónia mudou-se para casa da tia Carminda e ganhou a estabilidade que sempre precisara. Estava com 17 anos e tinha acabado de ser mãe. Resolveu arranjar um trabalho numa loja de roupas, permitindo-lhe ganhar algum para as despesas da filha e para ajudar a tia. Mais tarde, veio a faculdade e, com a ajuda de uma bolsa, conseguiu conciliar o trabalho com os estudos. Licenciou-se em Direito e tornou-se uma mulher de palavra e contraditório. Ganhou experiência, maturidade e espírito de sacrifício. Estava lançada para a vida. Conseguiu, com muito suor e lágrimas, uma cada vez maior independência financeira. Mas nunca abandonou quem a acolheu. Quando pôde comprar uma casa maior e sua, levou a sua frágil tia consigo. Recusava-se a deixar para trás quem lhe deu a mão na vida, quem lhe mostrou o sol a brilhar quando apenas via nuvens cinzentas. A gratidão é eterna e o agradecimento é dado em amor.
Hoje, Sónia estaciona o carro à porta de casa e vai buscar o saco do ginásio. No fim das suas aulas de Bodycombat, encarrega-se de ir buscar a filha à escola. Em casa, faz o jantar e participa em todas as lides domésticas, de fato de treino vestido e chinelos calçados. Uma mulher comum que não suportava ver a sua tia Carminda fazer o que já não pode. Uma coisa é o corpo aguentar e pedir tarefas, outra coisa é a altura em que o corpo, velho, apenas exige descanso. A sua tia era fonte de carinho e apenas isso. Talvez a recordação mais bela da sua família e da sua infância.
Com tudo isto, percebemos que Sónia é uma mulher moderna, dos nossos dias. Aquela que é capaz de enfrentar o mundo olhos nos olhos, sendo para ele aquilo que ele foi, em tempos, para ela. A verdadeira Sónia também gosta de ir ao cinema, comer pipocas e chorar com aquelas histórias de amor impossíveis. Gosta de passear o cão com a sua filha, lavar a loiça e deixar a cozinha sempre num brilho. Sim, esta é a mesma mulher que deixa homens a tremer e submissos. Mas o mundo da Sónia é de restrito acesso e, no seu mundo, os homens estão destinados a desaparecer.

domingo, 20 de abril de 2014

O sonho comanda a vida

Lara e João eram o casal perfeito. Todos os seus amigos invejavam aqueles dois. Eles eram inseparáveis, iguais em tantas virtudes e completavam-se em todos os defeitos. O melhor de um era a fraqueza do outro. No fim, o retrato era pintado numa linda aguarela.
João, estudante de Arquitectura, sonhava conhecer o mundo, as grandes obras do Homem e tudo o que em tempos foi uma ideia, depois um projecto desenhado numa folha e, agora, enormes obras de arte. Para ele um arquitecto que não conhecesse a Torre Eiffel, o Empire State Building, o Grande Museu Egípcio, de Giza, entre outras obras, não podia orgulhar-se de ser arquitecto.
- Como pode o Homem criar algo enorme, fantástico e intemporal se nunca viu nada assim de perto? Às vezes precisamos de sentir para depois criar.
Lara ria-se com os pensamentos filosóficos do homem que desenhava uma sequência infindável de traços em folhas de papel. E aquelas maquetas que eram iguais aos edifícios comuns mas que, aos olhos do aspirante arquitecto, tinham traços de criatividade incomparáveis, de uma singularidade extrema que caracterizava o arquitecto visionário?! Era um verdadeiro fartote, aquele João. Contudo, ela adorava o brilho no olho do seu rapaz ao falar das coisas. Ele tinha sempre um lado sonhador, idealista e utópico. Talvez tenha sido por isso que ela se apaixonou.
- És tão tolo, João! Como podes acreditar nessas barbaridades que dizes? Acho bem que queiras o melhor, mas de vez em quando mete os pés no chão, rapaz! Estou cá para te agarrar sempre! Para não te espalhares ao comprido ao aterrar! - A típica crueldade de Lara, camuflada com o seu jeito engraçado de ser.
-Tu quando queres és uma boa filha da mãe, Lara. Talvez um dia consiga provar-te que estás enganada e que isto não é apenas um brilho nos olhos. É algo mais. És uma castradora de sonhos!
Lara encolheu os ombros e meteu um sorriso artificial. Ela sabia que estava a ser dura demais, desmancha-prazeres e, como o seu namorado dizia, uma verdadeira castradora de sonhos. Castradora de sonhos... talvez fosse mesmo isso. Ela sentia-se bem ao cortar-lhe as asas, em negar-lhe qualquer possibilidade de exibição. Talvez sinta poder nessa castração. Gostava de assumir essa responsabilidade e sabia que esse ascendente colocava-o na sua mão.
Mas João, por muito que gostasse da Lara, adorava o mundo. E foi num desses impulsos de loucura que se propôs para estudar um ano nos Estados Unidos. Sim, no país dos excessos, dos edifícios gigantes e das conjugações perfeitas do clássico com o moderno. Estava na hora de descobrir o mundo, procurar conhecer o que apenas via em livros e trazer consigo ideias para um futuro.
Quem nunca achou piada a esta ideia radical foi Lara. Uma rapariga pacata, de raízes criadas e dependente do seu namorado para a sua estabilidade emocional. Como seria a vida sem aquele anormal por perto? Quem iria apoia-la quando estivesse receosa? Quem iria ama-la quando estivesse carente? Como seria ele capaz de partir e deixa-la para trás? Estes 3 anos não serviram de nada para aquele idiota? A cabeça dela fervia de tanta raiva, de tanta pergunta e frustração. E, por mais irónico que seja, era sempre o João que a acalmava, que a fazia ver o lado de lá dos problemas, das dúvidas e das hesitações. Ela amava-o mas nunca iria aceitar a sua partida. Para ela, se ele partisse perdia-a de vez.
Deparado com este ultimato, João tentou gastar o seu arsenal de palavras com Lara, na tentativa de convencer a sua namorada a dar uma oportunidade à relação.
- Agora há o Facebook, o Skype, há tudo e mais alguma coisa, amor! E aqueles que conseguiram superar? Só vês o lado negativo? Pensa em grande! Pensa neste amor tão grande que sentimos! Vamos tentar, ao menos tentar! Luta por isto, é só um ano e sempre que possa estou cá! Acredita! Se ninguém acreditasse ser possível nunca se tinha construído algo! O amor é uma construção a 2!  E o nosso amor é o monumento mais bonito que alguma vez farei...
Por muito bonito que tenha sido, por muito que Lara se tenha emocionado, ela estava disposta a negar-lhe qualquer oportunidade.
- A vida é feita de escolhas, de decisões, João. E agora tens de viver com a escolha que fizeste. Assim como eu. Desististe de mim, João. Trocaste-me pelos teus sonhos. Mas os sonhos não são palpáveis, são incertos e inalcançáveis! Adeus, João.
Beijou-o na boca em jeito de despedida e virou-lhe as costas. Estava decidida a seguir o caminho oposto. A vida dela, a partir de agora, não passava pelas mãos do João. Ele nunca mais iria construir o que quer que fosse no seu coração. E Lara estava decidida a destruir qualquer réstia de amor.
João esperneou, chorou, gritou, pensou em desistir da viagem e mentalizou-se que nada mais havia a fazer. Engoliu em seco e aceitou a derrota. A obra mais bonita que construíra até então desmoronou-se. Mas a vida tinha de continuar e Nova Iorque esperava-o. 
O avião partiu e, lá em cima, João voou bem alto, bem perto dos seus sonhos.


(Uma história que, dependendo da vida de João e Lara, poderá ter continuação...)


sábado, 19 de abril de 2014

A Família: tudo o que somos (Um obrigado à minha)

Estamos na Páscoa, é Domingo e a mesa está cheia. Uma família perfeita, digo para mim mesmo enquanto observo à minha volta. Há conversas cruzadas, risos, piadas e uma contagiante confiança. Todos aqui se sentem confortáveis, genuínos, aceites e parte integrante de algo. A família é tudo isto que eu vejo. É este texto e tudo o resto que ficou do lado de fora, que os meus olhos vêem mas as palavras não alcançam. Não importa quantos se juntam à mesa, importa sim que, muitos ou poucos, consigam ser aquilo que são e não aquilo que devem ser.
Todas as famílias têm o mais rico e o mais pobre, o mais gordo e o mais magro, o mais esperto, o mais inteligente e aquele que não troca a preguiça por nada deste mundo. Mas para elas não há destrinça, todos se sentam à mesma mesa, bebem o mesmo vinho e comem o mesmo pão. Todos os familiares são iguais, um dos nossos, sangue do nosso sangue. Todas as famílias perderam elementos, pessoas, partes integrantes que a ajudaram a erguer e construir. Toda a família tem problemas, desavenças, preocupações e assuntos delicados. Faz parte da vida, faz parte da família e faz parte do Homem. E quando estamos à mesa, nós sabemos disso tudo, respeitamos as amarguras mas enfrentamos as adversidades juntos. Porque uma família é isso: união. Família é o remar para o mesmo lado. Numa verdadeira família, quando um está mal não estão todos mal, mas sim prontos a reerguerem um dos seus. Quando um chora, todos podem chorar, mas sentem o dever de sorrir e mostrar que a luz está lá, ainda que distante.
Uma família é uma instituição. Uma instituição que não precisa de grandes nomes, de morada ou número de identificação fiscal. Uma família precisa de pessoas que se amam, identificam e respeitam. Para existir uma família, basta que exista amor. Tudo o resto a família trata de construir e alcançar.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Hoje morro contigo, meu amor.

O dia mais triste da minha vida é este. Podem dizer que ainda tenho muitos dias para serem vividos e que é uma precipitação afirmar isso. Não, não é. Hoje é o dia mais triste da minha vida e já com eufemismo aplicado. Porque, para vos ser sincero, a minha vida acabou hoje.
Tenho setenta anos, sou reformado e casado há cinquenta. A vida nunca foi um mar de rosas, fui para a guerra, vi mortes, chorei agarrado a quem nunca conheci e vi o tombar do amigo que me protegia a retaguarda. Tudo isto em nome de um país que me ensinaram a honrar e de uma bandeira que me ensinaram a respeitar. Verdadeiramente, enfrentei o inferno por ti, para regressar aos teus braços. 
A vida pode dar visões do inferno, mas nunca nos prepara para morrer. Hoje tenho-te nos meus braços, amparada pelas minhas mãos, pálida e sem qualquer tipo de reacção. Custa-me imenso compreender este momento. Há quem lhe chame de "lei da vida". Eu chamo-lhe de tudo menos lei. E de vida é que a morte não tem nada. 
Olhando para trás, lembro-me de te ver com o teu grupo de amigas. Todas as manhãs iam lavar roupa à ribeira. As cestas transportavam o máximo de roupa que suportavam e o vosso cantarolar metia inveja aos pássaros de qualquer lugar do planeta. Nesse grupo havia uma rapariga ruiva, de cabelo aos caracóis e olhos verdes. A mais bonita de todas as moças que eu conheci. Não tardei em meter conversa contigo e rapidamente comecei a namorar-te à janela. Recordo-me daquelas loucuras típicas do nosso tempo: saías pela janela para o teu pai não saber e encontravas-te comigo no bailarico. Cortejava-te a noite toda, sempre com o maior respeito e trazia-te a casa, devagarinho, com as luzes do carro apagadas, para o teu pai não desconfiar. Que belos tempos de juventude. Parece que foi ontem! Agora, esta malta nova só quer discotecas, elas andam praticamente nuas e os rapazes acham-se o Rambo! É tudo uma pouca vergonha. Falta gente como deve ser para salvar este mundo.
Lembro-me de te dar o primeiro beijo no celeiro, do teu ar envergonhado e das tuas bochechas coradas. Melhor só a desculpa que inventaste: estava muito calor, quando chovia a potes. Estávamos em pleno Inverno, Rosa. Em pleno Inverno, minha flôr.
Nunca me esquecerei do momento em que pedi a tua mão ao teu pai. Prometi-lhe respeitar-te sempre e querer sempre o teu melhor. Fui mais longe e prometi proteger-te de todas as amarguras da vida. Eu tentei, Rosa, tu sabes que tentei. Talvez tenha falhado. Talvez estas lágrimas salgadas que agora engulo sejam o sabor da derrota. Prometi dar-te uma vida cheia de coisas boas e não a nossa modesta casa. Prometi levar-te a conhecer o mundo e nunca te consegui mostrar o real tamanho do nosso país. Ao menos o nosso país...nem isso! Prometi-te, no auge da nossa mocidade, que iríamos ser dois velhotes jeitosos, bem vestidos e com posses. Olha para nós, Rosa. Todos os dias vestíamos as roupas clássicas, os casacos de renda, as blusas às flores e o blazer velho, aos quadrados. O dinheiro da nossa reforma servia para os medicamentos, água, luz e gás. Metíamos de parte uns trocos para ajudar o nosso filho Manuel e o resto mal dava para as nossas simples refeições. Tenho pena de não te ter conseguido levar mais vezes ao restaurante, meu amor. E tu bem que merecias um daqueles banquetes como os dos Reis.
Só a alegria nunca faltou lá em casa. Tu conquistavas sempre tudo com o teu sorriso, com esse olhar meigo e irresistível.
Nunca esperei viver este dia. Sempre pensei ir primeiro, talvez por não saber lidar com a tua perda. O teu ser entranhou-se de tal maneira em mim que virou dependência. Não sei se consigo comer sem ter alguém com quem falar, encontrar os óculos para ler o jornal, ou sentar-me nos degraus da casa e não ter com quem dividir o sol e comentar as notícias. Foram mais de 50 anos contigo. Como podem pedir a este velho quezilento para se habituar ao que nunca foi? Nós nascemos para ficar juntos, vivemos uma vida juntos e morreremos juntos, Rosa. Hoje morro aqui contigo, meu amor. É tudo o que te posso dizer. Prometi nunca te abandonar e vou cumprir.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O meu melhor amigo é o meu amor

Estamos sentados no mesmo banco de jardim, lado a lado, como sempre estivemos ao longo dos anos. Eu sou aquele que entrou na escola primária e foi da tua turma. Sou aquele que te ouviu cantarolar as músicas dos desenhos animados, viu-te sem os teus dentes da frente e ainda se lembra do nome das tuas bonecas preferidas. Estava lá quando cresceste e tiveste a tua primeira negativa no teste de matemática. Choraste um pranto de lágrimas enquanto te abraçava e aconselhava calma. Partilhei contigo todo o ingénuo medo da reacção dos teus pais. Foi a mim que contaste, pela primeira vez, de quem gostavas. Lembro-me que ele era mais velho que nós um ano, já era amigo dos "grandes" e dominava o recreio. Era eu quem ia confrontá-lo com as célebres perguntas do sim ou não, com os papéis de namoro decorados com os quadradinhos do aceito ou rejeito, onde havia espaço para apenas uma cruz. Para não variar, fui contigo preencher os boletins de matrícula para a Faculdade. Também estive lá quando os teus relacionamentos acabaram e precisavas de desabafar. No fundo, sempre te limpei as lágrimas e só te dei sorrisos.
Passados tantos anos, somos nós os grandes, quem decidimos o que queremos e o que fazemos. O mundo girou vezes sem conta, a nossa vida deu-nos uma panóplia de caminhos a seguir, mas aqui estamos nós, lado a lado neste banco de jardim. Podia dizer-te que te conheço de cor. Sei o que pensas quando metes a boca para o lado direito e torces o nariz, sei quantas vezes seguidas pestanejas quando ficas nervosa e sei que tens um sinal de nascença na coxa direita. Se sei tudo acerca de ti? Prefiro pensar que não. Prefiro acreditar que ainda tenho muitos anos para te descobrir, para te desvendar e aproveitar. Claro, nunca descurando o que já sei. Mas o que realmente te quero dizer é que o banco de jardim está pequeno demais para nós dois e o jardim está murcho para todo este arco-íris que vejo no teu rosto. Para ser mais concreto, o meu peito é pequeno demais para todo este sentimento que venho guardando há tanto tempo. 
Observo-te enquanto vês a criança correr desajeitadamente atrás da bola. Sorris e dizes que adoras crianças. Eu sorrio mas nem vi o que se passava. Não tirava os olhos de ti e estava determinado em dizer-te tudo o que sinto. E se te perdesse? E se, de repente, deixasses de ser quem és e ficasses diferente? Tinha medo, tanto medo disso. Mas somos crescidos e já percebemos que a vida é feita de medos, de inseguranças e incertezas, onde só quem é audaz consegue remar contra a maré e chegar a águas calmas. Há muito tempo que navego em alto mar, enfrentando a tempestade do medo. Hoje está na hora de enfrentar o Adamastor e espero ancorar em porto seguro, ancorar em ti.
Pensei isto tudo enquanto olhavas para aquela criança. Deliravas com os movimentos desengonçados, com os risos da mãe e as macacadas do pai. Para te ser sincero e egoísta, eu só pensei em ti e em como era bom ter as tuas pernas ao meu colo. O reflexo da nossa intimidade.
- Juliana? Juliana, ouves-me? - peguntei-lhe na tentativa de a chamar da nuvem em que estava.
- Sim, Pedro. Desculpa. Diz...
Respirei fundo, tirei-te as pernas de cima de mim e meti o meu corpo alinhado com o teu. Beijei-te a testa como tantas vezes o fazia. Gostava de o fazer, mostrava protecção, carinho, respeito e admiração. Hoje representava algo mais. Podia ser, sem saberes, o último beijo. Tudo dependia de ti, da tua reacção. Estava por tudo. Tremia que nem vara verde!
- Ju, eu gosto de ti! - disse como quem não quer dizer. Quase necessitei de cantarolar para dizer de forma perceptível.
- Eu sei, Pedro! Também gosto muito de ti! - ela riu-se com o seu ar mais natural e feliz. Apertou-me o nariz e fez uma careta engraçada.
- Não estás a perceber Ju. Eu amo-te. O meu coração bate por ti. E não é de agora. Estou apaixonado por
ti desde o tempo em que não sabias ler, brincavas com as Barbies e vias "As Três Irmãs".
- Pedro...- respondeu enquanto franzia a testa e metia um ar...diferente. Pela primeira vez fiquei sem saber o que ela pensava ou qual o tom da sua resposta.
- Eu percebo se tu...
- Cala-te parvo! 
Veio até mim, meteu-me as mãos na face e beijou-me! Aquele beijo foi o mais saboroso que alguma vez provei. Sonhei com ele tantas vezes que parecia já o saber de cor. O meu coração parecia querer explodir.
Olhei-te nos olhos e sorri, o quadro da vida tinha sido pintado com cores frescas e o teu rosto era a tela valiosa que qualquer pintor desejaria ter.
- Também gosto muito de ti, Pedro! Desde muito cedo. Sempre pensei que um dia metesses a cruz num dos papéis que te mandava entregar - Disse com um sorriso contagiante.
Eu não sabia o que dizer. Beijei-a, beijei-a e voltei a beijar. Encaixei-a nos meus braços e fiquei ali a saborear o momento.
- Promete-me que não vais mudar - pediu a Juliana.
- Só se for para melhor - respondi de pronto.
Aquele abraço foi perfeito e durou uma vida. Ela fitava o horizonte, com o ar de quem era dona de toda a felicidade do mundo. Eu, na minha cabeça, ouvia Tribalistas. Afinal de contas, o meu melhor amigo é o meu amor.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O desejo de te escrever

Hoje acordei com o desejo de te escrever uma carta. Não quero o e-mail, a mensagem ou um mero telefonema. Quero escrever-te uma carta com tinta permanente, com palavras desenhadas pela minha mão, com a marca da minha caligrafia. Sei que um dia, ao leres a carta, vais olhá-la e reconhecer o remetente, ainda que eu não assine. O meu nome está na caligrafia e em todo o esforço que fiz para desenhar perfeitamente aquelas palavras. Nem sempre bonitas, diga-se. 
Mas não sou só caligrafia. Sou cada palavra que te escrevo, cada sentimento, cada sinónimo e interpretação. Se conseguisse escrever tudo o que sinto por ti, as minhas frases não tinham pontos finais, vírgulas ou interrogações. Parágrafos? Não conheço, não mudo de linhas quando o caminho da minha vida me leva a ti. Não há outro assunto para além de ti. 
Apetece-me escrever-te uma carta como deve ser, digna de ser uma carta. Não sei se estou preparado para tal, muito menos se o consigo fazer. Sei que vou tentar, irei escrever uma e outra vez, apagar outras tantas e, por muito que goste, achar que nunca demonstra tudo o que sinto e tudo o que mereces.
Sei que quando vires o envelope vais perguntar o porquê de ser uma carta. Em pleno século XXI, totalmente fora de moda, um meio de correspondência ultrapassado.Vais dizer que já ninguém namora assim e que só um doido é que ainda se lembrava de tal ideia. Ora, é precisamente esse o ponto de partida para tal. Sou doido por ti. Amo-te de tal maneira que não consigo encontrar igual nos amores de agora. Amo-te à antiga, na facilidade e na dificuldade, na saúde e na doença. O meu amor por ti é uma linha de tempo contínua, onde não faço nada mais do que viajar por todos os nossos momentos. Só um doido escreve uma carta nos dias de hoje. Só um doido tem coragem de fazer o que mais ninguém faz. E essa é uma das razões por que te escrevo. Para mim, o meu amor é incomparável ao dos demais, logo, não esperes de mim o que é normal em todos os outros. 
Um dia sonhei escrever uma carta para alguém especial. Uma carta verdadeira, com erros, frases mal construídas e pontuações deficitárias. Uma carta recheada de palavras cuspidas pelo coração. A carta que eu queria escrever não tinha de ser bonita, apenas sincera. A beleza e a perfeição moram em ti..
A carta que pretendia escrever está aqui, pronta a ser enviada, com a esperança de ser bem recebida. Quando a receberes, imagina que sou eu a entregá-la. Quando a leres, imagina que é a minha voz a lê-la e quando reagires, lembra-te onde estou. 

terça-feira, 15 de abril de 2014

O fim da viagem é o encontro dos amantes

Estava de coração partido, fechado para o amor e com a alma em manutenção. Todos os dias levantava-me com a sensação de quem já viveu tudo o que tinha para viver, com o pensamento de quem já tinha dado tudo o que havia para dar. Em cada manhã, ao levantar, dirigia-me à parede do meu quarto, ao lado da cama, onde estavam colados todos os momentos especiais da vida. Tinha prometido para mim mesmo rasgar, a cada dia, uma foto da Íris. Tal acto de fúria durava há uma semana. Ainda tinha mais umas quantas pela frente. No canto da parede estavam umas fotos mais pequenas, meio dobradas e engelhadas.  Reparei nelas pela antiguidade que apresentavam. Como era jovem naquelas fotos, quase sem barba, de t-shirts com bonecos estampados e mochila às costas. Finos traços de menino. Com elas vinham os meus amigos. Os meus amigos, que saudades...! E nelas vinhas tu. Eram fotos do tempo que te conheci, do tempo que partilhei contigo e do tempo em que fomos um só. Muito antes de grandes paixões, de amores platónicos, transcendentes e sérios. Muito antes de ter conhecido a mulher que ando, literalmente, a rasgar da minha vida. Éramos nós, do jeito que sempre fomos. Descontraídos, diferentes e sôfregos. Loucos por conhecer os lados do mundo e os seus prazeres mais recatados. O tempo da inocência e o calor da descoberta permaneciam no teu olhar.
Abanei a cabeça como quem pretende sacudir os pensamentos nostálgicos que pairavam sobre mim. Julguei-os perdidos. Afinal, talvez estivessem mal arrumados.Tirei a t-shirt e dirigi-me para o banho. Era tempo de voltar à realidade: rasgar uma das minhas fotos principais, aquelas do centro da parede. Em tempos a Íris pediu o papel principal, dei-lho e ela não o honrou. Fez cair o pano quando a peça ainda ia a meio. Era uma peça para a vida e ela não a soube interpretar. Por falar em pano, no melhor cai a nódoa, não é? Mas chega de Íris.
Rasguei a foto do dia, num dia estranho. Um dia nostálgico, deveras diferente. Recordava o passado, mas não ela. Retomava o passado e lembrava-me de ti. Como poderia explicar o facto de as tuas fotos ainda permanecerem no canto da parede? Como se não quisessem incomodar mas incomodando. Como se não quisessem conquistar, mas conquistando...Conhecendo como te conheci, é o teu estilo chapado! Talvez seja eu a pensar demais. O que lá vai, lá vai, idiota.
Saí de casa com a pressa do costume, uma mão para abrir a porta da rua, outra para vestir o casaco e a carcaça presa nos dentes. Uma figura ridícula que a velhota do rés do chão esquerdo não perdia por nada. A preguiça matinal era a minha inimiga diária. Olhava para o relógio e reparava que ainda tinha 10 minutos para tomar café. Entrei num pequeno estabelecimento perto de minha casa. Não era cliente, talvez fosse a segunda ou terceira vez que ali entrava e não me lembro de quando foi a última vez. Sem tempo a perder, pedi a "bica" e meti os olhos na capa do jornal que estava em cima da mesa. Sentei-me como quem não se quer acomodar. Uma nádega na cadeira e a outra fora, pronto para arrancar.
Pouco depois oiço uma melódica voz feminina sussurrar-me ao ouvido:
- Aqui tem o café que pediu - disse a rapariga enquanto poisava cuidadosamente a chávena.
Ao tirar os olhos do jornal, preparado para esboçar o sorriso de gratidão e o sempre educado obrigado, fitei o rosto da empregada. Congelei. Fiquei pálido, o sangue deixou de circular pelas minhas veias e, paradoxalmente, a taquicardia apoderou-se do meu peito. Eras tu. E estes são os momentos em que o silêncio conquista o que as palavras destroem.
Ela sorriu e piscou-me discretamente o olho. Pediu-me licença e virou-me as costas. Aposto que se ia a rir, enquanto caminhava confiante, de andar seguro, como quem desfila numa passerelle. Eras menina para isso e aposto que agora, adulta, serás mulher para muito mais. Eu acordei para a vida e fiz o que tinha de ser feito. Chamei-te:
-Rita?! Espera...- pedi, desesperado, enquanto me levantava apressadamente da mesa.
Não tinha o tempo que aquele encontro pedia nem tampouco tinhas o tempo que eu suplicava. Por isso achei que o melhor era dar-te o meu cartão do escritório, onde tinha o meu nome e número. O nome, que se lixe o nome! Já me conhecias, não importava o nome. O número seria a ponte entre os dois. O elo de ligação entre o (nosso) passado e o presente. De seguida, comecei a preparar-me para sair.
- Liga-me, Rita. Por favor. Não dês importância ao cartão, é a única maneira de estarmos juntos. Liga-me, para um café! - falava enquanto contornava os clientes e abandonava o estabelecimento. Sempre tentando manter o contacto visual contigo.
 Tu serpenteavas o meu cartão por entre os dedos e riste-te quando te falei em café. Percebi, mais tarde o porquê. Não cheguei a provar o meu. Mas para mim foi o melhor café dos últimos tempos. Despertou-me para o dia, despertou-me para a vida.
Aguardei 3 dias pelo teu telefonema. Em vão. O telemóvel nunca tocou, a caixa de mensagens desconhecia o teu paradeiro e o senhor do café disse-me apenas que tu não trabalhavas lá. Eras filha do dono e naquele dia foste dar uma ajuda, já que a empregada não podia ir. O destino prega-nos cada partida... Passaram-se 2 semanas de impaciência, de desespero e desolação.
Acordei com o meu bom humor matinal. Chamei todos os nomes que me vieram à cabeça à vida, ao despertador, ao sol que furava as persianas e a tudo mais que me lembrava. Olhei para a parede e preparei-me para rasgar a última fotografia da Íris. Fiz o que tinha a fazer pela última vez, com a mesma força do primeiro dia. De seguida o telemóvel vibra e dá um ligeiro zunido. Som de mensagem. Deve ser a operadora a exigir carregamento ou a anunciar uma nova campanha. Pensamento previsível.
Dirijo-me ao telemóvel e leio a mensagem. O dia nasceu naquele momento e o sol não parava de brilhar. Senti-me a acordar naquele instante. Um despertar para a vida, como já tinha vivido outrora. Respirei fundo, tentando controlar as emoções que sentia. Olhei para a parede do meu quarto e sorri. 
O destino tem destas coisas. Após tantos anos, só as tuas fotografias restam na parede dos momentos especiais. Lá estás tu, de volta ao palco da minha vida. De volta ao papel principal.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Viver a errar, porque errar é viver.

Quem nunca pensou nas asneiras que fez? Quem nunca se arrependeu do que fez, disse, calou ou escolheu? É um processo introspectivo, intrínseco ao ser humano, justificável pela quantidade absurda de decisões a tomar. De quem é a culpa dos erros? Da vida. Sim, leste bem. A culpa não é minha nem tua, não é de quem tem de tomar a decisão, de quem, numa curta fracção de segundos, tem de escolher o ramo a que se quer agarrar. A escolha não faculta o tempo necessário para perceber se aquele ramo é forte o suficiente para aguentar com o peso da nossa vida ou se, pelo contrário, não passa de um frágil galho que nos faz dar o maior dos tombos. A árvore da vida é matreira e, por melhor que a conheçamos, nunca chegaremos ao seu topo. A vida é uma trepada sem fim. Um tempo passado entre dúvidas e escolhas, entre quedas e recomeços. A vida é a culpada de tudo o que nos acontece. Uma árvore que nos faz perceber, ao cairmos, que o Homem foi feito para andar no chão.

E quando pensas que já cometeste todos os erros possíveis, enganas-te. Ainda há muito para viver.

domingo, 13 de abril de 2014

Vou partir. Se não for hoje, será amanhã.

Tudo começou num virar à esquerda. Entendi que o caminho ideal seria o da esquerda. Tu, teimosamente, afirmavas ser o da direita. O reflexo de tudo o que nos tornámos. Incompreensíveis, incompatíveis e intolerantes. Já não tínhamos paciência um para o outro, vivíamos individualmente a nossa vida de casal e o cansaço ocupou o espaço que até então pertencia ao amor. Se te enganei? Sim, enganei. Vivi tempo demais preso a algo que construí mas já não alimentava. Se me enganaste? Claro que me enganaste. Parecias ser o que já não eras. Davas-me a mão quando tudo o que pretendias era fugir de mim. Deitavas-te ao meu lado quando já não dormias comigo.
O nosso amor morreu e só restava uma erva daninha chamada de cobardia. Nenhum de nós tinha a coragem de partir, nenhum dos dois tinha a força suficiente para derrubar os enormes muros que construímos em amor. Os mesmos que agora nos separam.
Antes de ontem, ofendi-me quando reparaste na minha forma de estar, em pleno jantar de amigos. Ontem, procurei desculpar a zanga devido ao quem põe a mesa. Hoje, respiro fundo e ignoro a discussão pelo caminho certo. Talvez amanhã acorde com a coragem suficiente para escolher o rumo certo. E se não o fizer, por amor de Deus, fá-lo tu.
Amei-te do fundo do meu coração mas um dia terei de te deixar, para nosso bem.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

A simplicidade da vida

Ela sorria como se concentrasse toda a felicidade do mundo no seu rosto. Estupefacto, fixei-a intensamente sem ser capaz de descolar. O seu sorriso era tão brilhante que até o sol se escondia de tamanha vergonha. Ela era perfeita, ela era a luz do meu dia. Sem palavras, deixei-me ficar a olhá-la. Despreocupada, ela sorriu o dia todo.
Mais tarde perguntei-lhe se ela amava, mas amor de verdade. Ela agarrou-me pela mão, levou-me a ver as estrelas, mostrou-me o mar e todo o imenso areal que nos rodeava. A praia estava deserta, era noite cerrada e só a lua nos dava a luz que a água espelhava. Apertou-me a mão, levou-a ao seu peito e fez-me sentir o bater do seu coração. De seguida beijou-me, delicadamente, enquanto sorria. Não foi preciso beijar-me de língua, tampouco demoradamente. Não foi beijo de Hollywood, foi verdadeiro e sentido. Recebi a mensagem, ainda assim, necessitava de palavras para sossegar o coração.
- Estás a ver o meu sorriso? Também é teu. Olha à nossa volta, tudo o que vês é belo e não há nada mais para além de nós.
Eu olhei-a sem saber o que lhe dizer. Fiquei novamente sem palavras. Como o raio da mulher me deixa! Parece tudo simples e sereno, como se visse um outro lado do mundo. Resolvi fazer-me despercebido, com o intuito de ouvir mais:
- Como assim? - Perguntei com ar confuso.
- Amo viver, amo tudo o que me faz feliz. Passei todo o dia a rir, esquecendo-me de que na vida há algo para além de rir. Contigo a vida parece descomplicada, simples e bonita. Contigo sinto-me a viajar pela infância, onde tudo era alegria. E perante isto, para quê mais, quando me dás tudo?
Senti-me embasbacado. Podia dizer orgulhoso, sortudo ou realizado, mas a minha falta de postura corporal era tal que não a conseguia esconder. Aquele ser angelical acabou de me dar a maior declaração de amor sem cair na inevitabilidade do amo-te. Era perfeita, transformava a noite em dia, pincelava alegria até no quadro mais negro e eu era o idiota que vivia consumido de medos e perguntas estúpidas.
Ela levantou-se, sacudiu a areia dos seus calções curtos e estendeu as mãos para me auxiliar a levantar. Eu já não agia, reagia. Não sabia mais o que dizer ou fazer. Em pé, abraçou-me, mordeu-me o queixo e deu-me um amo-te em forma de sorriso.
Para mim, aquele amo-te teve a medida do meu dedo anelar.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A história de amor entre um povo loucamente apaixonado e um país que não dá valor ao que tem

Ela estudou, aprendeu tudo o que tinha de aprender e chegou a hora de colocar todos os seus conhecimentos em prática. Dentro dela viviam todos os sonhos do mundo e a vontade de dar tudo o que tinha. Porém, o seu pequeno país vivia em sentido oposto. Não havia vontade de dar nada e procurava somente tirar tudo o que os seus alcançavam. Há muito que Portugal tinha deixado de ser um país. Aquele quadradinho à beira mar plantado não passava de uma terra de recordações para os mais velhos e um cemitério de sonhos para os mais novos. Como a idade não esperava por melhores dias, ela fez as malas, levou o indispensável e partiu com todas as esperanças, receios e saudades. Não havia espaço para tamanha saudade, mas essa palavra é exclusiva de Portugal e França seria o destino.
Uma vez em França foi rápido encontrar trabalho, ajudar quem mais precisava e aproveitar para saborear a cultura daquele país tão diferente. Paris era pequeno demais para tantas emoções, mas grande demais para o tamanho do seu corpo. Ela perdia-se nas ruas, camuflava-se nos metros e a luz da cidade parecia nunca ser suficiente para a iluminar. Lá fora ela tinha dinheiro, emprego, experiências diferentes, mas não os seus. A sua casa, a sua família e as suas primeiras paixões não podiam ser substituídas. Costuma-se dizer que o nosso lar é onde nós estamos, mas ela nunca esteve verdadeiramente ali. No dia da partida, levou todos os sentimentos do mundo, menos o coração. Ela sabia que a família precisava de si e, acima de tudo, não seria ninguém sem a sua família. Posto isto, numa noite chuvosa de inverno, decidiu abrir a janela e subir até ao terraço. A chuva parecia ter acalmado com tamanho acto de loucura. Caía como se não quisesse molhar. Até a chuva estava indecisa.
No terraço ela sentou-se a admirar a paisagem. Era impressionante a quantidade de luzes que ainda iluminavam a cidade. De seguida meteu a mão no queixo e pensou no que estava ali a fazer, se tinha valido a pena todo aquele tempo e, acima de tudo, toda a privação de ser feliz. Se era isto que ela queria? Não. Ela não pedia muito, apenas o andar na rua e sentir as pessoas, conhecer os seus rostos e ter aquele aconchego bom a qualquer hora.
- Paris, podes bem ser a cidade do amor, mas nunca morrerei de amores por ti.
Por fim sorriu, de rosto molhado e alma lavada. Estava decidida a fazer as malas e regressar, estava decidida a voltar para os seus e lutar pelo seu futuro, sem tantas certezas ou oportunidades. Na realidade, ela nunca tinha abandonado Portugal.

Esta é uma de tantas histórias de amor, entre um povo loucamente apaixonado e um país que não dá valor ao que tem.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Os desenhos que nunca te mostrei

Crescemos juntos como a boa vizinhança ordena. Eras uma menina loira, irreverente, pouco dada a bonecas e amante de correrias. Eu era um menino de óculos redondos, destemido, apaixonado pela bola e pouco dado a bicicletas. Ficar em casa era um castigo e, nos dias de chuva, só a folha de papel e as canetas de feltro continham a minha ânsia de descobrir a rua. Tu eras a menina que ajudava a mãe a preparar aqueles bolos deliciosos, eu o rapaz que aprovava as doçarias e partilhava os seus desenhos. Não todos, porque havia sempre aquele que dava vergonha de partilhar, pois por mais que me esforçasse nunca saía tão belo quanto desejava. 
Os anos passaram e o destino quis que me separasse de ti. Mudei de casa e deixei de fazer parte do teu dia a dia. De presença constante passei a visita esporádica. A vida dava-nos a conhecer tanta coisa que nós nem nos apercebíamos do que ela tirava. Ainda assim, continuei a jogar futebol, a escrever os meus textos e a desenhar o que me vinha à cabeça. A vontade de desenhar já não era dependente do tempo, era cada vez maior, uma verdadeira paixão. Fui para a Faculdade e deixei de te ver, não soube nada mais acerca de ti e, incompreensivelmente não me importei. Apesar de tudo, nunca te esqueci. Falava do teu jeito de ser a todos os que me rodeavam e recordava as tuas brincadeiras com aqueles que te conheciam. Para mim, serias sempre a minha melhor amiga, a primeira grande amiga que estava sempre lá, numa altura em que não importavam as curvas do corpo, a beleza do rosto ou o estatuto social. Por ti eu metia-me à frente da bola e lutava com os mais velhos. contigo eu ria sem parar, corria até à exaustão e partilhava o pão com manteiga que a minha mãe arranjava. Sabia que fazias o mesmo por mim. Sabia que estavas sempre pronta a empurrar-me o baloiço quando não havia mais ninguém para fazê-lo e os meus pés não chegavam ao chão.
Hoje, passado tantos anos, disseram-me que estavas mal, presa a uma cama de hospital e a lutar pela vida. O coração ficou mais pequeno e à minha cabeça vieram as tuas lágrimas de criança. Senti que precisavas de mim como sempre precisaste e eu não podia perder novamente a minha menina, logo agora que podia ser de vez. Esperei noite dentro pela possibilidade de te ver. Entrei e vi-te com o teu ar doente, cansado e frágil. Senti borboletas cá dentro, uma sensação estranha. Parecia estar com quem me conhecia melhor e, simultaneamente, cruzar-me com a mulher da minha vida. Senti que continuavas a ser especial. 
Sentei-me ao teu lado enquanto dormias, presa a tubos, cercada de flores e máquinas. A tua respiração ofegante marcava o compasso para o irritante "bip" oriundo daquela maldita maquinaria. A minha mão cobriu a tua e os meus dedos entrelaçaram-se nos teus. Apertei-a com força e pedi-te com toda a alma que ficasses. Em lágrimas, supliquei-te para que fosses a mulher forte que eu conheci, para lutares pela vida e ganhares este jogo, como sempre ganhaste. Pedi a Deus que te ajudasse e jurei nunca mais te largar. Tu não podias desistir de viver, eu não podia perder a mulher da minha vida. Colei na parede os desenhos que nunca te mostrei. O teu rosto pintado a canetas de feltro, de linhas irregulares e assimétricas. Mas eras tu, como te via e imaginava: imperfeita aos olhos de todos mas o ser mais perfeito que alguma vez conheci. Voltei para a cadeira e rezei a noite inteira por ti.

Decorei o teu sorriso.

Lembro-me de te ver sentada naquela mesa rectangular. Haviam livros e mais livros naquela mesa. Comecei por ouvir uns risos discretos de quem cochicha entre si. Tu e as tuas amigas falavam de algo ao qual era alheio. Ou melhor, eu era alheio a tudo. Não percebia o que vinha nos vossos livros e não conhecia nenhuma rapariga ali sentada. Apenas a vossa colega com quem me dirigi à mesa. Depois da apresentação ao grupo, trocámos sorrisos meramente formais, cumprindo as regras de bom trato e boa educação. Mas o teu sorriso soou a música. O teu sorriso foi como se de uma brisa fresca se tratasse. Ao pé de ti, todos os rostos pareceram-me iguais e banais, dignos do esquecimento. O teu decorei-o, tornei-o memória. Ainda hoje imagino-o na minha cabeça. Desculpa não te ter pedido licença, desculpa a ousadia, mas guardei-o. Senti que algo tão belo não merecia ser esquecido no baú das memórias. Daí para a frente contei pelos dedos da mão as vezes que te vi. Nunca fui de puxar conversas, nunca fui namoradeiro e a timidez caminha de mão dada comigo. Apesar de tudo, durante algum tempo ainda ouvi a tua voz, em simples e breves conversas, as nossas conversas de ocasião. Eram engraçadas, cativantes como a tua personalidade e brilhantes como o teu sorriso. Sim, o teu sorriso, sempre ele. Não me sai da cabeça (não sei se já disse isso), desculpa...
Agora deixei de ouvir a tua voz e os meus olhos não te encontram. Ainda assim, todos os dias imagino-te, encho o peito de ar e ganho coragem para te falar. No minuto seguinte volto a imaginar-te, sinto o coração a saltar do peito e acobardo-me no recanto do meu silêncio. Não te tenho encontrado, foram poucas as vezes que tive o privilégio de me cruzar contigo, mas todos os dias te vejo com o meu olhar mais intenso: o olhar do coração.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Pára, escuta e olha

Pára, escuta e olha. A vida passa rápido e vivê-la intensamente nem sempre é viver da melhor maneira. O tempo tem corrido como um louco e nem dei por ele. Decidi pensar na vida, olhar-me ao espelho e ver quem sou, como estou e no que me tornei. Não me lembro quando fiz isto pela última vez e, muito honestamente, não consigo perceber o que mudou em mim... Sinto-me perdido no tempo e a correr contra o mesmo. Hoje senti a necessidade de pôr fim a uma vida de automatismos e ver o mundo girar à minha volta. No auge da minha sensatez, procurei não desperdiçar a oportunidade de pensar no que quero, corrigir os erros que teimava em cometer e traçar o rumo certo para a felicidade. Aqui estou, perdido nas minhas dúvidas, rodeado dos meus medos e longe dos meus desejos. Estou mergulhado em mim, cada vez mais distante dessa pessoa que julgara, inconscientemente, conhecer de olhos fechados. Tentei encontrar-me, essencialmente isso, encontrar-me! Mas sinto ter perdido o comboio do mundo que gira lá fora. 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Amo como um louco, perco como um fraco

Podia implorar-te para ficares, chorar baba e ranho pela tua volta ou fazer-te ver, vezes sem conta, tudo o que fomos e tudo o que estás disposta a deitar a perder. Contudo, da mesma forma como te amei loucamente, sem temer nada nem ninguém,  deixo-te partir, sem rastejar a teus pés, suplicando pena e gratidão. Sou louco por ti, enfrentei tudo por ti e nada mais fiz do que lutar por ti. Sabes disso, tão bem ou melhor que eu. Sempre jogaste com esse trunfo e aproveitaste-te da minha maior fragilidade - amar-te.
Hoje disseste que partirias de vez, mudaste as regras do jogo, o sentido da vida, e eu estou de tal maneira embrulhado na minha derrota que nem força tenho para te dizer "fica, não vás, por favor...". Quando se ama como um louco acaba-se por sofrer da doença como se não existisse cura. Talvez um dia recupere deste trambolhão e te veja rastejar e implorar para que volte, regresse e te aceite. Nesse dia sentirei o teu arrependimento, nunca o teu amor.

Quando um amo-te é pouco para tudo o que sinto.

Amo-te. É tudo o que tenho para dizer e tudo o que te sei dizer. Não me canso de pronunciar esta palavra tão pequena para tão grande sentimento. Tu chegas a casa, tiras o casaco e desapertas a gravata. Pousas a pasta e dás-me um beijo. Sei todos os teus movimentos, decoro todas as expressões.O meu coração sossega e sei que o dia começa à hora que tu chegas. É tão bom ter-te em casa, sentir o carinho que sempre tens para me dar. Sabe bem ser tua, sabe ainda melhor fazer-te meu. Um dia talvez consigam inventar outras palavras que se equiparem ao que sinto por ti. Até lá, terei de repetir este amo-te várias vezes, até ao limite do ridículo, até à exaustão. Sei que não me cansarei de o dizer e espero que não te canses de o ouvir. Adoro ver o teu sorriso pela manhã, ao meu lado, com aquele teu ar estremunhado. Mais tarde, após um dia cansativo, sabe ainda melhor receber-te nos meus braços, enquanto recuperas o fôlego do desgaste laboral. O sofá dá-nos o merecido descanso, a cama o perfeito deleito. Sou tua, desde a primeira vez que entraste em mim, desde a primeira vez que me tornaste tua. Meu amor, que o amar não acabe porque para mim ele escreve-se com o teu nome.

terça-feira, 1 de abril de 2014

O Amor tem de ser louco

Amo-te do único modo que sei: de corpo inteiro, de alma cheia. Não sei como podem dizer que existe outra concepção de amor, que há diferentes formas de amar e que o amor não tem de ser louco, completo e doente. Mentira, pura mentira e mera desculpa de quem nunca amou. Quem ama sente arrepios, sente frio, calor, transpira e treme. Quem ama sente o peito cheio e a voz trémula. Quando se ama sentimo-nos maiores do que o mundo, superiores a tudo o que nos rodeia e nunca ao alcance de quem amamos. Quando amamos só tememos a "menina dos nossos olhos" e as suas lágrimas são lâminas que penetram a nossa carne. Quem ama tem toda a coragem para enfrentar o mundo, mas treme quando ela fala. Se o amor pode ser diferente disto então não sei se quero amar, não sei se vale a pena falar em amor, sentir amor e amar alguém. Podem chamar-me doente, maluco ou exagerado, mas só sei amar assim e é assim que espero ser amado. A vida é a jaula que nos prende, o amor é a vontade de viver.