sábado, 7 de fevereiro de 2015

Tu, um mundo e o amor

Se tivesse guardado tudo o que te escrevi, o mundo tinha a minha caligrafia. Mas permaneceu o meu silêncio e, com ele, tu. Toda a tinta que correu a garganta secou. Se o mundo tivesse um nome, esse nome era o teu. Mas o mundo não é nada, nem de ninguém. E, hoje, o chão que pisamos é o que nos afasta da proximidade da nossa memória.

Agora não há chão, não há mundo, não existes. Como pode haver amor...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A única água que me mata a sede 
é a que escorre no teu rosto.
Chora, que venha um rio, mar, 
um oceano de dores salgadas. 
E cada dor, por mais profunda e sombria que seja, 
melhor me fará. 
Quero tomar o gosto das tuas desventuras
e saborear, gota a gota,
toda a angústia que expeles.
Alimenta-me.
Nesse triste lamento serei feliz.
Então chora,
e beberei, da tua face,
um resquício da minha dor.

Nada mais tens para me dar.

Ela

Há sempre alguém que te encontra e te faz reencontrar. Há sempre alguém que te devolve. Ela chega não sabes como e diz não sei bem o quê. A única certeza que tens é a de que te conquistou. Aí percebes que o vazio se foi, a dor adormeceu e o corpo volta a querer. É ela que te quer, que te deseja, por tudo o que encontrou em ti e que tu julgavas estar perdido. Por que é ela? Não sabes explicar, só sentir. O porquê de seres tu? Não percebes, ela não sabe justificar, apenas sentir. E o teu mundo, que parecia grande demais para ti, de repente, vira pequeno demais para os dois. Não importa o quanto tens de palmilhar até estares ao seu lado, nada será tão distante quanto o que tiveste de percorrer até encontrá-la. E assim voltas a confiar num coração, num rosto, num amor. É ela, quem diria que seria ela... Aconteceu, não sabes bem como, mas sabes porquê: É ela.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Por trás de um grande homem há sempre um grande amor

Por trás de um grande homem há sempre um grande amor. E engana-se quem pensa que um homem não ama nem tão pouco sabe amar. Ninguém ama como ele, ninguém se entrega como ele o faz. Em tempos, disseram-me que um dia, quando crescesse, iria provar o doce veneno de uma mulher. Iria saber como elas se movem entre o certo e o errado, entre o querer e o tolerar, o aceitar e o dispensar. Nunca me prometeram um amor feminino eterno, assolapado, recheado de loucuras cinematográficas. Os anos passaram e a vida ensinou-me: a mulher não ama assim. O seu amor tem prazo temporal, é medido e ponderado. Quando ela gosta é porque te aprovou num pensamento prévio calculado, recheado de escalas, comparações e equações. Se te deixa entrar no seu mundo é porque superaste o esquema dos prós e contras. Então, aí, serás bem-vindo, pé ante pé, cuidadosamente, sem grandes planos ou intenções. E, nesse projecto custoso e demorado, ela faz parecer que percorre um mundo por ti. Tu orgulhas-te e os teus olhos cintilam. Chegas mesmo a acreditar que ela move montanhas, ultrapassa oceanos e desventuras só para te ter ao lado. E aqui se vê a imensidão do amor de um homem. Ele ama a sério, fazendo o impossível ser possível com a maior das simplicidades, louco de amor e verdade. Ele não enfatiza o que faz, apenas o que sente. E ela nem liga, afinal de contas, para merecê-la tem mesmo de saltar muralhas, derrotar exércitos e conquistar o lugar mais importante do mundo: o seu coração. E como idiota ele é, quando acredita que ela enfrentou o mundo para estar ao seu lado, quando tudo o que fez foi dar dois passos e convencê-lo de que podia ter ido por qualquer outro caminho, mas está ali. Ainda que nada tenha custado, irá mostrar-lhe que ultrapassou tempestades por cada momento a dois. Certo e sabido, mas ainda assim ele acredita. E o homem, com todo o amor do mundo para lhe entregar, ali fica, pintando-lhe traços diferenciadores das demais, achando-a a mulher perfeita para proteger durante uma vida. Enquanto isso, ela concede-lhe mais um dia. Um dia de cada vez. 
E assim se ama. O homem ama porque a mulher quer, é porque ela concorda que ele seja, e está lá enquanto ela o permitir. O amor de um homem é desmedido, o dela é moderado. No fim, o amor acaba. Ele destroça-se, ela renasce...

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Semana após semana

E se no domingo a bola entra
a festa é rija e o povo dança,
esquece-se a agonia que vem na segunda
porque ao domingo é só lembrança...

Mas a segunda veio e a vida volta,
ele é um ser desanimado
e usa a velha gravata solta
num pescoço apertado

E a quinta traz aquela esperança
perdida na terça, que a quarta duvidou,
só na sexta a alma descansa,
amanhã é sábado e... já passou...

Então vem o domingo e a bola não entra,
na segunda ele não existe,
na terça encara e tenta
mas ainda é quarta, então desiste.

E se ao menos quinta já fosse sexta,
se a seguir ao domingo não fosse segunda...
perdido em mais uma hora extra,
leva um valente pontapé na bunda.

E se hoje não fosse segunda...

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Jurei não voltar a pôr as peças no tabuleiro da vida. Pelo menos da mesma maneira que joguei. Prometi ser cauteloso, sem grandes avanços, somente ligeiros recuos. Pensei que se me quisessem teriam de atacar, vir com tudo, sem medo de perder o que ainda não tinham ganho. Eu já não pensava em ganhar, apenas não voltar a perder. E para perder basta um instante, enquanto que ganhar é uma contínua luta sem fim.
Então chegaste, sem demonstrar os medos que qualquer um sente. Sem te afectares pelos nervos que te consomem. Jogaste sem medos, de forma directa e eficaz. Percebi com clareza o intuito de cada jogada - a tua simplicidade tem essa vantagem. Quando dei por mim, estava a avançar, também sem medos, sem pensar no desfasamento existente entre o que fazia e o que tinha planeado. Estava destinado a encontrar-te a meio, um 50-50, equilíbrio perfeito. Então joguei como já tinha jogado, com o coração e uma louca vontade de (te) ganhar.

Quando jogares, almeja a vitória, pois ninguém gosta de perder.

E se não pensares assim, não venhas, não metas as peças no tabuleiro da minha vida.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Sentidos.

Quero-te. E quem te chama não sou eu, quem fala é o corpo que me move na ânsia de te encontrar. Desejo-te. A minha pele arrepia-se quando penso em ti, quando imagino o teu toque, o teu beijo, a tua voz. Oiço-te, de manhã à noite, mesmo quando tudo aparenta ser silêncio. Adoro a tua voz e o jeito de dizeres o meu nome, tudo mais é ruído. E quando fecho os olhos, mergulhado nesse desejo louco de te ter, sinto o teu sabor, de cada bocado teu, de cada pedaço que faço meu. Agora que a almofada já não tem o teu cheiro, sinto a falta que me fazes. Tu estás cada vez mais longe, mas o coração, esse, nunca arrefeceu.