quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A única água que me mata a sede 
é a que escorre no teu rosto.
Chora, que venha um rio, mar, 
um oceano de dores salgadas. 
E cada dor, por mais profunda e sombria que seja, 
melhor me fará. 
Quero tomar o gosto das tuas desventuras
e saborear, gota a gota,
toda a angústia que expeles.
Alimenta-me.
Nesse triste lamento serei feliz.
Então chora,
e beberei, da tua face,
um resquício da minha dor.

Nada mais tens para me dar.

Ela

Há sempre alguém que te encontra e te faz reencontrar. Há sempre alguém que te devolve. Ela chega não sabes como e diz não sei bem o quê. A única certeza que tens é a de que te conquistou. Aí percebes que o vazio se foi, a dor adormeceu e o corpo volta a querer. É ela que te quer, que te deseja, por tudo o que encontrou em ti e que tu julgavas estar perdido. Por que é ela? Não sabes explicar, só sentir. O porquê de seres tu? Não percebes, ela não sabe justificar, apenas sentir. E o teu mundo, que parecia grande demais para ti, de repente, vira pequeno demais para os dois. Não importa o quanto tens de palmilhar até estares ao seu lado, nada será tão distante quanto o que tiveste de percorrer até encontrá-la. E assim voltas a confiar num coração, num rosto, num amor. É ela, quem diria que seria ela... Aconteceu, não sabes bem como, mas sabes porquê: É ela.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Por trás de um grande homem há sempre um grande amor

Por trás de um grande homem há sempre um grande amor. E engana-se quem pensa que um homem não ama nem tão pouco sabe amar. Ninguém ama como ele, ninguém se entrega como ele o faz. Em tempos, disseram-me que um dia, quando crescesse, iria provar o doce veneno de uma mulher. Iria saber como elas se movem entre o certo e o errado, entre o querer e o tolerar, o aceitar e o dispensar. Nunca me prometeram um amor feminino eterno, assolapado, recheado de loucuras cinematográficas. Os anos passaram e a vida ensinou-me: a mulher não ama assim. O seu amor tem prazo temporal, é medido e ponderado. Quando ela gosta é porque te aprovou num pensamento prévio calculado, recheado de escalas, comparações e equações. Se te deixa entrar no seu mundo é porque superaste o esquema dos prós e contras. Então, aí, serás bem-vindo, pé ante pé, cuidadosamente, sem grandes planos ou intenções. E, nesse projecto custoso e demorado, ela faz parecer que percorre um mundo por ti. Tu orgulhas-te e os teus olhos cintilam. Chegas mesmo a acreditar que ela move montanhas, ultrapassa oceanos e desventuras só para te ter ao lado. E aqui se vê a imensidão do amor de um homem. Ele ama a sério, fazendo o impossível ser possível com a maior das simplicidades, louco de amor e verdade. Ele não enfatiza o que faz, apenas o que sente. E ela nem liga, afinal de contas, para merecê-la tem mesmo de saltar muralhas, derrotar exércitos e conquistar o lugar mais importante do mundo: o seu coração. E como idiota ele é, quando acredita que ela enfrentou o mundo para estar ao seu lado, quando tudo o que fez foi dar dois passos e convencê-lo de que podia ter ido por qualquer outro caminho, mas está ali. Ainda que nada tenha custado, irá mostrar-lhe que ultrapassou tempestades por cada momento a dois. Certo e sabido, mas ainda assim ele acredita. E o homem, com todo o amor do mundo para lhe entregar, ali fica, pintando-lhe traços diferenciadores das demais, achando-a a mulher perfeita para proteger durante uma vida. Enquanto isso, ela concede-lhe mais um dia. Um dia de cada vez. 
E assim se ama. O homem ama porque a mulher quer, é porque ela concorda que ele seja, e está lá enquanto ela o permitir. O amor de um homem é desmedido, o dela é moderado. No fim, o amor acaba. Ele destroça-se, ela renasce...

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Semana após semana

E se no domingo a bola entra
a festa é rija e o povo dança,
esquece-se a agonia que vem na segunda
porque ao domingo é só lembrança...

Mas a segunda veio e a vida volta,
ele é um ser desanimado
e usa a velha gravata solta
num pescoço apertado

E a quinta traz aquela esperança
perdida na terça, que a quarta duvidou,
só na sexta a alma descansa,
amanhã é sábado e... já passou...

Então vem o domingo e a bola não entra,
na segunda ele não existe,
na terça encara e tenta
mas ainda é quarta, então desiste.

E se ao menos quinta já fosse sexta,
se a seguir ao domingo não fosse segunda...
perdido em mais uma hora extra,
leva um valente pontapé na bunda.

E se hoje não fosse segunda...

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Jurei não voltar a pôr as peças no tabuleiro da vida. Pelo menos da mesma maneira que joguei. Prometi ser cauteloso, sem grandes avanços, somente ligeiros recuos. Pensei que se me quisessem teriam de atacar, vir com tudo, sem medo de perder o que ainda não tinham ganho. Eu já não pensava em ganhar, apenas não voltar a perder. E para perder basta um instante, enquanto que ganhar é uma contínua luta sem fim.
Então chegaste, sem demonstrar os medos que qualquer um sente. Sem te afectares pelos nervos que te consomem. Jogaste sem medos, de forma directa e eficaz. Percebi com clareza o intuito de cada jogada - a tua simplicidade tem essa vantagem. Quando dei por mim, estava a avançar, também sem medos, sem pensar no desfasamento existente entre o que fazia e o que tinha planeado. Estava destinado a encontrar-te a meio, um 50-50, equilíbrio perfeito. Então joguei como já tinha jogado, com o coração e uma louca vontade de (te) ganhar.

Quando jogares, almeja a vitória, pois ninguém gosta de perder.

E se não pensares assim, não venhas, não metas as peças no tabuleiro da minha vida.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Sentidos.

Quero-te. E quem te chama não sou eu, quem fala é o corpo que me move na ânsia de te encontrar. Desejo-te. A minha pele arrepia-se quando penso em ti, quando imagino o teu toque, o teu beijo, a tua voz. Oiço-te, de manhã à noite, mesmo quando tudo aparenta ser silêncio. Adoro a tua voz e o jeito de dizeres o meu nome, tudo mais é ruído. E quando fecho os olhos, mergulhado nesse desejo louco de te ter, sinto o teu sabor, de cada bocado teu, de cada pedaço que faço meu. Agora que a almofada já não tem o teu cheiro, sinto a falta que me fazes. Tu estás cada vez mais longe, mas o coração, esse, nunca arrefeceu.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Hoje escrevo porque estou feliz:

sinto a chuva, o frio e o cinzento
vejo o triste dia bater-me à porta,
é a saudade, a dor e o lamento.

Então deixo entrar as memórias que me restam
dar-me a conhecer do jeito que sou,
guardo apenas as que não prestam,
as boas já as vivi e o vento levou.

E sinto-me feliz hoje, não sei se sabem,

porque cheira a mágoa, solidão e chora o céu
sinto saudade do que não tenho,
imagino aquela mulher, as juras e um véu...

E o sofrimento de um amor despedaçado
é representado em noites e temporais
eu escrevo feliz e despreocupado,
gosto de sofrimento, chuva, dor e nunca mais...

Hoje escrevo dono da felicidade, 
o meu choro inundou a rua.
Mas que prazer me deu chorá-lo
porque essa rua também é a tua.


domingo, 12 de outubro de 2014

Como dói viver

O tempo ajudou-a a crescer, mas sempre tinha ficado aquela espinha na garganta... Foi numa comum e preguiçosa manhã de segunda-feira que Liliana se deparou com Miguel, no mesmo espaço, no mesmo campo de visão, tanto tempo depois. E tanto tinha ficado por dizer...

Ela encarou-o sem falar. Naquele preciso momento a mesa virou pequena demais para tanto rancor. Ele espetou as costas no apoio da cadeira, não podia recuar mais. Ela meteu as duas palmas das mãos na mesa - em jeito firme. O seu olhar era o mesmo de sempre, fulminante. 
- Porque me fizeste isto, Miguel? Porque desististe de mim depois de tanto esforço para me ganhares? Porque me levantaste da lama para, de seguida, me esfregares a cara na mesma poça de lixo em que rastejava? - as suas pupilas dilataram e o esforço para não verter qualquer lágrima era imenso. O discurso metia pena mas o seu rosto não. Miguel sentiu medo daquele enfrentar. Afinal, ele estava habituado a largar e desaparecer.
- Calma, Liliana....
- Calma o caraças, Miguel! Cresce, vira homenzinho! Assume a merda que fazes e não te escondas.
- Tens razão, desculpa - dizia Miguel, ligeiramente incomodado. Talvez pedisse perdão apenas para se safar da situação de aperto, para acabar com o embaraço que Liliana criava. Um Café inteiro focava-se naqueles dois e ele era cada vez mais o idiota.
- Não me peças desculpa, não preciso de te perdoar para seguires em frente. Apenas eu precisava de algo para seguir em frente. E esse algo já tive, os teus ouvidos, ainda que moucos. Por muito que queiras, estas palavras não te serão indiferentes. Agora, logo à noite ou noutro dia qualquer, quando a tua vida estiver na merda e sem sentido, lembrar-te-às de todo o sofrimento que deste a quem não mereceu. Logo alguém que sempre deu tudo por ti...
- Sim....
- Sim nada, meu anormal. Não te metas mais comigo e vê a merda que fazes. Um idiota será sempre um idiota.... - e de seguida derramou o café na camisa de Miguel - a camisa que durante tanto tempo ela lavou e passou. Nisto, a cadeira arrastou-se e provocou um barulho irritante e incomodativo.
Quebrado o silêncio, Liliana fez música com os seus saltos altos. Era a sua saída triunfal e, por breves momentos, sentiu-se dona do mundo, do destino, do homem estúpido e anormal que amou e do seu coração. Aquela era a sua pequena vitória, aquele o triste palco da sua vida. Miguel permaneceu imóvel, vendo-a sair pela janela do Café. "Merda, como fui eu perder-te, Liliana? És fogo..."
Liliana virou a esquina e sentou-se no chão que todos os dias pisava. Tirou os sapatos altos e chorou, chorou até perceber que um novo dia traria uma nova vida. "Merda, como dói viver!"

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

(re)começar a viver

Para quem não leu a 1ª parte:   A dor de viver

A vida tinha mudado desde que Miguel saiu de cena. Enquanto mulher moderna, esbelta, senhora do seu nariz e dona dos seus objectivos, Liliana nunca se imaginou na sombra de homem algum. Mas a vida tinha perdido cor desde que ele ficou para trás. O Verão tinha sumido e o Outono trazia dias frios, tristes e chuvosos. E como é frio o sofá agora que ele lá não está, como vira aborrecida aquela série até então viciante e os filmes de domingo à tarde não são mais do que tortura. Uma cama grande é inútil e se não fosse a botija de água quente, os pés seriam da temperatura do seu coração. Dentro das paredes da sua casa, Lili não se privava em demonstrar o que sentia. Chorava sempre que lhe apetecia, quando não queria e quando queria também. Os lenços eram marcas habitacionais um pouco por cada divisão e um gato pequeno e frágil foi a escolha para evitar a solidão. Mas a melhor forma de superar o trauma foi mesmo a pintura, E a sua primeira pintura foi simples, crua, reveladora da realidade que os nossos olhos não vêem: pintou-se nua, frente ao espelho. E quando o tecido caiu ela viu-se como realmente é: branca, de uma tonalidade tão clara que lembra o frio do leste. Os seus seios redondos e volumosos dão simetria a uma silhueta cuidada. O sinal que tem debaixo dum seio não foi esquecido, muito menos a sua cicatriz. Era parte dela, da sua história, do seu passado. E desenhou as suas pernas elegantes cobertas por meias de renda pretas, como vestia - a única parte do seu corpo com roupa.
Após o desenho sentiu-se bonita, mas rapidamente notou a ausência de algo. Pegou na tinta vermelha, ainda fresca, e pincelou o seu peito. Era o sangue que escorria por dentro, que ninguém via mas que a fazia contorcer-se em dor. Era a ferida que não podia esconder ou esquecer. Era o erro que alguém cometeu e o qual só pode "aceitar". Agora sim, sentia-se perfeitamente natural. Se se achava bonita? Sim, no fundo era bonita, com o seu cabelo escuro e olhos pretos, o seu ar moreno e sedutor. Mas sabia que tinha cicatrizes para a vida que lhe mostravam o quão feia e errante foi. E como era possível ter tanto azar com os homens? Ela não sabia escolhê-los e, desiludida, jurava não escolher mais nenhum. Não tinha olho para isso, definitivamente não sabia analisar um homem. Levou o seu retrato para o quarto e pendurou a tela na parede. Queria acordar com a sua imagem. Não tinha melhor maneira de acordar do que saber quem era, o que era e como era. E ela era aquilo, tudo aquilo, sem tirar nem pôr. Tudo o que um homem não merece ter, por não saber cuidar.
Mais tarde seguiram-se as roupas. As aguarelas cederam perante o lápis de carvão e os traços finos. Nasceram fatos, vestidos, calças e tops daquela imaginação. Até vestidos de noiva chegou a desenhar. De cor escura, como o momento que sentia, claro. E no meio da desgraça da vida, descobriu a sua paixão: Desenhar roupa, vestir gente. "Como a vida é engraçada... Temos de perder o que gostamos para descobrir o que amamos". E cada desenho era um raio de luz, uma gota de esperança no mar da vida de Liliana. E foi num brusco pousar de lápis que ela afirmou intempestivamente: "Vou ser designer de moda, esta é a minha paixão!". E correu para a Internet em busca de cursos, especialização, livros e trabalho. Não lhe faltava vontade nem determinação - era mulher de mangas arregaçadas e dentes cerrados - e tudo o que queria era uma oportunidade para mostrar o seu potencial. Depois, com o tempo e a experiência, chegaria a perfeição, a qualidade e o reconhecimento. Caso contrário, viveria um sonho, um devaneio, uma loucura, um mero capricho... Simplesmente viveria conforme bem lhe apetecia. E talvez seja aquele viver desprendido a melhor forma de ser feliz.

sábado, 4 de outubro de 2014

A dor de viver

Liliana saiu mais cedo da loja, naquela tarde. Adorava roupa, vestidos, conjugações arrojadas e moda, mas a experiência de dona de casa mostrava-lhe que havia um lado negro por trás de todos os sonhos: lavar, estender e passar a ferro eram tarefas árduas das quais não podia escapar. Talvez um dia, mais tarde, quando tivesse vida estável, pudesse ter uma empregada. Mas não perdia muito tempo a pensar nisso. Era sexta-feira e o seu namorado de longa data tinha-lhe prometido jantar fora. Em contrapartida, ela levaria a roupa dos dois para lavar, como costume. E como ela gostava de ver as máquinas lavarem e torcerem as suas roupas. O mesmo esforço, o mesmo cheiro, a mesma frescura. Eles eram perfeitos e foram feitos para ficar juntos, duas peças do mesmo cesto. 
Uma vez chegada a casa, preparou-se para ir buscar a roupa suja:
- "Estranho, o cesto tem menos volume. Falta roupa!" - exclamou admirada pela situação. Ela saiu de manhã de casa, depois de Miguel - o seu namorado - e a esta hora ele estará preso ao seu escritório, rodando a sua cadeira e fazendo contas aos clientes, na sua seguradora. Já lhe conhecia a rotina de tantos anos. 
E foi naquela sensação estranha e tão feminina que  Liliana avançou pelo corredor, até ao quarto. Lá dentro, Miguel batia o mais baixo possível com as portas do roupeiro, ensacava roupa e enchia atabalhoadamente as suas malas. Duas malas e tanta pressa não eram sinónimos de coisa boa, muito menos uma tentativa frustrada de silenciar a culpa de tais actos. Ela pensou confrontá-lo ali, naquele momento. Depois, percebendo que passava despercebida, resolveu pegar nas chaves do carro e sair. Esperava-o lá em baixo, como um mero acaso à porta de casa. Talvez ele lhe dissesse que tinha de ir em viagem de negócios, que tinha de ir a casa ver a mãe que estava doente ou que os amigos o convidaram para uma noite de diversão, à qual já estivesse comprometido. Depois, ligaria e confirmava a história. No dia seguinte, voltava e estava ali, naquela casa, apaixonado como sempre esteve. "Os filmes que uma mulher faz", pensava Lili, tentando relaxar. Mas, aquela dor era estranha e doía tanto no peito... Desceu e esperou no carro. Pouco depois ele também desceu - sem gravata e dois botões da camisa desapertados - com uma mala cheia em cada mão e um constante abanar de cabeça. Ora esquerda, ora direita. Temia ver alguém, temia ser visto. Percebendo-o - afinal de contas namoravam há 7 anos, desde os 20 - Lili inclinou-se para trás, no banco do seu carro e seguiu-o com um olhar raso ao tabelier. "O que estaria aquele sacana a planear?" Logo hoje que iriam jantar fora com os pais de ambos.... Logo este fim de semana, em que havia o churrasco em casa do Tio Carlos.... Ele chamou um táxi e entrou. Ela voltou a sentar-se e arrancou. Seguiu-o, até perceber que o aeroporto era o destino. Ele pagou, tirou o casaco, pegou nas malas e caminhou acelerado. Ela, confrontada com a surpresa, vendo o impossível virar realidade, puxou o travão de mão no meio da merenda e ali deixou ficar a sua viatura. "Que se lixe! Resolve isto primeiro, mulher! Não tens tempo a perder". Tirou os sapatos e correu atrás dele, para não o perder de vista. Nas escadas rolantes esperava-o uma mulher elegante, bem vestida, bem parecida. Uma mulher de espanto. Liliana gelou e sentiu o corpo arrefecer a um ritmo tal que pensou não aguentar. O choque térmico ia matá-la, ou seria Miguel com aquela atitude irreflectida e louca? E eis que eles se beijaram. As chaves do carro caíram, o coração caiu, a felicidade ruiu e a vida pareceu desmoronar-se naquele momento. Ele e aquela... O seu Miguel e outra. Aquilo deu-lhe náuseas, ficou doente, a morrer, prestes a perder o gosto pela vida. Queria falar mas falar para quê? Apenas chorou. De repente, enquanto se recompunha das lágrimas salgadas que vertia, gritou com toda a força do seu coração:
- Miguel? Miguel? O que se passa? - A pergunta foi tão profunda que todo o aeroporto ouviu a sua alma.
Ele olhou para trás e... também ele parou. "O que fazes aqui, Liliana? Merda...". Olhou-a com o ar mais penoso do mundo - a descartabilidade é muito mais do que uma palavra.
- Desculpa Liliana, desculpa... - e as escadas rolantes levavam-no para zona interdita, para acesso restrito, para longe dela.
Liliana gritou um "não" sofrido até perdê-lo de vista. Tiravam-lhe o ar dos pulmões, o chão dos pés e o coração do peito. Como é possível viver assim, depois de tudo isto? Chorou até perceber que só podia virar costas e entrar no carro. E foi o que fez. Entrou, sentou-se e chorou. Ligou o rádio e ouviu "To give" dos silence 4. Voltou a chorar a cada palavra. Ouvir música não ajudava, mas sabia bem apertar a ferida... "Que vais fazer à tua vida? Merda para os homens! Uns traidores, uns canalhas! Merda de mundo em que já não se pode confiar em ninguém!".  Limpou as lágrimas apressadas e preparou-se para conduzir. Nisto, viu o bilhete amarelo preso à escova do veículo. "Uma multa! Merda! Só faltava mais isto!" Saiu do carro e tirou o papel. Pontapeou o pára choques e voltou a entrar. Mordeu o lábio de toda a dor que sentiu no pé direito. Mas que se lixe a dor física, ela morria a cada bocadinho daquele dia. 
Uma vez chegada a casa, dirigiu-se a tudo o que era dele e a lembrasse que o canalha alguma vez existiu. Pontapeou, rasgou, cortou, partiu e amassou. Queria matá-lo, se pudesse. Queria esventrá-lo, cosê-lo, voltar a esventrá-lo e deixá-lo ali, ao abandono, agoniado na sua dor. Depois pensava nele - o Miguel, o seu príncipe encantado, o homem que lhe mostrou que a vida era perfeita - e apenas lhe pedia para voltar, para ser o que era e nada mais mudava, nada mais importava.  Naquele momento de fraqueza, Liliana levanta a blusa e passa a mão pela cicatriz que tinha no lado direito da sua barriga. Um dia, um anormal que ela julgou um príncipe encantado, tentou matá-la, esfaqueando-a, tirando-lhe qualquer confiança na vida. Ficou mergulhada em sangue e vergonha. Mais tarde, um rapaz sereno, responsável e encantador, prometeu-lhe nunca a ferir, nunca a marcar. Em troca, tudo o que ela tinha de dar era confiança e acreditar que ele a faria feliz, para sempre! "Idiota, anormal! Um bom Filho da Puta... mais um!". Chorou, soluçou, pensou arrancar cabelos, cortar pulsos e talvez meter fim à vida. Depois ponderou vê-lo uma última vez. Nisto, passou a mão por baixo da camisola, até ao coração. Sentiu a ferida que hoje ele lhe fez, a maior facada que alguma vez levou. Decidiu não ser fraca, afinal de contas, para fraco já bastava ele - e os dois não poderiam acabar assim. Ela era forte e lutadora. merecedora de um lugar no mundo cão em que vivemos. "Luta miúda, estás na lama outra vez, mas agora não precisas de ninguém para te ergueres. Chega de merda! Cara lavada!". Queimou-lhe as fotos e telefonou aos pais. Foi menina protegida durante o fim de semana e a dor de viver foi transformada em determinação. "Uma mulher não desiste, conquista". E a coragem nascia a cada novo dia, escondendo a desilusão.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

E tu vais vivendo,
vencendo,
lutando,
caindo,
procurando e conseguindo.

Depois vais-te apercebendo
que o mundo é grande e tu pequeno,
que o sol nasce e vai descendo
e que o tempo passa e vais perdendo
o tempo que já passou.

Então pensas se vale a pena o sacrifício,
a luta, a batalha e a guerra,
o sangue, a perda e a raiva
que depositas no teu viver.

No fim, percebes que tudo muda,
tudo vai e tudo cura,
o tempo ajuda a viver e a esquecer.

Mas o tempo foi-se nessa amargura,
nessa cólera da desventura,
no querer não sofrer.

E o tempo já foi, já não volta,
esse "tudo", agora, não mais importa
e perdeste-o sem saber.

Então concentras-te no desfrutar sem limites,
no querer e nos despiques,
de uma enorme vontade de viver.

E, concluindo, sentas-te e percebes,
és forte e fraco, não o negues,
és bom e mau, mas prossegues,..

porque és humano, nada mais.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Difícil é dar a mão e entrelaçar os dedos

A aceitação passa pelo momento em que as tuas mãos encaixam nas dela. É fácil caminhar ao lado de alguém, dividir o sol com outrem ou falar das notícias com qualquer um que partilhe uma direcção. Difícil mesmo é dividir um caminho, seja ele curto ou comprido. Os caminhos são sempre sinuosos, íngremes e estreitos. Difícil é dares a mão e entrelaçares os dedos. Complicado mesmo é encarares o caminho e nunca largares aquela mão, aquele corpo, aquela pessoa. Quando te desviares dos obstáculos, moves 2 corpos e quando quiseres optar por uma alternativa direccional, pensas a dois tempos, também em 2 corpos. Ao dares a mão abraças o desafio e libertas o egoísmo. Nunca deixas de ser tu e ela, nunca serás "um só". Aprende, serás sempre um "nós", nunca um só. Quando ela te conduzir para o caminho errado, tu pararás, olharás para trás e verás o percurso que fizeram. Escorrerás suor, não porque estás cansado da companhia, apenas por tudo o que lutaram. De seguida, beberás um pouco de amor do rosto dela e explicar-lhe-ás o caminho certo. Podem não estar de acordo ao início, mas no fim saberão qual o caminho a enfrentar, juntos. E quando estiveres errado, perdido e sem noção do que te espera, ela estará lá, com todos os medos do mundo guardados no seu pequeno peito e uma alma gigante que te puxa. E tu verás a fibra da mulher que te agarra com toda a força que a sua frágil mão não tem. Sentirás o orgulho de a teres e percebes que se não fosse tão difícil, aquele caminho não era para ti - talvez ela procurasse uma mão menor, menos forte e protectora. E é no equilíbrio que se sente a força, o balanço que dá a postura correcta e o caminho certo. De repente, apertas-lhe a pequena mão com ligeira força e verás a reacção de prazer-dor, cansaço-conforto. Ela mostrará momentaneamente, mas tu sentirás. E em tal gesto, tu não queres magoar nem mostrar que és mais forte, apenas dizer que estás lá, para ficar, com todo o orgulho por a teres ao lado. Que toda a força que tens também é dela. E ela sorrirá no conforto do encaixe. Olhar-te-á com a convicção de que és tu a companhia certa, a escolha exacta. E tu, rapaz, protege, cuida, troca a mão pelo colo, o colo pelas cavalitas ou pára a meio se ela não puder mais. Mas fica, lado a lado, sem abandonar, sem fugir, sem assumires o caminho por ti, sozinho. No fim, verás a dimensão da vitória quando é a dois. Afinal de contas, caminhar faz bem ao coração.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Os seus lábios eram letras

Ele olhava-a com saudade, ainda antes de a deixar ir. Procurava não mostrar o suor das suas mãos, o quente do seu coração ou o tremor da sua voz. Ela ali estava, imóvel e em bicos dos pés, à espera do carinho, tentando chegar ao beijo que ele procurava não banalizar. Aconchegou-a no abraço e beijaram-se. Os seus lábios eram letras, palavras, textos e sentimento. "Quero-te para mim, bem perto, no meu coração. Gosto de ti, de estar contigo e de ser o que somos, lado a lado. Volta, tens em mim o espaço que necessitas para ser feliz." Ela nada lhe disse, mas continuou a ler-lhe os textos, de olhos fechados, com os seus doces lábios colados aos dele.

domingo, 14 de setembro de 2014

Por mais...

Por mais que lave a face, tu não sais. Vejo-te naquele espelho que me reflecte e cheiro-te no meu perfume. Por mais que teime em viver, ainda me prendes nas tuas memórias, nas minhas recordações. Se tu fores eu sei que lá estarei, porque fazes parte de mim e eu sou teu. E por mais que eu tire o coração do meu peito, tu bates fora de mim.

domingo, 7 de setembro de 2014

Talvez sejamos amor

Um dia trocaste os abraços pelas palavras, o aconchego pela libertação. "Solta o monstro que vive em ti, grita, dança à chuva, ralha com os Deuses. Liberta-te". Limitaste-te a abrir-me a janela do terraço e a indicar-me o caminho. Deixaste-me a sós com toda a minha ira e respeitaste o momento que me deste. Achei-te verdadeiramente estranha, de uma maluquice sem fim. Mal eu sabia que eras tu a dona da razão. Subi as escadas exteriores e fiquei naquele terraço. Eu, a chuva, o frio e o céu escuro, carregado de raiva - a mesma que eu guardava nos meus pulmões. Comecei por gritar timidamente, com medo da resposta do céu imenso. Acompanhei a chuva com a cólera de uma vida, com a vontade de pedir as explicações que nunca ouvirei. Gritei, falei, pedi e exigi. A chuva apoderou-se do meu corpo e tornou-me pesado. Cai de joelhos no chão imundo e chorei. Ergui a cabeça e aquela chuva lavou-me. Baptizei a alma naquele momento. Estava leve, sem os demónios que alimentava diariamente. Levantei-me e desci as escadas. Entrei e lá estavas tu, à minha espera, serena, sentada na cadeira, de costas para a janela. Bebias um chocolate quente, sentia o aroma doce. "Toma, tens aqui o teu", tudo o que tinhas para me dizer. Olhei-te de alma vazia e corpo gelado. Agarrei a caneca e bebi. Permaneci ao teu lado sem saber o que dizer. Deste-me um sorriso no intervalo de um gole e perguntaste-me se me sentia melhor. Disse que sim, com todo o meu alívio interior. Voltaste a sorrir e deste-me a mão. Agarrei-a e senti o teu quente. Pela primeira vez senti o quente que jurei eterno. Talvez sejamos mais do que desejo, sexo ou prazer. Talvez sejamos amor.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Ao frio

"Não me esqueças", gritei todas as noites, deitado numa cama fria por não te ter. Os pés gelados contrastavam com o meu coração, ainda a viver do teu calor, da recordação que dispunha e que recusava perder. Enquanto te lembrasses de mim eu sabia que o calor manter-me-ia vivo, capaz de sonhar. Os dias e as noites foram passando, sem sinal de ti, apenas recordação. O teu rosto, de traços baços e indefinidos, ainda continuava a ser o mais bonito, aquele que eu via em todas as caras de qualquer rua. Mas as noites vieram, foram-se e a cama continuou fria. Os pés, as mãos e o coração arrefeceram pouco a pouco, cada vez mais. Já não podia correr atrás de ti, o frio que deixaste não o permitia. Os dedos não mais estavam aptos a tocar-te e o coração que não vê começa a deixar de sentir... O teu rosto ficou abstracto e a tua lembrança começou a ser residual. O tempo passou e a cama estava fria demais para poder receber calor. Não mais terias lugar em mim. Esqueci-te, enquanto esperei ao frio, tentando pedir-te calor.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Ela deixou saudade

Hoje era dia de ela ir - temporariamente, mas ia. Ele, habituado àquela fonte inesgotável de companhia, sentiu-se só. Parecia ridículo sentir-se só por ela, ela que tinha acabado de entrar na sua vida. Mas ele sentia a iminência da sua ausência e isso custava-lhe, sem saber como ou porquê. "Leva-me contigo, arranja espaço para mim. Um cantinho que nos torne presente", pensava ele para si próprio, gritando com a voz interior que ela não ouvia. Ela estava longe, sim, mas cada vez mais perto. E pela segunda vez deixou saudade...

domingo, 17 de agosto de 2014

Sinto-me longe

Estás longe, mesmo aqui tão perto. Toco-te mas não te sinto, falo-te mas não te quero ouvir. O teu silêncio faz-me perceber que saberei viver sem ti e a tua presença constrange-me. Estou longe, bem longe de ti. O meu caminho é contrário ao teu e tu não passas de uma proibição que teimo ver como prioridade. Por favor, desiste, permite-me conquistar a vida que me falta. Nós virámos distância.
A chamada desligou-se e nada mais foi dito. Pela primeira vez ela achava que a distância iria fazer bem, dando verdadeiramente a conhecer as intenções e os sentimentos. Se não se contivesse iria dizer-lhe que não queria mais por causa do medo, do amanhã e da dor que podia trazer. Mas, por outro lado, a seguir iria pedir-lhe perdão e implorar-lhe, de joelhos, por um regresso, por uma luta a dois. As lágrimas escorriam pela face, abundantemente e aos pares, em simultâneo. Uma escorria porque temia, a outra escorria porque não queria ficar por aqui.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Virámos distância

Estás longe, mesmo aqui tão perto. Toco-te mas já não te sinto, falo-te mas não te quero ouvir. O teu silêncio faz-me perceber que saberei viver sem ti e a tua presença constrange-me. Estou longe, bem longe de ti. O meu caminho é contrário ao teu e tu não passas de uma proibição que teimo ver como prioridade. Por favor, desiste, permite-me conquistar a vida que me falta. Nós virámos distância.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Aprender a amar

"O beijo perfeito ainda vivia nos lábios de Dhora. Podiam passar semanas, meses ou anos, mas a pequena obra de arte chamada de amor estava lá, digna de ser elogiada.Todas as noites Dhora olhava um céu mais ou menos estrelado e dançava com a obra de arte que trazia no seu peito. Amar é a primeira maravilha do mundo e quem disser o contrário é porque nunca conseguiu observar o amor, sentir aquela mistura de sentimentos devastadores capazes de dar a conhecer a instabilidade emocional de um coração. Amar é dar tudo e achar que o tudo é nada. Amar é buscar a perfeição dentro de um peito e gostar da imperfeição de um corpo que nos completa. Dhora via Robert como um ser perfeito dentro de um coração despedaçado. Mas ela sabia que se alguém podia dar-lhe vida era ela, e estava disposta a reanimá-lo, dando-lhe todas as razões do mundo para ser feliz. Passaram-se 3 semanas de pensamentos, desejos, gemidos abafados e gritos silenciosos. Perdeu a conta à quantidade de vezes que o chamou, que escreveu o seu nome no canto dos seus livros e se declarou em linhas quadriculares de cadernos escolares. Ela estava a aprender a amar na escola da vida, onde nem sempre se passa à primeira, onde nem sempre o sucesso nos ensina. Se sofrer é condição para ter aproveitamento, Dhora estava disposta a sofrer, a chorar, a arregaçar as mangas e gesticular bem alto para que todos vissem o seu sufocar em desejo. O peito batia descompassado e aquela arritmia tirava-lhe o ar - Merda, como te amo, Robert. Como me tens sem querer, sem saberes e sem aproveitares. Vem, beija-me, dá-me um beijo que eu entrego-te o meu mundo, a minha chave, o meu amor. Tranca-me com todo o teu amor, engole a chave do meu peito e jura que não mais a tirarás de dentro de ti. Guarda-a no teu coração. És a minha chave - E o céu negro todas as noites trazia estrelas, luas e sonhos. Dhora já não sabia viver sem ele."

imagem: google

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Diz o meu nome

Odeio quando me chamas. O meu nome é comum, de uma banalidade igual à das pessoas que o dizem. Mas quando ele sai da tua boca agarra-me, prende-me, enfeitiça-me e conquista-me. O meu nome vira teu e eu viro a tua voz. Quando me chamas eu olho-te, escuto-te, respondo-te e quando dei por mim, parei de viver. Arrependo-me de te ter dito o meu nome, maldito dia! Agora desespero por te ouvir, por o ouvir, por o dizeres. E toda a vez que o disseres eu estarei presente. Então grita, berra este meu nome que também é teu. Chama-me à chuva. na tristeza, à luz da lua e no amor. Chama-me e viverei em ti. Por onde andas que não me oiço? Onde estou que não te encontro...

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O coração também se cansa

Sinto-me cansado. Depois de um dia desgastante de casa-trabalho, trabalho-casa, correria de crianças, barulho dos transportes e patrão conflituoso, estou exausto. A minha mente fervilha como se não suportasse nada mais. Tenho a alma cansada, o corpo pesado e não me sinto suficientemente capaz de suportar um novo olhar julgador, um grito agudo da tua voz ou mais uma caminhada pela estrada da vida. E lá vens tu com a loiça por lavar, a roupa mal dobrada ou a cama por abrir. A criança chora porque tem febre e cabe-me a missão de tentar adormecê-la. Respiro fundo e procuro reencontrar-me no meio desta confusão que não é nada mais nada menos que a minha vida. Se o corpo e a alma se cansam que dizer do coração? O meu cansou-se de bater e viver cheio de amor, treme no limbo do lutar e desistir. Viver no limite da perfeição esgota o mais sonhador dos Homens. Estou cansado, preciso de recuperar o coração para voltar a amar. Chego à cama, olho-te e viro-me para o meu lado. Hoje não te amo, desculpa. Estou cansado, dói-me o coração.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A cor do meu destino

Ela aproximava-se de andar ritmado como quem desfila segura de cada passo, ao som de flashes disparados que me encandeavam. A rua encolheu e estreitou, o chão de mil anos virou passadeira vermelha, cor do meu rosto e da minha apatia. O vestido justo, os sapatos altos e a pequena carteira embelezavam ainda mais aquele corpo perfeito. Os seus cabelos dançavam ao vento, embalados pelo tlintar dos seus brincos, ao mesmo ritmo do seu andar. As suas ancas moviam-se como quem seduz. Era perfeita e ainda não tinha chegado. Aproximou-se e vi o seu sorriso simétrico de batom vermelho, a mesma cor do meu coração. Perfeito. Sorri à minha maneira misturando embaraço com vergonha, amor com deslumbramento. Para dentro perguntei se tu eras o meu jackpot. Olhei-te e a resposta era óbvia: o prémio de uma vida, a minha sorte grande. Aproximaste-te com um sorriso cada vez maior, semicerraste o olhar como quem seduz - mas seduzir não é para ti - como quem conquista. Beijaste-me a face e juro que a alma corou. O meu canto do lábio sentiu os teus. Que beijar perfeito, que desejo de provar esse sorriso. Caminhámos lado a lado, entre conversas e olhares, desejos e timidez. A medo dei-te a mão. Sem qualquer receio soubeste receber o meu toque e rapidamente escrevemos um "nós". Este foi o nosso primeiro momento, colorido a vermelho, a cor do meu destino.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Quando as nuvens partirem, o céu azul ficará

O tempo dói, eu sei. Mas o tempo tudo cura, dizem. E o tempo traz tudo o que fizeste com ela, mas agora a sós. Não é o mesmo, com ela vias a felicidade em alta definição, captando surpreendentemente todos os pedaços de alegria que te rodeavam. Hoje vês com o olhar nostálgico de quem já viveu ardentemente, pela metade. A música, o momento, um registo fotográfico do qual te sentes incompleto. O tempo dói. Mas dá tempo ao tempo, mostra-lhe que sabes esperar com a mesma serenidade com que soubeste ter. Assim como o tempo a trouxe também a levou. Pelo meio deixou-a perdurar, conquistando-te de norte a sul. Chegaste a pensar que era ela o tempo que te restava... Ela dói-te. A sua dor ainda te corre nas veias porque o teu coração ainda a tem lá dentro. Mas é tempo de te libertares. Um amor doente apodrece um coração.
Chegou a hora, faz um esforço, por mais hercúleo que te pareça. Olha para o céu e vê o tempo. Ela foi sol, mas um dia toda a chuva parará. Acredita que sairás do Inverno frio em que caíste. Ela é a marca do tempo, mas luta, afinal o tempo é teu, tudo o que te resta. Não a deixes roubar-te a única coisa que ficou. Sorri e vive, liberta-te do que te tornaste. Porque "quando as nuvens partirem, o céu azul ficará".

sábado, 2 de agosto de 2014

Vem

Vem, preciso de ti. Lê-me os lábios secos e inertes, limpa-me as lágrimas que ainda não verti. Invade a minha mente como constantemente o fazes e expulsa qualquer medo. O mero facto de cá estares afasta qualquer nuvem negra. Dá-me a mão, dá-me calor. Beija-me, leva-me às estrelas. Sim, contigo sei que chego às estrelas. Aperta-me com força e faz-me voar. Como sabe bem tirar os pés do chão. Contigo existo, sou dono do mundo. E tudo o que tenho é um coração para te dar...

A minha droga

Entrei no quarto, acendi a luz e pousei o meu pequeno bloco em cima da secretária. Puxei a cadeira e sentei-me em frente ao meu guardião de estados de espírito. Só queria escrever e escrever, ler e reler, voltar a escrever e apagar o que não tinha espaço em mim. Pensava que um dia, daqui a uns anos, quando o lesse iria rir com ironia, chorar com saudade ou arrepiar-me com a nostalgia do tempo. Mas naquele presente momento apenas queria escrever. A minha droga era a caneta, o papel e eu. Eu era o ingrediente principal da receita perfeita. Amava escrever, a minha droga. Estava tão viciado que perdia a noção do tempo. Quando dei por mim, percebi que escrever tinha virado prioridade, sem pressões temporais, sem desprazeres ou dissabores. Até a história triste soava a música para o meu peito. O relógio deixou de ter números e passou a ter letras. Sentia-me extasiado e possuído, sentia-me vivo de um jeito tal que nem o mundo podia competir. Respirava palavras que não dizia, libertava sentimentos que guardava, e mostrava fraquezas que desconhecia. A escrita era a minha droga e estava disposto a deixar-me ir. Decidi ir para onde ela me quisesse levar, recebendo o que estivesse destinado a ser meu. Escrevi sem parar, dias a fio, lágrima sobre lágrima e amores contra desilusões. Tal como na minha escrita, a fraqueza veio ao de cima. Morri ali, naquele quarto, consumido pela minha maldita droga. A escrita matou-me. Quem me mandou sentir tanto...
Despedacei-me em vida, mas quem encontrar aquele pequeno bloco terá o meu enorme coração.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Apenas não te sei amar

Amo-te tanto que talvez não te saiba amar. Quando estou contigo bloqueio, não te sei dizer o quanto te quero, apenas ali fico, esperando que o percebas, aguardando que me o digas. Quando te beijo procuro que seja tão perfeito que nem o provo como queria. E quando falo, fico sempre aquém, nunca é o que verdadeiramente sinto e merecias ouvir. No fundo, não te sei amar porque te amo demais. Não aproveito o que somos porque me perco insistentemente no que devemos ser. E amar é não pensar, amar é dar a mão e deixar-se levar, voar sem ter asas, fugir sem sair do mesmo lugar. Amar é entregar o que somos, do jeito que somos. Se te amo? Não duvides. Apenas procuro - erradamente - a melhor maneira de te amar.

O primeiro concerto

Parece que foi ontem e já lá vão quatro anos. A música, o palco, o entusiasmo do público e tu. O fado, tão português, tão nosso, invadia o ambiente com a sua dor, com aquela palavra sentida e a saudade de algo que muitas vezes se tem. Mas naquele preciso momento senti-me sedento de ti e nenhum verso por mais perfeito que fosse conseguia dizer-te o que vinha cá dentro. Eras linda, a personificação de todas as musas que categoricamente se ouviam cantar. As violas envergonhavam-se perante ti e a voz da fadista, por mais esplendorosa que fosse, seria sempre tímida ao teu lado. Quando me falavas eu juro que tudo mais era silêncio e bastava um olhar para o meu coração desafinar, esquecer as letras e a saudade. O fado cantava o que sentia por ti, a simbiose perfeita entre o querer e o não ter. No espírito carregado de sentimento deste-me a mão e um amor. Ali nascemos. O meu fado és tu.


Aos meus amigos, Durval e Matilde!

terça-feira, 29 de julho de 2014

Eras tudo

O calendário marcava o dia 12 de Fevereiro e fazia 1 ano desde que ele se foi. Os lençóis quentes aqueciam-lhe a alma e os pés estavam gelados demais para caminhar ao desbarato. Ela não temia a morte, apenas ter de enfrentar cada novo dia. Tudo ficou sem cor desde que ele partiu. Fechou os olhos e imaginou-o ali, ao seu lado, onde deveria estar se a vida fosse justa e não pregasse rasteiras inesperadas. Ela nasceu para ser dele e ele sabia-o bem. Passou 4 anos a dar-lhe os motivos certos para a eternidade e não percebia o porquê de a vida lhe dar uma rasteira tão cruel capaz de lhe tirar todas as certezas. Agora viver é não ter motivo, não sentir, não gostar, não aproveitar e não desejar. Cada dia é mais um dia e o somatório de dias agoniza ainda mais aquela insuportável dor. Ela amava-o como sempre o amou, cada gesto, cada olhar, cada palavra. Abraçava a almofada como quem o abraça e cheirava-a como quem inala a última gota do seu perfume. De olhos fechados sentia a suavidade da sua pele. O dia fazia sentido, tudo fazia sentido quando ele vinha à lembrança. Quase jurava que o tempo parava e o coração adormecia a dor. 
Era meio dia e não queria sair da cama. Enfrentar o mundo era violento demais, logo agora que ele já não estava mais ali. Deixou-se ficar no sítio onde sempre estiveram mais próximos: a cama. Ali sempre foram um só, os corpos uniam-se e as almas tocavam-se. Naquele sítio gemia de prazer e ele sugava-lhe todo o desejo. Sempre se sentiu bem ali, sempre foram perfeitos os dois. Permaneceu de olhos fechados e sonhou com ele, dormiu mais umas horas, entre desejos e suspiros, entre o sonho e a realidade. Ele era o seu sonho e tudo o que ela queria. A realidade era a merda da vida.
O relógio marcava 15 horas quando o telemóvel tocou. Era a sua mãe determinada em encontrar justificação para a sua ausência prolongada. Há muito que a casa de sempre ficou para trás. Fazia cerca de 5 anos desde que tinha deixado a sua residência familiar para construir e decorar a sua própria casa, mais modesta, pequena e moderna. Lembra-se como se fosse hoje do dia em que decidiu sair, dos medos que enfrentava e das dúvidas que os seus pais colocavam. Não a achavam suficientemente capaz de arcar com o desafio, mas era uma mulher, tinha 20 anos e todos os motivos para querer ser livre. Conheceu-o um ano depois, aos 21, quando um amigo apresentou-os no bar. A química sentiu-se e ficaram a falar até mais não, sendo praticamente arrastados para permitirem o fecho do estabelecimento. Ele falava-lhe com toda a força interior que um homem pode ter, ela ouvia-o com a atenção de um coração. O coração apoderou-se dela logo ali, naquela noite, e nunca mais a deixou pronunciar-se. Ele falou-lhe para o peito, contando-lhe o que ela não percebia, falando-lhe um dialecto que ela não sabia traduzir. Falava-lhe de amor, de dor, da mágoa, do querer e não ter, do ser e não ser. Ela olhava-o e acenava com a cabeça. Não percebia nem metade, mas era ele... Ele tinha 29 anos, era escritor e tinha-se perdido numa história da qual não sabia escrever. Tinha amado mais do que devia, tinha caído na encruzilhada da vida e não conseguia soltar-se da dor. Falava com tanto sofrimento que ela jurava ser capaz de senti-lo. Disse-lhe que amou dos pés à cabeça, o seu maior erro. - Um homem deve apenas amar da cintura para baixo - Disse-lhe. - Quando se ama uma mulher dos pés à cabeça, está-se a construir a própria sepultura. A mulher não pode sentir que tem o homem na mão, nunca! Se ela se achar dona do destino, do dela e do dele, o homem estará morto e nada mais lhe resta. O peito de um homem nunca se entrega, é tudo o que lhe resta...
Todas as vezes que se lembrava de como o conheceu, lembrava-se destas palavras. Ainda a faziam rir, tanto tempo depois. As filosofias baratas de quem está numa sexta-feira à noite num bar, bebendo memórias e partilhando lamentos. As palavras sofredoras de um escritor mergulhado em paixão. Logo ele, habituado a romances assolapados, a intrigas amorosas e a confusões sentimentais. Como ele disse, uma coisa é sentir com a caneta, outra é sentir com o coração. Ele era misterioso, vivido, trazia a dor de outros amores, a experiência de outros peitos e o gosto de outros lábios. Ele tinha sido provado por outras mulheres e ela começou ali a sentir-se desejosa para o ter. Logo ela, um ser alheado de afectos, louca pela sua carreira e sem espaço para planos bilaterais. Um dia prometeu não entregar-se ao desbarato, hoje luta diariamente pela sua libertação.
Estava deitada na sua cama, o seu porto de abrigo, perguntando o porquê de tanta volta, de tanto amor. Simplesmente o porquê dele. Recordava o seu jeito, a sua voz, o seu toque e a resposta era óbvia. Era ele... era tudo.

O amor tem de ser imperfeito

Podia escrever-te para perguntar como estás, quem és, o que és e no que te tornaste. Amei-te, vivi-te, respirei-te e julguei conhecer-te como ninguém. Penso que nem tu própria te conhecias. Hoje és uma estranha com quem tive o privilégio de partilhar a vida, um mundo que passa por mim como um planeta distante. Quem sou? Continuo a ser teu satélite, continuo a girar em torno de ti. Não te tenho mas as lembranças tornam-te presente, reflectem o teu rosto e o teu jeito de ser. O que nos aconteceu? Talvez tenhamos olhado para direcções opostas e, quando tentámos corrigir, não nos conhecemos. O que vivemos? Amor, do mais perfeito que podemos experimentar. Mas um amor, para ser amor, tem de ser imperfeito, tem de ter espaços por preencher, lacunas que nos fazem querer lutar por mais e melhor. Quando chegámos, ficámos, e o amor não foi feito para chegar, muito menos para ficar. Amor é incerteza, amar é correr atrás. Na nossa estúpida perfeição perdemos o amor, os laços e pior que tudo, não devolvemos nada um ao outro. Largámos os restos ao vento, na esperança de cada um recolher os seus destroços. E um amor assim desfaz-se em mil pedaços, fragmenta-se em estilhaços tão letais que cravam a pele e chegam aos ossos. Ainda hoje te sinto em cada músculo, ainda me fazes levantar e viver, tu, que me prendeste movimentos, que mutilaste o meu peito.
Escrevo porque te recordei, porque senti vontade de dizer que te amei e que te guardo. Pena o amor não ser eterno, a sua maior imperfeição...

segunda-feira, 28 de julho de 2014

O amor mata

Posso dar um conselho? Não ames. Pode parecer estapafúrdio, irracional e ridículo mas é o melhor conselho que te posso dar. Porque não deves amar? Porque amar dá vida e prazer, mas também o tira e...mata! Amar mata. Quando sentires o coração bombear sangue a um ritmo descomunal, quando sentires as tuas veias a dilatarem, o teu ritmo cardíaco disparar e as palavras não saírem como pretendes, pára! Estás a entregar-te ao amor, estás a deixar-te vencer. Lembra-te do tabaco e dos seus maços: "Fumar prejudica gravemente a saúde", "Fumar mata". E o amor, não é igual? Que torna o coração cada vez maior até chegar ao ponto de trabalhar em esforço? E no fim de provares todo o amor, quando ele acabar, sentirás a náusea da sua ausência, o enjoo diário a tudo o que te rodeia e a ressaca daquele estado de espírito que não tens?! Aí o coração fica pequeno, mirra, esvazia-se de conteúdo e tu de sentimentos. Perdes os sentidos, pois sem amor sentir não vale a pena. Não queiras amar, não te entregues, amar é bom demais para morrer assim. Passa ao lado, finge, desvia-te, brinca ao amor, mas não caias nas suas garras. Se morreres de amor morres como um verdadeiro idiota. Se morreres de amor morres com uma ferida no peito que teima em queimar, que demora a propagar-se e a adormecer-te em dor. Morrer de amor é ser assassinado sob a forma de suicídio. 

Não te esqueças, o amor mata.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Só te sei sentir

Passaram anos, histórias, amor e desamor por nós. O sol nasceu, pôs-se, brilhou e escondeu-se dias sem fim. O mundo girou lentamente, mas o calendário mostrou o quão lentos fomos a viver em desencontro. Uma imensidão de vida separa-nos, mas um enorme laço nos une. Não te sei explicar o que é isto que sinto, mas sei que se tentasse explicar não irias perceber. Não perceberias porque só assim, sem palavras certas e precisas nos entendemos. Há coisas que não se explicam, apenas se sentem e eu só o senti contigo (apenas tu, juro que não te escolhi). Ensinaste-me isso com o tempo, o mesmo que me fez viver um mundo e manter-te cá dentro. Gosto de falar contigo, mesmo sem saber o que te dizer. Adoro ler o teu nome, reencontrar-me na tua lembrança. És a paz que trago em mim, a segurança que me deste. E em longo silêncio termino, sem conseguir explicar o que és. Porque escrevo? Talvez para recordar-te. Sim, foi por isso, o teu nome paira na minha mente e sinto-me nostalgicamente vivo. Onde quer que estejas, o teu pôr do sol será igual ao meu.
Obrigado por seres o que só nós dois sabemos. Sei que sabes, ainda que só te saiba sentir.

(e sentir-te presente vale por mil textos)

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O soldado da vida.

A vida é uma guerra. Não duvides disso, nunca. Olhas-te ao espelho e vês-te sem capacete, arma ou armadura. És um soldado raso ao qual a vida trata de dar batalhas duras e destruidoras. Bem-vindo à vida. À guerra, melhor dizendo. A guerra vem de onde menos se espera, quando menos se espera e de quem pensas ser aliado. Só assim se justifica dares o peito às balas, enfrentares um mundo em chamas e resgatares os teus ideais. Não penses que a guerra acaba de um dia para o outro, apenas com uma frase ou um mero acto. O fogo teima em não cessar, os destroços levam o seu tempo a serem retirados do campo de batalha e as feridas custam a sarar. Enquanto tiveres coração sentirás medo. Quem vai à guerra não sai incólume, sem marcas, cicatrizes, sangue ou mutilações. A marca indelével que nem o tempo apaga. Ela preenche páginas da tua história e dá-te lições para a vida.
Quem faz guerra e sai ileso tem um nome e não é soldado. O soldado luta pela paz que tanto lhe custou a ganhar. E se a paz que conquistaste foi tirada, vai, luta, predispõe-te a dar a vida por ela. Um dia hás-de ganhar. Mas lembra-te, a guerra não acaba calmamente. Os fantasmas recusam-se a desaparecer e as vozes que se ouvem teimam em não se calar. Quem luta, resiste e sobrevive é herói, o oposto de quem tira a paz repentinamente. E na guerra, como na vida, quem mata pelas costas é cobarde.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

A rua

Sentei-me nos degraus da rua só para te ver passar. Sei que não querias perceber o que ali fazia, muito menos saber quem sou, mas tinha vindo para ouvir os teus passos, para sentir o teu perfume e ver o teu sol. Se esta rua tem nome, de certeza que é o teu. Degrau a degrau vou suspirando por ti, por entre a calçada irregular e a rua estreita sigo os teus passos. Por onde vais, onde me levas? Não sei, mas vou contigo. No fim saberemos onde estamos, talvez consigamos dizer quem somos. Contigo nunca me sinto perdido. Esta rua é tua e não saberia viver noutro lugar.
Sempre guardamos alguém na memória, alguém que está na frase, na palavra, nas reticências ou no ponto final. Todos temos uma vírgula mal colocada, capaz de roubar sentido à história. Faz parte da vida ter esse alguém. E o alguém que nos invade constantemente a memória é o verdadeiro sinal de pontuação. Estou aqui! - exclama ela. Porque perduras? A minha eterna interrogação.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Quando parece que não tem volta, ela vai e volta, fica e reclama. E quando parece que não é igual, ela traz o inesperado, faz esquecer o passado e demonstra o que somos. Sempre que cansamos de estar, ela muda personagens, traz novas músicas e imagens, dá-nos razões para gostar. E quando pensas que acabou, ouves o coração bater descompassado, suspiras triste para o lado e recordas quem tanto lutou.
E a isto se chama viver, com amor e desventura, sem amor mas com bravura, não sentir é morrer. 

sábado, 19 de julho de 2014

A jura

Um dia pediste-me a eternidade. Lembro-me como se fosse hoje, sem enganos, traições ou desilusões. Pediste-me presença, somente amor. Mas amor sempre me pareceu um pouco demais. Ninguém tem o direito de pedir amor a alguém, é pedir uma imensidão. Temos direito a que nos amem, nunca exigir amor. Fizeste-me jurar que nunca te trocaria e que estaria sempre lá, quando a chuva viesse, quando o frio apertasse, quando a solidão teimasse em não partir. Prometi-te tudo isto e muito mais, sem medo, sem a menor dúvida, só amor. A pés juntos afirmei que jamais te livrarias de mim. É irónico, não é? Quem mais jura, mais mente e a sabedoria está em quem nunca jurou. Será que sente? Será que mente? Não se sabe, nunca falou...

quarta-feira, 16 de julho de 2014


És lixo, eu sou entulho
somos dois restos do que sobrou,
se for teu não farei barulho,
tenho vergonha de quem te amou.

E todos os pedaços em que me desfizeste,
todo o sangue que jorrou,
são palavras que não disseste, 
são derrotas de quem não jogou.

E a dor vai, a dor retorna,
num turbilhão de sensações,
Sou pedra dura e tu água morna,
somos um rio de frustrações.

No fim não estás, nunca estiveste, 
foste o quê? Eu já nem sei.
A mão que tirou, hoje veste,
esse vestido que te dei

terça-feira, 15 de julho de 2014

- Acreditas no destino? Nos milagres da vida que nos fazem duvidar de que somos nós os donos do nosso caminho?
- Não. Hoje não. Não acredito em nada mais do que aquilo que vejo ou toco.
- Como és capaz de dizer uma coisa dessas? Sentes isso?
- Já nem no que sinto acredito. Hoje não acredito em nada nem em ninguém.
- Como assim? Há tanta vida lá fora...
- Mas não há nada cá dentro. E o vazio que sinto engole tudo o que me podem dar.
- Tu não eras assim...
- Se o tivesse sido, talvez agora não estivesse assim.
- Qual é o teu problema?
- Não ter solução.
- És um quebra-cabeças...
- Deveria ter sido um quebra-corações.
- Desisto, hoje não és boa companhia.
- Volta amanhã e talvez consiga ser tudo aquilo que queres.

Ela amava-o por todo o mistério em que ele se envolvia. Adorava isso nele, o suspense de cada novo dia e a imprevisibilidade de cada acto. O pior de tudo era não saber de nada disso, nem tampouco se preocupar em perceber o que revelava. Naquele momento representava muito e pouco, tudo e nada, uma mão cheia de areia que lhe escapava por entre os dedos. Mas ela só tinha de ser forte e paciente, apenas teria de estar lá quando as nuvens negras passassem e o sol voltasse. Ele valeria o esforço, e ninguém ficará incompleto a vida inteira quando somos feitos de lados. O esquerdo ou o direito, o de dentro ou o de fora, o certo ou o errado, não interessa, ela apenas sentia que lhe pertencia e que o completaria, desde que no fim fosse (a)o seu lado. E ela ficava porque acreditava nele, ainda que ele não sentisse nem acreditasse.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Revisitar o passado

Sentou-se no chão do quarto, no lado da sua metade da cama, agora vazia. Abriu a segunda gaveta da mesinha de cabeceira e tirou de lá todas as fotografias, todas as cartas que escreveram, todos os papéis idiotas que trocaram. Aquelas frases eram eternas e aquelas palavras eram memórias de algo que viveu. Mas todos os versos eram lidos no passado. Nada ficou, só ela restou. Ela amava-o, o seu peito era dele e não tinha como o negar. Lia cada palavra que ele lhe tinha escrito e sentia-a no coração, sentia-a nos lábios, ouvia-a sob a forma da sua voz e passava os seus dedos pela tinta seca para sentir a sua presença. Tudo o que ela é, foi construído a dois, tudo o que sonhou ser estava destinado a ser com ele. Não havia maneira de esquecer o que viveu, e viver sem ele é não ter peito, não ter alma, não ter sossego. Bastava que ele dissesse que sentia saudades, bastava ele dizer-lhe que sentia a sua falta. Só ele tinha a chaves da sua mente, só ele podia entrar no seu peito. Dentro de si, só ele, nada mais. Com ele em si nunca se sentia só, sem ele tudo o resto perdia a cor, era inútil.
- Sinto a tua falta, preciso de ti. Não sei o que é viver sem ti, sem nós. Quando voltares, entra devagarinho. Se estiver a dormir, deita-te e enrosca-te a mim. Um amo-te chega, sem desculpas, sem mil perdões. Um amo-te chega e tudo fará sentido. Tu chegas-me e nem o amo-te é preciso. Apenas fica aqui, perto de mim.
Limpou as lágrimas e voltou a arrumar aquelas marcas do passado na gaveta. Fechou-a à chave e fez de conta que não a abriu. Mas mais do que uma gaveta, abriu a alma, desabou a tempestade que guardava dentro de si. Uma vez por semana fazia isso, sentava-se ali e revisitava o passado. Sabia-lhe bem voltar atrás, sabia-lhe bem lembrar-se de que foi feliz. Levantou-se e apagou a luz do quarto. Tudo escuro, como o seu coração. A vida estava de volta.

Ao som do coração

Capítulo 10


O seu carro estava à porta de casa de Leonor e a tranquilidade do prédio contrastava com todo o seu nervosismo. Ele tinha viajado sem parar para procurá-la, para enfrentá-la e fazê-la tremer. Lourenço era um "menino" de Cascais, dono de um porte físico bastante significativo e de um bronze de fazer inveja. Mas o que o destacava dos outros era todo o luxo que ostentava. O BMW topo de gama, o Rolex de ouro e as roupas caras. Deixando de lado a superficialidade, não passava de um homem possessivo, mimado e intolerante à rejeição. Tinha perdido Leonor há ano e meio, com quem namorou 3. Se ao início tinha tudo para ser perfeito, com o tempo vieram ao de cima as suas imperfeições de carácter. A agressividade com que lhe falava, a incompreensão que apresentava quando ela não lhe fazia as vontades e a impaciência que revelava tornaram aquele namoro uma bomba relógio. E acabou por explodir. Agora ele estava à sua porta. Não se contentava com telefonemas a meio da noite ou mensagens diárias. Não, ela namorava e ele sabia que havia outra pessoa na vida de Leonor capaz de a fazer feliz como ele não conseguiu. Tal ideia não o deixava descansar, não por amar Leonor loucamente, apenas porque era louco o suficiente para recusar-se a aceitar que perdeu.A sua loucura deu-lhe forças para esperar uma manhã inteira por ela. Foi perto das 13 horas que a viu entrar. Saiu do carro rapidamente e meteu-lhe a mão no ombro

- Leonor, amor?
Ela arrepiou-se quando ouviu aquela voz. Não que a desejasse, não que o seu coração ainda pedisse para ouvi-la. Apenas porque aquela voz representava medo, trazia lembranças infelizes que o tempo teima não esquecer.
- Desaparece, Lourenço. Para quê isto? Não temos nada para falar.
- Temos sim, amor. Sei que resolveremos tudo - enquanto lhe passava os dedos pela franja meia desalinhada.
- Não. O que existiu entre nós morreu, mataste qualquer amor que senti por ti.
- Não digas isso, não te atrevas. Eu vejo como me amas, como me olhas, como me desejas. Volta para mim.
- Pára! Eu estou feliz com o Guilherme, é com ele que estou e quero continuar a estar.
- Eu mato esse cabrão! Juro! Se ele acha que pode tirar-te de mim está muito enganado! E tu, sempre soube, não és de confiança - estava a revelar-se o Lourenço que Leonor temia. Uma autêntica besta que desfaz qualquer afecto.
- Não sejas estúpido. Chega! Chega!!! ACABOU!

Naquele instante ele agarrou-lhe o braço e tentou força-la a beija-lo. Estava descontrolado, fora de si. Um papel de derrotado do mais agressivo que possa existir. Leonor chorava de dor, vergonha, desespero aflição e medo. Naquele instante chega Guilherme, apanhado totalmente de surpresa com aquela cena no mínimo desagradável.

- Que se passa aqui, Leonor? Quem é este sujeito? - correndo imediatamente para aquela confusão, largando-a daqueles braços ameaçadores.
- Quem é este Leonor? É o teu amiguinho? Este paneleirote que não tem onde cair morto?
- Já percebi quem tu és. Sai, vai embora. Já não tens nada aqui. Tudo o que ela quer só eu lhe posso dar. Tudo o que ela precisa é o que não tens. Vai-te embora, garoto!

 Aquela frase não caiu bem em Lourenço que decidiu tirar de esforço de Guilherme e trocaram empurrões. Foram separados por Leonor e pelo vizinho debaixo que ia a entrar naquele instante. A porta fechou-se e o casal ficou do lado de dentro, perante o olhar atento do ex-namorado ciumento.
Ela chorou a tarde inteira. As pernas tremeram-lhe e a voz faltava-lhe.

- Desculpa Gui! Que vergonha! Ele é um anormal e tu não merecias nada disto! - soluçava e as lágrimas escorriam-lhe cara abaixo. Custava-lhe imenso enfrentar a vergonha do passado.
- Não peças desculpa, não tens culpa de ele ser um anormal. E agora estás nos meus braços, comigo, sempre segura.
- Amo-te! - Disse-lhe a palavra mais poderosa do universo enquanto o olhava seriamente

Ele beijou-a. Não sabia o que lhe dizer. Não sabia se a amava, talvez sim, mas dizer amo-te é dar o máximo que se tem e expor-se ao risco, depositando todas as fragilidades no peito de alguém. Ele só disse amo-te a uma pessoa e não estava disposto a dizê-lo a mais ninguém, para já. Abraçou-a como quem abraça o mundo. O seu regaço era dela, só dela. Enquanto procurava esquecer o momento pensou nos problemas da vida: Sónia e Lourenço, duas marcas da mesma dor. Respirou fundo, beijou a testa de Leonor e disse-lhe que amanhã tudo estaria bem. Não a podia deixar sozinha e passou ali a noite, lado a lado, como um casal tem de ser, forte, juntos, mesmo que um esteja a cambalear.


  Capítulo 11


 Os dois viveram meses de músicas, ensaios, passeios de bicicleta, caminhadas, serões românticos e lençóis molhados. A vida de Leonor tinha mudado, para melhor. Agora tinha mais um desafio pela frente. Motivada pelo incentivo de Guilherme, voltou a estudar, estava disposta a encontrar tempo e forças para acabar o que lhe faltava do curso de Psicologia. Mais, o bar onde cantava passou a ser dela. Um investimento grande mas as paixões são assim, enormes, cheias de sonhos, planos e objectivos a superar. Já Guilherme continuava com a mesma vida do costume, rodeado de livros, problemas, clientes desesperados, sentenças incompreensíveis e recursos urgentes. O trabalho era uma dor de cabeça e não havia mãos que chegassem. Mas o seu patrão confiava cada vez mais nele, na sua capacidade de sofrimento e no altruísmo que demonstrava. Os meses passaram de tal maneira que hoje faziam um ano de namoro. Um ano, 12 meses, 365 dias. Um ano é pouco, irrisório comparado com o que ficou para trás, mas um ano é o primeiro, o começo de tudo, o ponto de partida para algo mais. O tempo, esse tinha voado. Ele recebeu-a em sua casa, agora viviam juntos e partilhavam o mesmo espaço. Mas este primeiro aniversário precisava de uma ocasião especial. Guilherme era um romântico e não gostava de se esquecer de datas importantes, nem tampouco banalizá-las na ignorância do esquecimento. Reservou mesa no restaurante preferido de Leonor, o Restaurante Italiano. De seguida iam ver um filme e acabavam a noite a ver o mar. Ela não sabia o que iria acontecer, ele tinha tudo planeado.Jantaram uma pasta verdadeiramente bem preparada ao som de Laura Pausini e o vinho escorria levemente. Ela estava feliz. Sabia que ele sentia de verdade, era verdadeiro quando a olhava como quem lhe promete a eternidade, era genuíno quando a beijava e abraçava, quando tirava a camisola para lha dar, ou quando trocava de lado à beira da estrada para ser ele a ir perto dos carros. Ele mimava-a de todas as maneiras que sabia e não tinha vergonha de o fazer. Ela sentia-se feliz em cada gesto de amor, em cada atitude exemplar que ele tomava. Como poderia uma mulher ignorar tamanhos cuidados? No fundo, por muito que se façam de fortes, gostam de ter alguém que olhe por elas e se entregue de corpo e alma. Ele estava a mostrar-lhe o lado de lá do mundo. O lado correcto do mesmo.
Saíram do jantar e foram ao cinema, ver uma comédia romântica, o ideal para se rirem e sentirem a boa sensação de ser amado. Mas como se não bastasse, assim que o cinema acabou ele levou-a a ver o mar. Pararam o carro e escutaram o barulho das ondas. Era perfeito, a noite perfeita. Namoraram um pouco, com a paixão ardente que ainda revelavam. A noite tinha sido óptima mas melhor ficara quando ele olhou-a nos olhos e mexeu os lábios lentamente

- Amo-te, Leonor.
Ela não sabia o que dizer. Corou, ficou boquiaberta e apenas se lembrou de lhe pedir para repetir
- Amo-te, Leonor! Amo-te!
- A sério? De verdade?
- Ninguém ama a brincar. Amar é o topo e contigo sinto-me bem lá no alto. Não tenho como não te amar.


Ela atirou-se ao seu pescoço e abraçou-o enquanto o enchia de beijos. Ele era perfeito e ela não tinha como lhe mostrar o quanto simbolizava. Na verdade, desde pequena sonhou em ter um homem assim, correcto, justo, sensato, amigo e presente. Todavia, a sua vida e as suas decisões levaram-na a desacreditar-se, chegando mesmo a pensar que o homem não passava de um rude ser imperfeito. Pois bem, enganou-se, e quando menos acreditava, de onde menos esperava, ele veio e deu sentido a tudo. E ele sentia-se curado, como se as suas feridas tivessem fechado e o sangue estancado. Ele olhava-a e via a perfeição, cada vez mais sua, entregando-se, cada vez mais seu. Era ela, só podia ser ela. E lá estava ele, de novo nas garras do amor.

E quando a música embala o peito, não há como passar-lhe ao lado. Sente-se, canta-se o que o outro ouve, e em sintonia ouve-se o seu cantar que se confunde com a nossa voz. Há sintonia no amor, e quando a música deixa de ser apreciada, o amor morreu. A vida de Guilherme teve essa particularidade, perdeu a música de uma vida, mas ganhou a mulher para uma vida através da música. Ele não a procurou, tropeçou nela, encontraram-se num acaso melódico digno de uma história de amor. Assim se constrói a felicidade, um passo de cada vez, ao som do coração, ao som do amor.


Fim.

Ao som do coração

Capítulo 8


Guilherme e Leonor viviam nas nuvens. As suas personalidades não se tinham mitigado e a privacidade de ambos era religiosamente aceite. Continuavam a fazer as suas vidas com a maior normalidade. Trabalhavam, viviam nas suas casas e continuavam a ter tempo para as suas pequenas rotinas. Mas sempre que podiam procuravam estar juntos e esse bocado era o melhor do dia. Sempre que podiam dormiam juntos, ora na casa de um, ora na casa de outro. As noites de música lá no bar tornaram-se banais e ele continuou a ser o seu maior fã. Todas as noites estava lá e ela fazia questão de demonstrar ao mundo inteiro que ele era o seu homem. Mas 4 meses e meio depois do começo da relação e de toda a cidade começar a reconhecê-los como casal, o telefone de Guilherme toca, dando a conhecer um número que há muito não era visto. Era a Sónia a ligar. A Sónia... as borboletas no estômago estavam lá, nunca tinham saído, apenas não voavam com a mesma intensidade. Ele não atendeu, não podia permitir que ela lhe voltasse a estragar o momento de felicidade. Ela era pródiga nisso. Após o telefonema, em vão, recebe uma mensagem:


 "Olá Gui. Espero que esteja tudo bem contigo. Podemos falar? Temos muito para contar. Beijinho"


Ele não sabia o que responder. Esperou noites a fio por aquilo, procurou-a dia após dia, implorando-lhe uma conversa. Agora, quando tudo parecia ter ficado resolvido, ela aparece pedindo o que recusava. O melhor era deixar para lá, ignorar. Ela já nem estava na cidade, já não tinha nada que a prendesse ali... 
Foi ter com Leonor para almoçar, só ela merecia a atenção e a completude do amor. Se sentia amor pelas duas? Não, não se amam duas mulheres, sob pena de não se amar nenhuma. Por Leonor ainda não era amor, mas com o tempo não tinha dúvidas de que o seria. Quanto a Sónia, já não o era. Ela fez com que todo o amor que sentiu tivesse sido libertado em sofrimento. Agora é mistura de nostalgia com arrependimento. 
Mas o destino tem destas coisas, nesse mesmo dia, ao final da tarde, enquanto fazia as compras que Leonor lhe tinha pedido, Guilherme esbarra em Sónia no corredor das bebidas. Apeteceu-lhe fugir, esconder-se ou pegar numa garrafa de água ardente e bebê-la de seguida, até ao fim. Ela deu-lhe um sorriso sentido, aquele que o derreteu durante anos.


- Olá Guilherme
- Olá.- o olá era seco não por intenção, apenas pela estranheza do momento. Com ela sempre foi assim, sempre ficou sem palavras, sem coordenação, sem qualquer segurança.
- Eu tentei falar contigo hoje e é curioso encontrar-te precisamente neste dia, tanto tempo depois.
- Sim, vi mais tarde que me tinhas ligado e deixaste mensagem. Está tudo bem?
- Sim, está... quer dizer, vai-se andado. A vida talvez não passe disso, de um ir andando constante.
- Sim, talvez seja isso - a vontade de Guilherme era ter-lhe dito que a vida para ela deveria ser sempre assim, um ir andando, longe dele.
- Então e tu? Como estás? Sei que não mereço saber da tua vida, logo eu que tanto mal te fiz
- Deixa para lá, fizeste-me mal sim, mas também me fizeste crescer...
- Já vou tarde para pedir-te desculpas?
- Nunca é tarde. Mas agora não preciso delas. Sinto-me feliz
- Sim, já sei. Regressei ontem à nossa cidade e a Liliana disse-me que estavas a reencontrar-te. Já tens alguém não é? Parece sério...
- Sim, espero que seja sério, mas nunca se sabe o que nos reserva o amanhã...
Ela sentiu o alcance das palavras e engoliu em seco. Uma capacidade que ele sempre teve, dar recados camuflados mas que espetam como agulhas.
- Mereço tudo. Mas queria mesmo era o teu perdão e dizer-te que fui parva. É pena não dar para voltar atrás no tempo e dar valor a quem nos merece.
- Não não foste, seguiste com a tua vida e estás feliz, com outra pessoa e outra maneira de viver.
- Não deu. Foi uma confusão de sentimentos, acabou em ilusão. Agora estou de volta, estou a trabalhar na "SóMáquinas", liderando a equipa de engenheiros químicos. Ou seja, estou de volta à terra que nos viu crescer.

Aquela era provavelmente a pior notícia que podia receber. Sonhou com esta fraqueza durante muito tempo mas nunca pretendeu vê-la implorar algo. Ela podia mexer com os seus sentimentos de uma maneira peculiar e ele tinha medo de demonstrar essa fragilidade. Logo agora que estava no rumo certo. A vida dá cada volta... e ele tinha de ser firme sob pena de descarrilar.
- Bem, lamento. A vida é madrasta e as suas rasteiras tocam a todos. Até um dia Sónia. Felicidades.


Fugiu a beijos de despedida, a explicações ou novos olhares trocados em sentimento. Ela era o seu passado e simbolizava tudo o que o fez tornar-se o homem que é. Deu-lhe tanto que agora o nada era tudo o que restava. Fez o resto das compras com a cabeça perdida, um turbilhão de emoções. Precisava de regressar para os braços de quem realmente lhe quer bem, a Leonor. E ela não merecia um passo em falso.




Capítulo 9


Passaram-se 6 meses desde o início do namoro. Leonor tinha de ir ver a sua avó a Lisboa, estava doente e após a morte do seu filho não mais recuperou. A neta era tudo o que lhe restava, depois da perda precoce dos homens da sua vida. O seu marido morreu aos 30 anos, por uma doença qualquer que ninguém soube com exactidão. Eram outros tempos, em que se morria sem dar valor ao que nos levava. Por seu lado, o seu filho morreu aos 47 anos, de acidente de automóvel, quando se preparava para ir buscar Leonor à escola. Uma vida de tragédias de quem sempre tudo fez para viver em paz. Agora, com a sua neta longe de si, vivia num lar simpático, onde preenchia os seus dias em conversas com gente da sua idade, passeios seniores, programas de televisão e longas sestas. Os seus 82 anos reflectiam-se no andar cambaleante, nos pequenos passos e nas rugas que lhe invadiam o rosto. Os ossos eram frágeis mas o seu espírito forte. Tinha um desgosto, não ter conseguido dar tudo o que a sua menina merecia. Só queria vê-la feliz, conquistando o mundo e beneficiando de toda a positividade que detém. A Leonor merecia, sempre foi uma menina responsável, independente e sofredora. Sempre soube secar as lágrimas à frente de todos e desabar o seu mar de lamentações quando estava sozinha. Foi a avó que a incentivou a sair dali, daquela cidade grande e confusa, após a morte do pai. A mãe dela, essa, só lhe deu a vida, nada mais. Nunca mereceu ser chamada de "mãe". E nesse Domingo, Leonor regressou a Lisboa, agora acompanhada por Guilherme, a sua melhor companhia. Entrou no quarto da avó e deu-lhe um abraço sentido. Aquela senhora foi avó, mãe e tudo o que uma mulher pode ser na vida de uma criança, rapariga e mulher. Toda a família se resumia às duas. Elas riram-se, choraram e iniciaram a típica conversa de quem está afastado. Começaram a surgir as novidades.


- Vó, quero apresentar-te uma pessoa... - E naquele momento fez sinal para Guilherme avançar, ele que aguardava impaciente à porta, observando toda a ternura daquelas duas mulheres fortes, divididas por gerações distintas.
- Muito prazer. Ouvi falar muito bem de si - disse Guilherme de sorriso no rosto enquanto se curvava para beijar aquela face radiante
- Ora essa! Se cá veio é porque é especial. Sei disso.
Ele sorriu e olhou para Leonor como quem pergunta
- Eu nunca dei a conhecer qualquer namorado. És a primeira pessoa que apresento como tal.
Ele não sabia o que dizer. Sentiu-se maior do que realmente era. Sentiu-se mesmo especial. Palavras sábias vindas de uma pessoa experiente
- É um orgulho e um prazer ter sido o tal. Se depender de mim, não conhecerá outro, Dona...
- Maria, chamo-me Maria.
- Encantado! Sou o Guilherme.


E os 3 ficaram ali a falar, virados para o jardim verde e florido. A Dona Maria sentada no cadeirão de palha e Leonor e Guilherme sentados nos pequenos bancos ao seu redor. A conversa fluiu e nem deram pelo tempo passar. A senhora sorria com vontade, de sorriso rasgado, verdadeiro, natural como a sua beleza. A neta era parecida com a Dona Maria e aquele momento despertava em Guilherme a vontade de viver uma vida ao lado de Leonor, poder um dia partilhar tardes de sol ao seu lado, nos cadeirões da sabedoria que a velhice premeia.

No caminho para casa ele agarrou-a e beijou-lhe a testa, fechou os olhos e disse-lhe:


- Obrigado Leonor.
Ela sorriu como quem percebe.
- És parte de mim e se não sentisse isso não te tinha levado lá.

Tudo parecia perfeito, um sonho tão real.

Ao som do coração

Capítulo 6

O relógio despertava, eram 8.30 da manhã e o sol já furava as persianas. Aquela hora era proibitiva a um sábado, ainda para mais depois de uma noite que durou até perto das 6 da manhã. Mas aquela noite foi atípica. O sono foi leve e os sonhos invadiram-lhe a tranquilidade. Sonhou muito, com o que queria e não devia. Tomou um bom pequeno almoço, vestiu uma roupa confortável e saiu de bicicleta. O exercício físico tornava-a activa, bem disposta e afastava-lhe as más energias ou quaisquer dúvidas. Leonor era uma mulher de rotinas diárias saudáveis e o exercício fazia-a esquecer-se de quem era no mundo e o que o mundo verdadeiramente era. Pedalava com um objectivo: ir ver o seu maior amigo, o seu fiel ouvinte, o mar. Lá podia sentar-se e desabafar, contar tudo o que lhe vinha à cabeça.

 O relógio marcava 9.00 horas mas ele contava os minutos fazia tempo. Levantou-se com vontade de ir ver o mar, caminhar e respirar a brisa fresca matinal. Tinha de acalmar o coração, assentar ideias e estabelecer prioridades. Parecia que, num ápice e sem dar conta, um furacão passara pela sua monótona vida, revirando-lhe sentimentos e sentidos há muito ignorados. Ele e o mar, dois amigos de infância e uma imensidão de segredos guardados.

O sol brilhava bem no alto quando Guilherme reparou em Leonor. Ela não o tinha visto, ia concentrada na sua volta e num ritmo bem mais intenso. Ele acenou mas não obteve resposta. Desceu as rochas, pisou a areia e molhou os pés. A água fria e translúcida faziam-no sentir-se vivo. A vida era muito mais do que o coração, mas... o coração trazia muito mais à vida. Após breves minutos de reflexão subiu. Era hora de almoço em família e a casa dos pais era sempre a "sua casa". Eis que, naquele momento, dá de frente com Leonor. Colocou-se na sua rota, confiando de que pararia. A muito custo ela lá estabilizou a bicicleta, não sem antes Guilherme ter posto as mãos no volante e ter dado um salto à retaguarda por precaução.

- Foi por pouco
- Desculpa! Foi mesmo por pouco.
- Está tudo bem, Leonor?
- Está. E contigo, Guilherme?
- Também! O que vais fazer logo, antes do espectáculo, ou depois, ou amanhã...? - a pergunta desajeitada na tentativa de não a deixar ir.
- Não sei quando consigo, estou com pouco tempo para tanta coisa.
Ele sentiu-a um pouco mais fria, mais distante. O beijo que os colou levou-a para longe. Ele conseguia sentir o desconforto nas suas palavras. Limitava-se a responder sem grandes sorrisos e o "Gui" passou a Guilherme. Subitamente, a rapariga que lhe ligou a meio da noite já não pretende ligar-lhe nenhuma. Estranho, verdadeiramente estranha a cabeça das mulheres...
- Mas aparece sempre por lá, no bar. Teremos todo o gosto. O bar é feito de pessoas apaixonadas por música. - tentava finalizar delicadamente, sem grande confiança mas sem má educação.
Ele ouvia-a de orelhas baixas como um cachorro triste. "Nós teremos todo o gosto", não ela... Começava a haver distanciamento entre ambos.
- Tudo bem, Leonor. Então até uma próxima.

O seu orgulho não o permitia rebaixar-se em demasia. Em tempos tinha prometido não voltar a entregar-se ao desbarato. Deu-lhe um pequeno beijo na face e virou-lhe as costas. Ela guardou aquele gesto a sete chaves, demorando a recuperar as forças para pedalar. Inspirou fundo e seguiu o seu rumo. Foram por caminhos opostos, tomaram rumos diversos.

Passaram-se 2 semanas sem falar, sem se verem, sem se cruzarem. Para ele isto não fazia sentido mas era melhor assim, pois a perder que fosse agora, enquanto sente pela metade. Já Leonor sentia o peito encolher a cada novo dia por ver o que estava a fazer àquele homem. Ele não merecia tal atitude, mas primeiro estava a sua protecção. Ele podia não saber boiar no mar de problemas da sua vida, e levá-lo ao fundo era uma culpa enorme, uma cruz que não queria carregar. Amar nunca foi o seu forte, não sabia escolhê-los, nunca soube, e até agora tudo o que ganhou foi medo de se entregar.



  Capítulo 7


Guilherme não aguentava aquela voz interior. Contorcia-se para a acalmar, mas em vão. Precisava da Leonor e estava decidido a encontrá-la. Ela tinha-lhe ligado uma vez e o seu número estava lá registado. Ligou-lhe uma e outra vez, sem resposta. Mas não se cansou, pois o silêncio era tudo o que tinha e nada pior podia advir. Numa outra tentativa, já ao final da tarde, ela atendeu.

- Estou?
- Sim, Leonor...
- Desculpa, Guilherme mas agora não posso
- Espera, não desligues, por favor. Se não pudesses não atenderias. Deixa-me falar.
- Diz...
- Vamos jantar, conversar como dois adultos e resolver isto de vez. Ou tentar. Merecemos uma conversa e talvez uma conversa seja suficiente para percebermos o que queremos
- Ok, uma conversa, não um jantar. Encontramo-nos na praia, precisamente no sítio onde nos vimos pela última vez.
- Tudo bem, combinado. Agora?
- Dá-me 10 minutos e vou para lá.
- Então até já
- Até já. 

Assim que ele desligou ela fechou os olhos e apertou o telemóvel contra o seu peito, envolto nas suas suaves mãos. - Merda, merda, merda... é ele, não desiste! - exclamava alto para só ela ouvir. Sentia-se feliz por ser pretendida, logo por uma pessoa tão especial. Todavia, namorar é abrir mão de muita coisa, sentir mais do que o habitual, sacrificar um rumo em prol de outro. E toda essa ideia dava-lhe uma forte dor de cabeça. Ele não desistiu, um problema, mas uma possível prova de meio amor.

Encontraram-se lá, no mesmo sítio, ao pé das rochas. Ele esperou 5 minutos por ela, como é da praxe. Nunca lhe passou pela cabeça ela não aparecer. Ele sabia que Leonor era forte para encarar, mesmo que fosse frágil para resolver de vez. Pouco depois ela apareceu, de vestido justo, cabelo brilhante e baton apelativo. As suas pestanas eram longas e curvadas, os seus olhos cintilavam. Ela era linda, o seu coração descontrolado confirmava-o, e o facto de estar tanto tempo sem a ver deu-lhe ainda mais certezas. 

- Olá, Guilherme - cumprimentou-o antes de lhe beijar a face
- Uau, Leonor. - ele revelou-se logo na primeira fala.
Ela sorriu e rapidamente corrigiu a postura;
- Obrigada, mas o que nos traz cá?
- Nós. Exactamente nós. O que mudou desde aquela noite em que nos beijámos?
- Isso foi um erro, Gui.
- Um erro? Não me pareceu... e se tu não és comprometida e eu também não, se temos gostos em comum, porque tem de ser um erro?
- Não sejas assim. Deixa a tua retórica para o trabalho. Sê prático!
- O que não estás a ser, nem prática nem justa comigo e contigo.
Desceram e foram ver o mar. Sentaram-se à sua beira, de sapatos na mão e areia nos pés. O mar parecia querer juntá-los.
- Ele quer-nos juntos - Disse Guilherme na tentativa de a convencer da evidência.
- O mar quer que sejamos felizes. E a felicidade nem sempre passa por ser a dois.
- Porque não? Diz-me que não gostas de mim, que não me desejas. Dá-me uma razão para não me deixares continuar na tua vida
- Gui, eu sou um monte de problemas, sou independente desde os meus 16 anos, habituada a pensar por mim, a decidir por mim. Além disso, sofri demais com vocês, homens. E tenho um ex-namorado rico que ainda hoje me persegue. Achas que tinhas espaço nesta confusão? Onde poderias ser tu mesmo?
- Em tudo! Não quero ser a tua vida, quero vivê-la contigo. Quero provar-te que sou eu o homem que representa o plural, e não alguns idiotas em quem te perdeste. E quanto ao ex-namorado, quero ser eu a mostrar-lhe que ele já faz parte do passado, metê-lo naturalmente no seu lugar. Juntos seremos mais fortes.

Ela ouviu e ficou a procurar argumentos enquanto se derretia. Ele era inteligente e parecia tão verdadeiro quanto calmo. Ele beijou-a, o argumento final. Agora era a sua vez. Ela deixou-se beijar desde o primeiro ao último segundo. Entregou-se ao beijo por inteiro só protestando quando terminara:

- Pára, não me queiras convencer assim. Não mereces arcar com os problemas que não são teus.
- Eu mereço-te, do jeito que és. Se não fosses assim provavelmente não estaria aqui a pedir-te uma chance. E eu também sou uma pilha de lixos passados. Também tenho um passado complicado que procuro deixá-lo para trás a cada dia. E acredita, só tu consegues atribuir significado ao ontem, hoje e amanhã
.- Não me magoarás? Não me trocarás por sentimentos adormecidos? Por pessoas que possam reentrar na tua vida? Sei que essa Sónia será sempre a "tua" Sónia.
- Sim, será sempre a Sónia. Para o bem e para o mal. Mas já não somos crianças, somos dois adultos com um passado que nos fez crescer. Também sei que não serei nunca esse teu ex-namorado, Lourenço, certo?
- Sim
- Pronto. Também não tenho certeza de que um dia não me trocarás por ele. Mas confio em ti, sei que te darei todas as razões para nunca o fazeres e a vida é mesmo isso, uma incerteza, um dia de cada vez.

Ela chorou. Não compulsivamente, mas os seus olhos ficaram rapidamente brilhantes e mais claros. O canto do olho ficou lacrimejado e pelo rosto escorreu uma gota de água que valia por mil palavras. Ele limpou-lhe a lágrima com os seus dedos e acariciou-lhe o rosto com a mão.

- Nunca ninguém me disse tais palavras. És especial, tu. Não percebo como ninguém te tenha agarrado antes e nunca mais largado.
- Não digas isso. Sou imperfeito como todos os outros. Talvez mais do que outros numas coisas, talvez menos noutras. Mas sou humano e pouco mais, como diz o Paulo Gonzo.
Ela riu-se. Ele tinha sentido de humor, lidava bem com a pressão e era encantador. Abraçou-o, juntou o nariz ao dele e pediu-lhe com toda a alma:
- Promete-me que serás sempre meu amigo, quererás sempre o meu melhor e nunca me magoarás.
- Prometo-te. Quero ser sempre isso. Quero que sejas tudo.

E assim se beijaram, abraçados, enrolados na areia. Assim correram pela praia, molhando os pés, rindo-se do inexplicável e correndo atrás da felicidade. Eram duas crianças na praia, onde o sol se punha e o amor aparecia. 


- Anda, vamos jantar a minha casa. Irás conhecer o meu lar.
- Combinado - disse Guilherme conquistado por tudo o que aquela mulher dizia. 


Jantaram naquela pequena casa, onde a alegria parece decorar as paredes recheadas de quadros, com o estilo clássico da madeira escura e toque magistral de mulher. No fim do jantar enroscaram-se no sofá, nos braços um do outro. O filme mal ia a meio quando as carícias começaram a aumentar. O desejo invadia aqueles dois. Era a chama ardente inicial, que a paixão faz disparar. Queriam-se como nunca e o quarto de Leonor recebeu-o de braços abertos. Foram amor pela noite inteira, foram amantes em  lençóis finos de seda. Ele ficou na casa dela e ela dormiu no seu peito.